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Símbolo e Psique

 

" O tao é mar sereno de puro vazio, perlado, ilimitado, imaculado. Dele nascem dois dragões gêmeos: o macho, brilhante como o sol e estriado de ouro, senhor da ação; a fêmea, radiante como a lua e entretecida de fios de prata, dada à passividade. Sua cópula dá início aos ritmos da mudança cíclica, os movimentos dos planetas, o avanço das estações, a alternância do dia e da noite."1

        Entre outros pontos destacáveis da Psicologia Analítica, certamente o redimensionamento a que vai ser exposto o símbolo sob a concepção junguiana é digno de nota. Ao mostrar que o pensamento simbólico é uma dádiva que permeia toda a vida humana, plasmando, desde a antiguidade, o modo como o homem compreende a si mesmo e ao mundo, Jung trouxe de volta ao mundo científico, através de sua leitura da psique, fontes que, por força de um enfoque por demais racionalista das ciências humanas, haviam sido relegadas a um plano inferior, como os mitos, os contos de fada, as fábulas,etc. Dentro desse contexto, é inegável toda a relevância dada ao símbolo, enquanto fruto da psique, e cuja fonte principal é o próprio sonho.

        Contudo, antes de tratarmos dessa questão sob o ponto de vista junguiano algumas perguntas se sobressaem, como por exemplo: o que é símbolo? O que caracteriza uma determinada imagem enquanto simbólica? O que diferencia o símbolo das demais figuras, tais como, signo, emblema, etc ? Cumpre, portanto, que antes de darmos continuidade ao falar sobre o símbolo, nos debruçarmos mais a fundo sobre estes pontos mostrando as demais figuras de representação, o que significam, e só então voltarmos ao símbolo em si, enfatizando sua origem, seu significado e aquilo a que se presta dentro do campo abrangido pela Psicologia Analítica, donde certamente ficará clara a diferença deste para com as demais. Sendo assim, adentro numa abordagem terminológica destas imagens, pois "se na prática nem sempre são claras as fronteiras entre os valores destas imagens, esta é uma razão suplementar para assinalá-las fortemente na teoria ".2

        Uma das figuras de representação, o emblema é uma figura visível, que dentro de um certo contexto passa a ser representação de uma certa ideia. Outra, o atributo, corresponde a uma realidade ou imagem que é escolhida para caracterizar e distinguir um personagem ou uma coletividade: a balança, por exemplo, é um acessório que, como figuração da equidade, serve de atributo à Justiça.

        Já a alegoria é uma figuração que pode tomar a forma humana, de um animal , de um vegetal, ou mesmo de um feito heróico, de uma virtude, etc. Um exemplo seria a mulher alada como figuração da vitória. Um outro caso, a metáfora, sugere apenas a comparação entre dois seres ou duas situações, enquanto a analogia diz respeito a relação existente entre seres e noções, que devido ao fato de manterem entre si uma tênue semelhança, posto que em suas essências mantêm-se diferenciadas, prestam-se a tal figuração: a cólera de Deus pode apenas em termos de analogia ser comparada à cólera do homem.

        Aquilo que de comum se apresenta em todas essas formas de expressão é o fato delas serem signos, de não ultrapassarem os limites de sua própria significação e representação. É nesse instante que o símbolo distancia-se irremediavelmente do signo, surgindo prenhe de sentido, pronto a oferecer inúmeras possibilidades à consciência que o contempla. O signo, portanto, encerra em si mesmo seu próprio significado, suas próprias potencialidades, enquanto " o que chamamos de símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que... possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida e oculta para nós ".3 " Os símbolos são parábolas do imperecível, apresentadas em manifestações do perecível " 4. No dizer de Henri Cobin: " O símbolo anuncia um outro plano da consciência , que não é o da evidência racional; é a chave de um mistério, o único modo de se dizer aquilo que não pode ser apreendido de outra forma; ele jamais é explicado de modo definitivo e deve sempre ser decifrado de novo "5. Eliade nos diz que " o pensamento simbólico precede à linguagem e a razão discursiva "6 e que " o símbolo pertence à vida espiritual, podemos camuflá-lo, mutilá-lo, degradá-lo, mas jamais poderemos extirpá-lo "7. Cassirer chega a dizer que o homem poderia ser caracterizado como um animal simbólico ao invés de um animal racional8 . Podemos ver que vários foram os autores que já renderam homenagem ao símbolo.

        Agora que respondemos as primeiras perguntas e que caracterizamos o símbolo como uma imagem que encerra em si algo oculto e que vai muito além de sua representação imediata9, cumpre-nos agora o dever de lançar novas perguntas: de onde vem o símbolo, como ele encerra em si tantos significados e por que ele tem o poder de seduzir o homem através do desejo de desvendá-lo, atraindo-o, subjugando-o por uma força que surge à consciência humana como tendo uma origem divina.?

        Para a Psicologia Analítica o símbolo nasce da própria alma, surgindo do próprio conflito psíquico inerente a esta, conjugando em si por um lado, o arquétipo, fonte de sua numinosidade, em si mesmo irrepresentável, já que não possui forma nem norma, configurando o caos do inconsciente, e de outro uma imagem concreta, retirada do meio e que ao revestir e dar forma ao arquétipo, por assim dizer , lhe dá também existência, criando-o e diferenciando-o do caos que é sua verdadeira origem, como se deste modo fosse realizado o próprio ato cosmológico da Criação. Por fundar-se na gênese da alma humana, o símbolo adquire a capacidade de tocar interiormente o homem; é um poder de ressonância, uma identificação entre o símbolo e a consciência que o contempla. Isto acontece porque a realidade que o símbolo expressa não está presa aos traços da imagem em si, mas devido a profundidade de sua essência encontra-se livre para ligar-se a um novo significado a cada instante, ressurgindo como algo novo em cada parte da alma humana

        Segundo Jung10, a energia psíquica estaria vinculada a um certo número de funções, no entanto, devido ao fato do equilíbrio entre tais funções não ser satisfatório, surge um conflito interno que dá origem a um excedente da libido que por não estar firmemente fixada a uma destas funções, já que é um excedente, desprende-se do fluxo natural, criando a possibilidade de uma transformação e consequentemente de uma nova utilização.

        Contudo, em sua forma pura a energia psíquica que é passível de transformação, o é apenas enquanto possibilidade, visto que nesta forma ela não pode ser canalizada para a consciência. Assim, chegamos ao outro lado do símbolo, ou seja, à imagem que reveste e dá forma à libido. Esta é proveniente da capacidade da psique traduzir eventos físicos em psíquicos. Nada que acontece no universo da psique acontece por acaso; assim quando uma imagem em particular é escolhida pela psique para revestir e dar forma a um arquétipo, ela o é porque naquela determinada constelação representa a melhor forma de configuração para aquele conteúdo psíquico que esta a ser constelado. Então, uma imagem simbólica é sempre a melhor maneira como a psique vivencia um fato físico ao nível do psíquico.

        Mas está reservado a esta imagem um outro privilégio além do de revestir o arquétipo, pois é através desta fixação de imagem que esta energia se converte de possibilidade de transformação em transformação real, posto que mediante esta lhe surge a chance de adentrar os limites da consciência, de ser por esta digerida e de lançar por fim, como reflexo de seu objetivo final, uma nova parcela de energia ao EU consciente, ou seja, a imagem torna possível que o arquétipo em si apresente-se à consciência, podendo relacionar-se com esta11. Ao caracterizar-se como um transformador de energia, o símbolo adquire a capacidade de dissolver aglomerações psíquicas que possam surgir como um prejuízo ao equilíbrio psíquico, pois redistribui a energia estagnada, sendo a produção do símbolo nos caminhos virtuais dos arquétipos que tornará possível a utlização da energia psíquica.12

        Pode-se ver quanto é importante a discussão do EU com os símbolos, discussão esta que advém principalmente da tentativa do homem de interpretar seus sonhos; para citar um exemplo entre muitos, os índios Naskapi na América do Norte acreditam que Mistapeo, o emissor dos sonhos, habita o coração de cada homem e lhes dá a tarefa de prestar atenção a estes sonhos, interpretando-lhes e retirando destes um significado.

        Assim, o símbolo canaliza a energia psíquica para a consciência, dá-lhe uma forma utilizável, visto que enquanto imagem exterior concreta pode ser reconhecida e apreendida pelo EU e enquanto conteúdo interior arquétipico faz com que a consciência receba, como fruto desta apreensão, uma nova parcela de libido que alarga-lhe as fronteiras e estabelece uma ponte para o inconsciente, ponte esta que representa o próprio fluxo contínuo da vida, que liga o homem aos recônditos mais profundos de sua alma e lhe coloca frente à frente com possibilidades de existência diante das quais qualquer compreensão racional empalidece ao primeiro contato.

        Como nota-se facilmente, o símbolo tem o poder de exprimir o mundo percebido e vivido pelo homem em função de todo o seu psiquismo e não apenas da consciência. Assim, o símbolo funciona como um substituto de relações, atuando como um comunicador entre o inconsciente, a consciência e o meio. Disto cria-se um enigmático paradoxo, pois o arquétipo que representa o conteúdo do símbolo é coletivo, visto que aprioristicamente existe na psique de cada um de nós e mesmo assim é através dele, desta coletividade, que o homem alcança a individuação, que ele se torna único entre todos os demais. Isto se dá porque os arquétipos que se manifestam nessa relação são singulares para a consciência que entra em seu campo de contato. Estes podem ser constelados ou não, das mais variadas formas e nos mais diferentes momentos da vida, dependendo da vivência pessoal de cada sujeito. No fim, é a consciência, com seu caráter individual que irá determinar a realidade e o significado da imagem simbólica. Enquanto um observador qualquer pode ver numa cruz simplesmente o cruzamento de dois pedaços de madeira, um cristão pode vislumbrar na mesma figura todo o mistério referente a ressurreição do Cristo. Embora cada arquétipo tenha um caráter coletivo, é na dimensão da individualidade que eles serão constelados, representados e vividos.

        Esta é a característica do símbolo. De sua origem obscura ele traz a característica do insondável; em suas potencialidades, ele convida a consciência para participar ativamente da vida inconsciente, gerando vida e estimulando o próprio desenvolvimento humano. Em seu jogo, ele nos faz entrar em contato com algo que não é conhecido, mas pressentido, seduzindo-nos e lançando-nos numa busca de tentar desvendar-lhe o significado e a origem, ao mesmo tempo formadora e destruidora, pois o símbolo se revela naquilo que é simuntaneamente rompimento e união de suas partes separadas, como o princípio incessante da tensão dos contrários unidos numa síntese para logo depois serem separados novamente e a seguir reunidos, constituindo, enfim, o próprio fluxo de nossa vida psíquica.

"Só aquilo que somos realmente
tem o poder de curar-nos"
                                              Carl Gustav Jung
 
 


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