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1. INTRODUÇÃO

Iniciemos com a definição de Deus: "Uma ou mais entidades hipotéticas, normalmente invisível para os humanos, supostamente possuidoras de poderes sobrenaturais". Qualquer outra definição de Deus seria tautológica e, portanto, incorreta.

Em religiões politeístas (polý=muitos; theós=deus), vários desses seres são postulados. Normalmente, presume-se que sejam imortais e que controlem aspectos da natureza ou do destino humano. Embora invisíveis, são imaginados como antropomórficos ou zoomórficos.

Em religiões monoteístas (monos=um), Deus é normalmente considerado um ser onipotente e onipresente que criou, e ainda sustenta, o Universo. É considerado incorpóreo, mas possuidor de uma mente semelhante à humana, capaz de planejar ações, e de poderes capazes de executar essas ações no mundo real.

No Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo, Deus possui também um aspecto pessoal humano, como juiz perfeitamente bom, justo e onisciente de ações e pensamentos humanos. Supostamente, Ele cuida e ama cada um de nós pessoalmente, sendo piedoso e perdoando-nos se o aceitarmos.

Na metafísica cibernética, não há necessidade de postular a existência de um Deus pessoal, como agente todo-poderoso e inteligente que governa o Universo, sendo externo a ele. Com efeito, o papel de Deus como criador e diretor do Universo é assumido pela evolução auto-organizadora. Por outro lado, se tal agente com os atributos tradicionais de onipotência, onisciência e perfeita bondade fosse postulado, isso levaria a inconsistências lógicas. Há muitos argumentos que apoiam essa conclusão.

Contudo, isso ainda deixa pendentes algumas posições filosóficas. A posição escolhida é mais uma questão de gosto do que de lógica, uma vez que parecem equivalentes na maioria dos aspectos práticos. A posição mais simples é o ateísmo, que pressupõe não existir nenhum Deus e, portanto, nenhuma necessidade de pensar sobre o conceito. Uma abordagem mais sutil é o panteísmo, no qual a palavra "Deus" é redefinida e colocada em equivalência com o Universo e a natureza. Nesse espírito do panteísmo, Deus pode ser visto como o mais alto nível de controle do Universo. Deus é para o Universo o que a vontade humana é para o corpo humano. As leis naturais são apenas algumas das manifestações da vontade de Deus. Outra manifestação é a evolução do Universo: a Evolução. Finalmente, existe a posição "intermediária" do agnosticismo", que simplesmente pressupõe que não sabemos se Deus existe, uma vez que nenhum dos argumentos existentes pode provar a existência ou não de Deus.

Examinemos a seguir as posições do ateísmo e do panteísmo.

2. ATEÍSMO

Ateísmo é a filosofia em que não há deuses ("a" = prefixo de negação, "theos" = deus)

O argumento mais simples do ateísmo segue-se da Navalha de Occam (princípio abordado mais adiante). Grosso modo, esse princípio postula que, dentre diferentes explicações equivalentes, deve-se escolher a mais simples. Se não pudermos explicar mais coisas postulando a existência de Deus do que podemos fazê-lo sem essa postulação, devemos preferir a teoria que postula a não-existência. Não é muito relevante o fato de esse princípio não ser suficiente para provar que Deus não existe. Afinal, ninguém pode provar que unicórnios, torradeiras voadoras ou elefantes roxos de 23 pernas não existem, mas isso não torna sua existência mais provável.

Isso pressupõe que a existência de Deus não explica nada. Entretanto, o argumento mais típico a favor da existência de Deus é que a criação por Deus é necessária para explicar a complexidade do universo em torno de nós. Além do fato de que essa mesma complexidade já pode ser explicada pelos princípios simples e diretos da evolução e da auto-organização, a introdução de Deus não contribui de forma alguma para a explicação, uma vez que apenas empurra a explicação do fenômeno uma etapa adiante. Se Deus explica a existência do Universo, o que, então explica a existência de Deus? Uma vez que o conceito de Deus não é nem mais simples nem mais intuitivo do que o conceito do Universo, explicar a origem de Deus não é de forma alguma mais fácil do que explicar a origem do Universo. Ao contrário, uma vez que Deus é, em princípio, insabível, não podemos nem mesmo esperar explicar o fato de Ele vir a ser. Por outro lado, embora o Universo possa nunca ser apreendido em sua totalidade, há definitivamente muitos aspectos dele que são observáveis e compreensíveis, e prestam-se a explicações cada vez mais completas. Concluindo, postular Deus como explicação não apenas torna a teoria desnecessariamente complicada, como até mesmo obscurece fenômenos que poderiam ter sido explicados de outra forma.

Deve-se notar que o ateísmo não está em contradição com a religião. Em sua significação latina original, religio significa "aquilo que mantém unido", implicando uma espécie de filosofia abrangente e um sistema ético que orienta toda a sociedade, sem referência necessária a Deus. Além disso, no sentido mais prático, várias "religiões", inclusive o Zen-Budismo, o Taoísmo e o Confucionismo, carecem de qualquer idéia de Deus e, portanto, podem ser adequadamente chamadas de "religiões atéias". Além disso, as diferentes emoções que normalmente acompanham experiências religiosas, tais como o sentimento de fazer parte de um todo maior, podem muito bem ser experimentadas por ateus, levando ao que pode ser chamado de "religiosidade atéia".

3. PANTEÍSMO

Panteísmo é a filosofia que sustenta que tudo é Deus (pan="tudo" theós="Deus") ou que o universo e a natureza são divinos.

O panteísmo distingue-se do panenteísmo, o qual sustenta que Deus está em tudo, mas também transcende o Universo.

O panteísmo estrito não é um teísmo. Ele não crê em um Deus transcendente ou pessoal que seja o criador do universo e o juiz dos humanos. Muitos panteístas sentem que a palavra "Deus" está muito carregada com essas conotações, e nunca a usam na prática - embora possam utilizá-la para simplificar, ou explicar, as coisas para os teístas.

O panteísmo tem sido freqüentemente acusado de ateísmo, e não apenas por rejeitar a idéia de um Deus pessoal criador. O panteísmo estrito ou naturalista acredita ou que o Universo originou a si mesmo a partir do nada, ou que sempre existiu. O panteísmo científico moderno é materialista. Ele acredita que o projeto do universo pode ser totalmente explicado pelos princípios da evolução e da auto-organização. Ele não crê em espíritos separados ou na sobrevivência da alma após a morte. Os panteístas preocupados com a imortalidade pessoal a procuram de maneiras realistas - através de crianças, atos, obras, e das memórias dos vivos.

Por compartilhar essas crenças naturalistas com o ateísmo, os argumentos a favor do panteísmo são os mesmos argumentos a favor do ateísmo. O panteísmo exprime as mesmas críticas às religiões transcendentais e às crenças sobrenaturais que o ateísmo. É uma religião secular, firmemente arraigada no mundo real dos sentidos e da ciência.

Essa forma de panteísmo é idêntica a movimentos com várias denominações: ateísmo religioso, ateísmo afirmativo, Monismo, ou Cosmismo. Também é muito próxima do Taoísmo, de algumas formas do Budismo chinês ou japonês, e do neoconfucionismo.

O panteísmo estrito difere do ateísmo convencional apenas em sua resposta emocional e ética ao universo material. Ele concentra-se não apenas em criticar as crenças e religiões transcendentais, mas enfatiza os aspectos positivos da vida e da natureza - as profundas respostas estéticas e emocionais que a maioria das pessoas sentem em relação à natureza e ao céu noturno.

O panteísmo naturalista tira conclusões éticas desses sentimentos. Os humanos devem procurar uma harmonia mais estreita com a natureza. Devemos preservar a biodiversidade e os delicados equilíbrios ecológicos do planeta, não apenas como questão de sobrevivência, mas como questão de satisfação pessoal.

O panteísmo oferece meios de exprimir esses sentimentos em cerimônias, celebrando épocas e locais significativos que destacam nossos elos com a natureza, com o sistema solar e com o universo. Tudo isso é possível sem recuar um milímetro em relação à atitude rigorosamente empírica com a realidade encontrada na ciência moderna.

Existem outras formas de panteísmo. Os pagãos modernos freqüentemente afirmam ser panteístas. Aqueles preocupados com a consistência lógica consideram suas várias deidades como simbólicas, e não reais. Aqueles não tão preocupados combinam o panteísmo com o politeísmo literal e a crença em mágica, reencarnação e outros fenômenos sobrenaturais.

Uma alternativa, muito comum entre os "Nova-Eristas", é o panteísmo pan-psíquico - a crença de que o universo/Deus tem uma alma, uma mente ou uma vontade coletiva. Essa versão foi mais claramente expressa por Hegel e, em épocas mais recentes, por A. N. Whitehead e Teilhard de Chardin. Outra variante é a idéia de que os humanos são, de alguma forma, a mente do universo. Nossa evolução - com efeito, nosso auxílio ativo - é vista como um auxílio ao universo para atingir seu potencial pleno.

4. ARGUMENTOS A FAVOR E CONTRA A EXISTÊNCIA DE DEUS

As concepções politeístas de Deus sempre sofreram críticas e derrisão pelas religiões monoteístas. Desde o Iluminismo, os conceitos monoteístas também têm sofrido críticas do ateísmo e do panteísmo.

4.1. ARGUMENTOS A FAVOR DA EXISTÊNCIA DE DEUS

Os filósofos tentaram apresentar provas racionais da existência de Deus, indo além da asserção dogmática ou do apelo a antigas escrituras. As principais "provas", com suas respectivas objeções, são as seguintes:

- Ontológico
É possível imaginar um ser perfeito. Tal ser não poderia ser perfeito a menos que sua essência incluísse a existência. Portanto, deve existir um ser perfeito.
Objeção: Não se pode definir ou imaginar a existência de tal coisa .

- Causal
Tudo deve ter uma causa. É impossível seguir para trás ad infinitum em busca das causas. Ergo, deve existir uma primeira causa que não tenha sido condicionada por qualquer outra causa. Essa causa deve ser Deus.
Objeções: Se for permitido que algo exista sem uma causa, a própria premissa é contradita. Sendo contradita, não há motivo por que o universo não deva ser a única coisa que exista ou se origine sem causa.

- Projeto
Animais, plantas e planetas mostram sinais claros de terem sido projetados para fins específicos. Ergo, deve ter havido um projetista.
Objeção: Os princípios da auto-organização e da evolução oferecem explicações completas para o projeto aparente.

- Argumento moderno do projeto
O Princípio Cosmológico Antrópico. Esta é a carta mais alta na manga dos teístas. As leis do Universo parecem ter sido enquadradas de tal maneira que as estrelas e os planetas serão formados e a vida poderá surgir. Muitas constantes da natureza parecem estar em sintonia muito fina com isso, e as chances contra isso ocorrer por acaso são astronômicas.
Objeções: As chances contra todos os universos possíveis são igualmente astronômicas e, mesmo assim, uma delas deve corresponder ao universo real. Além disso, se há tantos universos, então alguns deles conterão a possibilidade da vida. Ainda que válido, o princípio cosmológico antrópico garante apenas que estrelas, planetas e vida surgirão – não vida inteligente. Nessa forma insustentável, o princípio cosmológico antrópico afirma simplesmente que se estamos aqui para observar o universo, segue-se que o universo deve ter propriedades que permitam o surgimento de vida inteligente.

- Experiencial
Um número muito grande de pessoas afirmam ter experiências religiosas pessoais de Deus.
Objeções: Não se pode pressupor que tudo o que é imaginado em experiências mentais (que incluem sonhos, alucinações, etc.) exista realmente. Tais experiências não podem ser repetidas, testadas ou publicamente verificadas. Experiências místicas e pessoais podem ser explicadas por outras causas.

- Pragmática
As sociedades humanas requerem uma ética para sobreviver. A ética é mantida com mais eficiência se as pessoas temerem a Deus e ao Inferno e esperarem pelo Céu.
Objeções: A utilidade de uma crença não prova sua verdade. Em todo caso, muitas sociedades prosperaram sem tais crenças, enquanto o crime campeou em sociedades teístas que acreditam em Céu e Inferno.

Objeção geral contra todas as provas racionais da existência de Deus: Cada um dos argumentos acima é independente dos outros, não podendo ser logicamente utilizado para reforçar o outro. O argumento da causa - mesmo se fosse válido - provaria apenas uma causa primeira. Ele não diria nada sobre a natureza dessa causa, nem se a causa é mental ou física. Ele não provaria que a primeira causa tenha sido o Deus pessoal, julgador e piedoso do Judaísmo, do Cristianismo ou do Islão. Ele não provaria a existência de um projetista ou de um ser perfeito. Da mesma forma, o argumento do projeto provaria apenas um projetista. O argumento ontológico provaria apenas a existência de um ser perfeito, e assim por diante. Nenhum desses argumentos pode provar, individualmente, que a causa, o projetista ou o ser perfeito sejam o mesmo – eles podem ser três coisas diferentes.

4.2. ARGUMENTOS CONTRA A EXISTÊNCIA DE DEUS

As principais críticas filosóficas ao Deus do Judaísmo, do Cristianismo e do Islão são as seguintes:

- Mal
Pelo fato de o mal existir, Deus não pode ser onipotente, onisciente, amoroso e bom simultaneamente.

- Dor
Pelo fato de Deus permitir a existência da dor, da doença e de desastres naturais, Ele não pode ser onipotente, amoroso e bom (no sentido humano dessas palavras).

- Injustiça
Os destinos não são distribuídos com base no mérito ou na igualdade. Eles são distribuídos ou arbitrariamente ou com base no princípio "àquele que tem será dado, e daquele que não tem será tirado até mesmo o que tiver". Segue-se que Deus não pode ser onipotente, onisciente e justo (no sentido humano da palavra).

- Multiplicidade
Uma vez que os Deuses de várias religiões diferem amplamente em suas características, apenas uma dessas religiões, ou nenhuma, pode estar certa a respeito de Deus.

- Simplicidade
Uma vez que Deus é invisível, e que o universo não é diferente do que seria se Deus não existisse, é mais simples pressupor que Ele não existe (vide a Navalha de Occam).

Note que nenhuma dessas críticas aplica-se ao Deus do panteísmo, que é idêntico ao universo e à natureza.

5. A NAVALHA DE OCCAM

O método conhecido como "Navalha de Occam" postula, in nuce, o seguinte: "Não se deve aumentar, além do necessário, o número de entidades requeridas para explicar qualquer coisa."

A navalha de Occam é um princípio lógico atribuído ao filósofo medieval William de Occam (ou Ockham). O princípio afirma que não se deve fazer mais pressuposições do que o mínimo necessário. Este princípio é amiúde chamado de "princípio da parcimônia". Ele subjaz a toda a criação de modelos científicos e a construção de teorias. Ele nos adverte para escolher, dentre um conjunto de modelos equivalentes de um dado fenômeno, o mais simples. Em qualquer modelo dado, a navalha de Occam nos ajuda a "barbear" os conceitos, variáveis ou construtos que não sejam realmente necessários para explicar o fenômeno. Fazendo isso, o desenvolvimento do modelo tornar-se-á muito mais fácil, e há menos chance de introdução de inconsistências, ambigüidades e tautologias.

Embora o princípio possa parecer um tanto trivial, ele é essencial para a construção do modelo devido ao que é conhecido como a "subdeterminação de teorias por dados". Para um dado conjunto de observações ou dados, sempre existe um número infinito de modelos possíveis que expliquem esses mesmos dados. Isso ocorre porque um modelo normalmente representa um número infinito de casos possíveis, dos quais os casos observados são apenas um subconjunto finito. Os casos não observados são inferidos postulando-se regras gerais que abranjam tanto as observações reais quanto as potenciais.
Por exemplo, através de dois pontos de dados em um diagrama sempre é possível traçar uma linha reta, e induzir que todas as observações posteriores recairão sobre essa linha. Entretanto, também é possível traçar uma variedade infinita das mais complexas curvas passando através desses mesmos dois pontos, e essas curvas se encaixariam da mesma forma nos dados empíricos. Apenas a navalha de Occam, neste caso, orientaria a escolha da relação "reta" (i.é., linear) como melhor candidata ao modelo. Um raciocínio semelhante pode ser feito para n pontos de dados sobre qualquer tipo de distribuição.

A navalha de Occam é especialmente importante para modelos universais como, por exemplo, aqueles desenvolvidos na Teoria Geral dos Sistemas, na Matemática ou na Filosofia, porque aí o domínio do sujeito possui complexidade ilimitada. Iniciando-se com alicerces muito complicados para uma teoria que abranja potencialmente o universo, as chances de obtenção de qualquer modelo gerenciável são realmente muito pequenas. Além disso, o princípio é, às vezes, a única diretriz remanescente ao se entrar em domínios de nível de abstração tão alto que nenhum teste ou observação concreta possa escolher entre os modelos rivais. Na criação matemática de modelos de sistemas, o princípio pode ser tornado mais concreto na forma do princípio da maximização da incerteza: a partir dos seus dados, induza o modelo que minimize o número de pressuposições adicionais.

Este princípio é parte da epistemologia, podendo ser motivado pela exigência de máxima simplicidade de modelos cognitivos. Entretanto, sua significatividade pode ser estendida à metafísica, se for interpretada como dizer que modelos mais simples têm mais probabilidade de estar corretos do que modelos complexos, ou, em outras palavras, que a "natureza" prefere a simplicidade.



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