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Râmakrishna é considerado um dos últimos grandes
santos hindus. Teve seu primeiro êxtase aos seis anos: "Eu
seguia um caminho estreito entre os arrozais... Levantei os olhos
para o céu enquanto mastigava um grão de arroz.
Vi uma bela nuvem sombria de tempestade que avançava com
rapidez. Ela encobriu o céu inteiro... De repente, na borda
da nuvem, em cima da minha cabeça, passou um bando de gruas
de uma brancura de neve. O contraste era tão maravilhoso
que minha imaginação voou para regiões distantes.
Perdi a consciência e caí no chão; o arroz espalhou-se pela terra. Alguém encontrou-me ali e levou-me
nos braços para casa. O excesso do prazer , a emoção
me subjugaram... Foi a primeira vez que experimentei um êxtase..."
Mais tarde, já adulto, Râmakrishna começou
a prestar serviços no templo. Sentia uma necessidade incontrolável
de alcançar o absoluto: "...O sofrimento me dilacerava
. Ao pensar que não teria na vida a graça desta
visão divina, fui tomado de uma ansiedade terrível.
Pensei: se isto deve ser assim, estou farto desta vida!... A grande
espada estava pendurada no santuário de Kali. Meu olhar
caiu sobre ela e um clarão atravessou-me a mente. - Ela!...
Ela me ajudará a por fim... Precipitei-me em direção
à espada. Segurei-a como um louco... E eis que a sala,
com todas as usas portas e janelas, o templo, tudo desapareceu
da minha vista. Parecia-me que nada mais existia. Em lugar disto,
enxerguei um oceano do espírito, sem limites, resplandecente.
Para qualquer ponto que voltasse os olhos, por mais longe que
fosse, avistava as vagas enormes deste oceano brilhante. As ondas
precipitavam-se furiosamente sobre mim, com um ruído medonho,
como se fossem me engolir. Num instante estavam em cima de mim,
arrebentaram, engoliram-me. Enrolado por elas, perdi a respiração.
Perdi a consciência e caí no chão... Não
sei como passei aquele dia e o seguinte. Dentro de mim rolava
um oceano de alegria inefável. E até o fundo tinha
consciência da presença da Mãe divina..."
Suas visões ganhavam intensidade. Numa exaltação
desmedida, rezava, chorava, gritava, cantava, a fim de alcançar
o absoluto. Posteriormente, ele encontraria seu primeiro guru,
uma monja de nome Bhairavi Brahmani, praticante de ritos vaishnavas
e tântricos. Râmakrishna contou-lhe suas visões
e sua ansiedade, achando que estava enlouquecendo. A monja respondeu-lhe:
"Meu filho, bem aventurado é o homem que conhece esta
loucura. O universo inteiro é louco; alguns são
loucos de riquezas, outros de prazeres, outros de glória,
outros de cem outras coisas. São loucos do ouro que possuem,
de seus maridos ou mulheres, loucos de coisas insignificantes,
loucos do desejo de dominar alguém, loucos de todas as
tolices possíveis, mas nunca loucos de Deus... Todos estes
só podem compreender a própria loucura. Se um homem
é louco do desejo do Bem Amado, louco do desejo do Senhor,
como poderiam compreendê-lo?"
Râmakrishna exercitou-se com sua mestra durante três
anos. Após ela ter ensinado tudo que sabia ao jovem discípulo,
era hora de Râmakrishna ir além. Foi então
que Râmakrishna encontrou-se com Totapuri, um sannyasin
(pessoa que renúnciou ao mundo) que havia realizado o Absoluto.
Totapuri ensinou-lhe os conceitos do Advaíta (não-dualidade)
, a forma mais elevada do Vedanta (doutrina puramente metafísica).
Após a iniciação e o abandono simbólico
de toda afeição terrena, após ter vestido
a túnica vermelha de sannyasin , emblema da vida
nova, Râmakrishna iniciou seu treinamento: "...Totapuri recomendou que libertasse meu espírito
de todos os objetos, a fim de mergulhá-lo no seio de Atman
(o Absoluto, totalmente incondicionado). Mas apesar de todos os
meus esforços, não podia atravessar o reino do nome
e da forma, e conduzir a mente ao estado "incondicionado".
Não tive nenhuma dificuldade em libertar a mente de todos
os objetos, com exceção de um único: a forma
muito familiar da radiosa Mãe bem-aventurada, essência
da consciência pura, que aparecia diante de mim como uma
realidade viva. Ela fechava-me o caminho do além. Tentei
diversas vezes concentrar a mente nos ensinamentos do Advaíta
mas, todas as vezes, a forma da Mãe interpunha-se. Tomado
de desespero, disse a Totapuri: "É impossível!
Não consigo elevar o espírito ao estado incondicionado,
para encontrar-me face a face com Atman ..." - Ele
me respondeu severamente: "Como, não pode? É
preciso!". Olhando em volta, avistou um pequeno vidro, segurou-o
na mão e me disse: "Concentre a mente sobre este ponto!"
- Concentrei-me com todas as minhas forças e, tão
logo a forma graciosa da Mãe divina apareceu, usei minha
discriminação como se fosse uma espada, e a parti
em dois pedaços. Não havia então mais nenhum
obstáculo diante da minha mente, que voou imediatamente
para além do plano das coisas condicionadas. E me perdi
no êxatase..."
Râmakrishna havia realizado o nirvikalpa samâdhi
(a suprema realização). Totapuri ao ver tal estado
declarou cheio de admiração: "Adquiriste em
três dias o que eu só consegui depois de quarenta
anos de constante luta". Totapuri, que nunca permanecia mais
do que alguns dias em um lugar, permaneceu por onze meses junto
de Râmakrishna.
No fim de 1866, Râmakrishna encontra um muçulmano
de nome Govinda Rai. Percebendo que Govinda era iluminado pela
presença de Deus, resolve pedir-lhe a iniciação.
Govinda concorda e Râmakrishna passa a seguir todos os ritos
e costumes do islamismo - abandonando por completo os rituais
e deveres hindus - a fim de se integrar perfeitamente nesta tradição.
Ao fim de três dias, tem a visão de Maomé
e realiza o Absoluto.
É importante observar aqui para evitar uma má compreensão
dos fatos - que acabou ocorrendo mesmo entre seus discípulos,
em especial Vivekânanda - que a experiência de Râmakrishna
no islamismo não possui nenhum caráter de sincretismo.
Râmakrishna ao afirmar que todas as religiões - desde
que ortodoxas - conduzem a Deus, não quis dizer com isso
que se pode abolir as religiões em favor de um pretenso
universalismo. Todos os caminhos conduzem a Deus, mas deve-se
seguir um só caminho sob pena de não se chegar
a lugar nenhum. Querer seguir vários caminhos ao mesmo
tempo ou não seguir nenhum afirmando que eles são
relativos, é condenar-se à ignorância pura
e simples. Râmakrishna, ao seguir o islamismo, abandonou
o hinduísmo, pois tinha consciência que não
se deve misturar as religiões. Ao realizar o Absoluto pelo
caminho islâmico, ele se deu conta da validade de outras
religiões, mas nunca mencionou que se deveria misturá-las.
E Râmakrishna só adotou o islamismo depois de ter
realizado o Absoluto pelo caminho hindu, voltando ao mesmo posteriormente. E para a pessoa que alcançou
tal estado de espiritualidade, o caminho espiritual que se adota
torna-se relativo. Para a pessoa que ainda está buscando
a realização, a mudança de uma religião
à outra só torna as coisas mais difíceis,
pois deve-se começar novamente desde o princípio
na nova religião.
Em 15 de agosto de 1886, Râmakrishna morre devido ao agravamento
de sua saúde após um longo período em que
permaneceu doente.
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