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Uma jovem pastora chamada
Sujata, filha de um importante aldeão de Uruvilva, tinha feito uma oração
pedindo por um marido e um filho. Quando suas aspirações se concretizaram,
ela decidiu fazer uma oferenda de leite e arroz como sinal de agradecimento
aos deuses.
Sujata então colocou o alimento em um
recipiente de ouro e se dirigiu para a floresta para oferecê-lo a alguma
divindade das árvores. Ao se deparar com Siddhartha próximo ao rio
Nairanjana, a moça pensou que ele era uma divindade da floresta e lhe
entregou a oferenda. Algumas tradições também citam uma segunda pastora,
chamada Radha, que
também teria oferecido alimentos a Siddhartha.
Ele alcançou a
margem e sentou-se para fazer a refeição, depois da qual atirou a travessa
de ouro ao rio, onde ela foi encontrada por uma [serpente mitológica
chamada] naga que a levou para seu palácio. [A divindade hindu Indra ou]
Shakra, no entanto, na forma de um [pássaro mitológico chamado] garuda
arrancou-a das mãos da serpente e a levou para os céus de Tushita.
(Ananda
Coomaraswamy, Mitos Hindus e Budistas)
Os cinco ascetas acharam que
Siddhartha tinha abandonado sua busca pela iluminação e partiram
sozinhos para o Parque das Gazelas em Isitapana (atual Sarnath), próximo à
cidade de Varanasi (atual Benares). Siddhartha foi para Bodh
Gaya em Bihar, o lugar da despertar (sânsc. bodhi-manda), onde os
seres iluminados do passado atingiram a realização suprema. Próximo ao rio,
voltado para a direção leste, Siddhartha sentou-se em meditação
sobre um monte de grama kusha, protegido pela sobra da figueira
de bodhi. Ele jurou para si mesmo que só se levantaria após atingir a iluminação.
Raios de luz emanaram de seu corpo e de sua cabeça, atraindo a atenção dos
seres divinos e também de Mara, o demônio
do ego. Mara ordenou que suas belíssimas filhas — a cobiça, a raiva e a
ignorância — tentassem seduzir Siddhartha com cantos e danças, mas elas não conseguiram
distrair sua concentração. Então, Mara enviou outros demônios para assustá-lo, mas eles fugiram de medo!
Por último, Mara jogou flechas, pedras e bolas de fogo, que se transformaram
em pétalas e faíscas. Mara, cheio de ódio, retirou-se; Siddhartha
continuou a meditar. Primeiro, Siddhartha lembrou-se de suas incontáveis
vidas passadas; depois, ele viu o processo de renascimento de todos os seres;
finalmente, ele alcançou a verdade última de todos os fenômenos.
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Criando mil mãos segurando armas, Mara, sentado no feroz
elefante Girimekhala, aproximou-se com seu exército. Pela virtude da
generosidade e outras mais, o grande sábio [Siddhartha] os conquistou. [...]
Mais violento que Mara, numa luta que durou toda a noite,
foi o Yakkha Alavaka, arrogante e obstinado. pela grande virtude da paciência
e do auto-controle, o grande sábio o conquistou. [...]
O elefante real Nalagiri, completamente louco, investiu
sobre ele, cruel, como um fogo na floresta ou como um raio. Aspergindo as
águas da amizade amorosa, o grande sábio o conquistou.
(Buddha Jayamangala Gatha, citado no Livro
das Devoções)
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Mara enraiveceu-se
como um fogo avivado e aproximou-se do príncipe ordenando-lhe: "Vai
embora!" Mas o bodhisattva respondeu: "Este trono é pelo mérito que
adquiri em muitas longas eras. Como podes possuí-lo se não tens
mérito?" Então Mara jactou-se: "Meu mérito é maior que o
teu!" e chamou seu exército como testemunha, e todos os seus guerreiros
gritaram: "Nós testemunhamos!", de forma que um som como o rugido do
mar se ergueu até o céu. Mas o bodhisattva [Siddhartha] replicou: "Tuas
testemunhas são muitas e parciais; eu tenho uma testemunha única e
imparcial". então ele estendeu a mão para fora de sua vestimenta, como
um relâmpago numa nuvem cor-de-laranja, tocou o chão e convocou a terra para
testemunhar em seu favor. No mesmo instante a deusa terra [Bhumi] surgiu aos
seus pés e gritou, com cem mil vozes, com o som de um tambor cósmico:
"Eu dou meu testemunho", e o exército de Mara fugiu e voltou para o
inferno, como folhas que se espalham ao vento.
(Ananda
Coomaraswamy,Mitos Hindus e Budistas))
[Na primeira vigília
da noite, Siddhartha] examinou, com seu poder
de concentração, a sucessão de nascimentos e mortes durante suas
incontáveis vidas. Por ver esse processo remontando ao início dos tempos —
nascer sob certas circunstâncias, passar pelos dramas da vida, morrer e
renascer — chegou a uma profunda compreensão da impermanência e
insubstancialidade da existência. [...] No segundo
turno de vigília ele contemplou a lei do karma. Ele viu como a força
kármica das ações passadas impele e condiciona os seres através dos
sucessivos renascimentos. Ver seres sendo levados pela ignorância através do
remoinho de destinos díspares, despertou nele a energia de uma profunda
compaixão. Na terceira guarda ele contemplou as Quatro Verdades Nobres e a
lei da geração dependente. Ele viu como a mente se torna apegada e como,
através do apego, há sofrimento. Ele compreendeu a possibilidade de
descondicionar esse apego e de atingir um ponto de liberdade.
(Citado por Joseph Goldstein em Buscando a
Essência da Sabedoria)
No de 528 a.C., aos 35 anos de idade, Siddhartha
realizou sua própria natureza búddhica (sânsc. buddhata) e, conseqüentemente, compreendeu o sofrimento, sua causa, sua extinção e o meio para extingui-lo. Siddhartha
alcançou a iluminação (sânsc. bodhi), e passou a ser
conhecido como o Iluminado, o Desperto (sânsc. Buddha), o Sábio dos Shakyas (sânsc. Shakyamuni).
Seu corpo dourado resplandecia com as 32 marcas maiores e as 80 menores de um ser completamente iluminado.
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Em miríades de nascimentos vaguei na
existência cíclica, antes de descobrir o verdadeiro conhecimento.
À procura do construtor desta casa, cada novo
nascimento trazendo mais sofrimento.
Agora conheço você, construtor desta casa!
Você não mais me aprisionará.
Demoli o
seu topo e destruí sua estrutura até o chão.
A
consciência entrou naquele estado incondicionado, o final definitivo da sede
do desejo.
(Pathama Buddhabhasita Gatha, citado no
Livro das Devoções)
As coisas a serem entendidas foram entendidas, as coisas a serem cultivadas foram cultivadas, as coisas a seres erradicadas foram erradicadas - portanto, brâmane, eu sou o Buddha.
(Sutta Nipata)
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O Buddha descreve a experiência do despertar num dos seus discursos, primeiro surge a compreensão da regularidade do Dharma – que nesse contexto quer dizer a origem dependente – depois existe a compreensão de Nirvana. Em outros trechos ele descreve os três estágios que o conduziram ao insight da origem dependente: compreensão das vidas passadas, compreensão da morte e renascimento de todos os seres vivos e por fim o insight das quatro
nobres verdades. [...] Quando nos referimos à questão sobre como outras experiências
"iluminadas" registradas na história mundial se relacionam com o Buddha, devemos ter em mente aquilo que o próprio
Buddha disse: primeiro existe a compreensão da origem dependente, depois existe a compreensão
do nirvana. Sem o primeiro – que inclui não somente a compreensão de karma, mas também como karma, em si, conduz à própria compreensão – qualquer realização, não importa quão pacífica ou ilimitada, que não resulte desse tipo de compreensão não pode ser considerada como
despertar no sentido buddhista. O verdadeiro despertar necessariamente envolve ambos, a ética e o insight da causalidade.
(Thanissaro Bhikkhu,
O Significado do Despertar do Buddha)
Ele estudou várias religiões mas não ficou
satisfeito com suas práticas. Não encontrou respostas no ascetismo ou nas
filosofias. Ele não estava interessado nos aspectos metafísicos da
existência, e sim em seu próprio corpo e sua própria mente, no aqui e agora.
E quando encontrou a si mesmo, descobriu que tudo o que existe tem natureza
búddhica. Essa foi sua iluminação.
(Shunryu Suzuki,Mente Zen, Mente de Principiante)
[Os buddhas] são seres que anteriormente não eram buddhas. São pessoas que estavam dormindo e que despertaram; em algum momento, a inteligência deles não abrangia tudo o que pode ser conhecido. Estavam como nós, aprisionados no estado de existência cíclica, passando de vida em vida pelos sofrimentos do nascimento, velhice, doença e morte. [...] Antes da iluminação, o Buddha era um ser comum, exatamente como qualquer um de nós; não há ninguém que seja iluminado desde o princípio. Cada um de nós está ou esteve no estado de existência cíclica, passando pelos processos de nascimento, velhice, doença e morte, repetidamente, devido às nossas próprias ações, que são motivadas por emoções aflitivas — emoções com as quais afligimos a nós mesmos.
(Da introdução de Jeffrey Hopkins em
The Meaning of Life from a Buddhist Perspective)
[1] Ele é chamado Bhagavan (senhor abençoado) por haver conquistado os quatro demônios, e por ser contemplado com as maiores venturas.
[2] Ele é chamado Tathagata (aquele que foi assim) porque alcançou compreensão da realidade das coisas, ou porque tudo é exatamente como ele disse e não de outra forma.
[3] Ele é chamado Arhat (vencedor do inimigo) porque derrotou o inimigo das aflições mentais, ou porque é digno de ser homenageado por meio de oferendas e veneração.
[4] Ele é chamado Samyaksambuddha (plenamente iluminado) porque compreendeu todas as coisas de forma verdadeira e infalível.
[5] Ele é chamado Vidyacharanasampana (dotado de conhecimento e de seu fundamento) porque possui sabedoria acompanhada de seu fundamento, pois ele possui moralidade e concentração mental, nas quais se baseia
a sabedoria.
[6] Ele é chamado Sugata (o bem-sucedido) porque alcançou o estado sublime, ou ainda, porque dele não decairá.
[7] Ele é chamado Lokavidu (conhecedor do mundo) porque, ao compreender a natureza dos doze elos do surgimento interdependente, conhece com exatidão o mundo dos seres sencientes e, ao entender a origem da terra, das montanhas e assim por diante
— ao conhecer todas as regiões, suas dimensões e assim por diante
—, ele conhece com exatidão o mundo físico externo.
O condutor de uma carroça atrelará ao seu veículo bois ainda não treinados, caso sejam adequados para puxar o carro. Uma vez colocada a canga sobre os animais, os condutor refreia aqueles que puxam o carro de forma inadequada, e coloca no caminho certo aqueles que se desviam. Os bois que andam muito lentamente, ele incita com o ferrão. Porém, não utiliza aqueles que são refratários, que não se deixam atrelar ao veículo. De igual forma, o senhor Buddha atrela ao caminho dos nobres os discípulos dignos de seres atrelados. Ele coíbe aqueles poucos que, uma vez atrelados, agem de modo contrário ao Dharma sagrado. O Buddha devolve ao caminho verdadeiro aqueles que se desviam para um caminho errado, e incentiva com o ferrão do esforço tenaz aqueles que são indolentes. Com os refratários, que são inaptos para o caminho, ele não interfere.
[8] Ele é chamado Anuttarapurushadamyasarathi (líder insuperável dos disciplináveis) por estas razões.
[...]
[9] Ele é chamado Shastadevamanushyanam > (mestre de deuses e homens) porque o contingente principal de discípulos é composto por deuses e homens, ambos recipientes adequados para o caminho da liberação, e porque o Buddha lhes ensina o Dharma de acordo com as aspirações deles.
[...]
[10] Ele é chamado Buddha (desperto) porque acordou do sono da ignorância, e também porque sua mente se expandiu até o ponto em que abarca todos os objetos de conhecimento.
(Rendawa Shönnu Lodrö,
Sphutartha)
Na primeira semana após a
iluminação, o Buddha Shakyamuni continuou meditando sob a figueira de bodhi.
Na segunda semana, ele voltou o olhar para a figueira. Na terceira semana,
caminhou meditando em um pavilhão de ouro preparado pelos seres divinos. Na
quarta semana, sentou-se em um palácio de outro onde previu o que lhe
aconteceria e todas as palavras do ensinamento (sânsc. Dharma,
páli Dhamma) que ensinaria pelo resto de sua vida. Na quinta semana,
sentou-se sob a árvore ajapala e experienciou a liberação
(sânsc. nirvana, páli nibbana). Na sexta semana, sentou-se perto
do lago da serpente Muchalinda, que o protegeu dos temporais. Na sétima e
última semana de seus 49 dias de meditação, ele se sentou em bosque de
árvores nyagrodha.
Conta-se
que, logo após sua iluminação, o Buddha passou por um homem num caminho
que estava perplexo pelo extraordinário esplendor
e calma de sua presença. O homem parou e perguntou:
"Meu
amigo, quem é você? Você é um ser celestial ou um deus?"
"Não", disse o Buddha.
"Bem, então, será que você é algum tipo de mágico ou mago?"
Novamente o Buddha respondeu, "Não".
"Você é um homem?"
"Não."
"Bem, meu amigo, então quem você é?"
O Buddha respondeu, "Eu sou um desperto".
(Jack
Kornfield, Buscando a Essência da Sabedoria
Dois mercadores de Okkala
(atual Rangun, capital de Mianmar) que
atravessam a floresta rumo à cidade de rajagriha, acabaram atolando na lama com sua caravana. Na
verdade, aquele acidente tinha ocorrido por causa de uma divindade da floresta;
deste modo, os mercadores eventualmente encontraram o Buddha Shakyamuni e
puderam realizar uma antiga aspiração — a de fazer uma oferenda a um ser
iluminado. As quatro divindades vieram do norte, do sul, do leste e do oeste
para oferecer quatro tigelas de esmeralda. Como o Buddha não quis aceitá-las,
as divindades substituíram-nas por quatro tigelas de pedra comum. Então, o Buddha
Shakyamuni transformou-as em uma única tigela e recebeu bolos de arroz e mel de mel dos
dois mercadores. Em troca, Buddha concedeu-lhes o voto de refúgio e eles se
tornaram discípulos leigos. Além disso, os mercadores receberam uma mecha de
oito fios de cabelo
do Buddha como relíquias. Estes fios de cabelos estariam preservados até hoje
na grande stupa dourada de Shwedagon em Mianmar.
A grande compaixão de Shakyamuni fez com que ele decidisse ensinar o
caminho da iluminação às outras pessoas.
Após a sua iluminação, o Buddha estava em Uruvilva, às margens do rio
Nairanjana, e teve o seguinte pensamento: "Esse Dharma que alcancei é profundo, difícil de ver, difícil de realizar, pacífico, refinado, além do escopo da conjectura, sutil, a ser experienciado pelos sábios. Mas essa geração gosta do apego, está excitada pelo apego, aprecia o apego. Para uma geração que se gosta do apego, que está excitada pelo apego, que aprecia o apego, essa condicionalidade e originação co-dependente são difíceis de ver. Esse estado, também, é difícil de ver: a resolução de todas as fabricações, a renúncia de todas as aquisições, o fim do desejo; a imparcialidade; a cessação; a liberação. E se eu fosse ensinar o Dharma e outros não me compreendessem, isso seria cansativo para mim, aborrecedor para mim."
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Assim sendo, o Bhagavan tinha a sua mente inclinada a permanecer em paz, não ensinar o Dharma.
Tendo essa percepção, o Brahma-sahampati pensou: "O mundo está perdido! O mundo está destruído! A mente do Tathagata,
Arhat, Samyak-sambuddha, inclina-se a permanecer em paz, a não ensinar o Dharma!" Então, assim como um homem forte poderia
estender seu braço flexionado ou flexionar seu braço estendido, Brahma-sahampati desapareceu do reino dos Brahmas e reapareceu em frente ao
Bhagavan. Arrumando seu manto sobre o ombro, ajoelhou-se com seu joelho
direito ao chão, saudou o Bhagavan com suas mãos diante do coração e lhe disse: "Senhor, que o Bhagavan ensine o Dharma! Que o Bhagavan ensine o
Dharma! Há seres, com um pouco de poeira sobre seus olhos, que estão caindo porque não escutam o Dharma. Haverá aqueles que compreenderão o Dharma."
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Então o Bhagavan, tendo compreendido o convite do Brahma-sahampati, com compaixão pelos seres, avaliou o mundo com a visão de um Buddha. Tendo assim feito, ele viu os seres com um pouco de poeira sobre seus olhos e aqueles com muita, aqueles com faculdades aprimoradas e aqueles com faculdades fracas, aqueles com bons atributos e aqueles com maus atributos, aqueles que são fáceis de ensinar e aqueles que são difíceis, alguns deles esperando a desgraça e o perigo no outro mundo. Como num reservatório de lótus azuis, vermelhos ou brancos, alguns lótus —
que nasceram e cresceram na água — poderiam florir imersos na água, sem
emergir da água; alguns poderiam permanecer no mesmo nível da água; enquanto alguns poderiam se erguer na água e permanecer sem
ser tocados pela água — assim também, analisando o mundo com a visão de um Buddha, o Bhagavan viu os seres com um pouco de poeira sobre seus olhos e aqueles com muita, aqueles com faculdades aprimoradas e aqueles com faculdades
fracas, aqueles com bons atributos e aqueles com maus atributos, aqueles que são fáceis de ensinar e aqueles que são difíceis, alguns deles esperando a desgraça e o perigo no outro mundo.
Então Brahma-sahampati, pensando "O Abençoado deu seu consentimento para ensinar o Dharma," ajoelhou-se ao Abençoado e, circundando-o pela direita, desapareceu ali mesmo.
(Dhammacakkapavattana Sutta, Samyutta Nikaya LVI:11)
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