Mestra Magda

   A Virgem Negra

As "Madonas" Negras



Nossa Senhora de Czsetochowa

Entre as muitas imagens miraculosas marianas estão as chamadas "Madonas Negras", muitas delas extremamente populares entre os fiéis cristãos. Entre as mais conhecidas temos Nossa Senhora de Guadalupe (México), de Jasna Gara (Czsetochowa, Polonia), de Montserrat (Espanha), Aparecida (Brasil), e outras. Todas tem como característica o fato de terem o rosto, as mãos e os pés negros. Suas histórias e lendas se perdem no tempo, sendo algumas muito antigas. Algumas são originalmente negras, outras escureceram com o tempo ou por causa de algum motivo externo, natural ou não.

Na França são chamadas de "Vierge Noires" e existem cerca de 50 santuários, entre os 125 dedicados à Maria Madalena na Europa, que possuem imagens de Virgens Negras. Ao contrário do que se imagina, elas não estão apenas associadas à Virgem Maria, mãe de Jesus, mas também à Maria Madalena, chamada de "a outra Maria".

Santuário das Duas Marias em Zaragoza, Espanha. Em primeiro plano, o santuário dedicado à Nossa senhora do Pilar, e ao fundo, o dedicado à Maria Madalena, que possui uma Virgem Negra, e que durante a Idade Média, era palco de grandes peregrinações.

Com certeza, muitos santuários ligados à Virgens Negras foram erigidos sobre antigos lugares de culto de deusas pagãs, atitude corroborada pelo próprio Papa Gregório, que exortava os padres a permitirem que os aldeões de províncias pagãs convertidas, pudessem celebrar suas antigas festas e erguer imagens em antigos sítios em que foram erguidas igrejas cristãs. Esta era uma forma de cooptação dos povos recém convertidos à fé cristã.

Algumas estátuas de Virgens Negras, como esta de Rocamadour do sec. IV d.C, na França, tem feições claramente não européias e se parecem mais com antigas estátuas de deusas egípcias. Para Jung, que estudou o fenômeno, elas se referem a um arquétipo feminino de fecundação, ligado à fecundidade de terra, por isso a cor negra, e representam, em sua maioria, a deusa egípcia Ísis. Além de Ísis,Ártemis e Ceres também foram representadas como deusas negras, pois também estavam ligadas à fertilidade e a terra.

O mito de Isis e Osíris

Osiris era o deus egípcio do mundo subterrâneo, ainda que fosse adorado como um deus de fertilidade, ressurreição e da vegetação. Ele era casado com Isis, a deusa do céu, pai de Hórus, o deus dos céus, e protetor dos mortos. Osíris foi morto por seu irmão Seth, que colocou seu corpo em um cesto e o jogou no Nilo, até que foi parar na costa e preso dentro de uma grande árvore. O rei Byblos a tornou um pilar em seu castelo. Isis (que estava procurando pelo marido), descobriu o tronco e o levou junto com o corpo do marido. Quando Seth soube, procurou o corpo e achando-o, retalhou-o em vários pedaços, e os espalhou pelo Egito. Isis e sua irmã, Nephthys, encontraram os pedaços e fizeram modelos de cera deles, para que fossem adorado pelos sacerdotes. Quando finalmente acharam todos os pedaços, estavam tão tristes, que suas lágrimas apiedaram Rá, o deus pai, que enviou Anubis e Thot para ajudá-las. Eles mumificaram Osiris, e puseram seu corpo em uma embarcação com uma carranca em forma de cabeça de leão. Isis soprava uma brisa sobre Osiris. Ele não podia permanecer no mundo dos vivos, e foi enviado ao mundo subterrâneo para servir como seu soberano e julgar as almas dos mortos. Mais tarde, Hórus irá derrotar Seth e se tornar o primeiro faraó do Egito.

Podemos encontrar vários pontos em comum entre os mitos cristãos e o mito de Osíris. Assim como o dividido Adão Kadmon, o corpo de Osíris foi espalhado pelo Egito, aqui claramente representando o mundo material. Da mesma maneira podemos lembrar do corpo de Cristo sendo repartido entre Seus apóstolos. Como o Cristo que morre e efetua Sua ressurreição, Osíris também voltou dos mortos, sendo cultuado como um deus da fertilidade, pois assim como o Cristo, representava a natureza, onde tudo nasce, morre e volta a renascer. Isis procurou e remontou o corpo de ser esposo, e era venerada pelos antigos como uma deusa da morte e dos ritos mortuários. Da mesma maneira, Maria Madalena procurou pelo corpo de seu mestre amado, para efetuar os ritos de sepultamento.

Era natural que, com o passar dos anos, as comunidades pagãs convertidas efetuassem o sincretismo das duas figuras. Como Isis era comumente representada com seu filho Hórus no colo, figuras de madonas negras com o Cristo no colo foram erigidas para lembrar os antigos santuários da deusa Isis e de demais deusas. Além disso, Valentiniano, o principal autor gnóstico, era claramente influenciado pela mitologia grega e egípcia, fazendo o sincretismo das características fertilizadoras femininas através de Sophia/Maria Madalena. Outra fonte de imagens de Virgens Negras seriam os Cavaleiros Templários, que as teriam trazido da Terra Santa para a Europa. A entrarem em contato com as culturas do Oriente Médio, principalmente no Egito, os cavaleiros do templo encontraram várias similaridades entre os diferentes cultos religiosos do Ocidente e do Oriente. Além disso, sabiam que essas imagens representavam as diferentes manifestações do mundo divino nas diversas culturas. Curiosamente, na regra que São Bernardo criou para a Ordem do Templo, constava a obediência à Betânia, aos castelos de Maria e Marta, num alusão ao castelo de Maria Madalena mencionado nas Lendas Áureas. Foram os Templários que associaram o culto das virgens negras à Maria Madalena, e também Bernardo foi o primeiro a associa-la à noiva morena dos Cânticos de Salomão.

O que é inusitado é que existem várias imagens de Virgens Negras associadas à Maria Madalena que estão com uma criança no colo, o que sempre intrigou os historiadores e os especialistas em religião comparada.

Madalena é considerada a apóstola da França, e sobre sua chegada à terra, fugindo da perseguição aos cristãos na Palestina, existem várias versões. Algumas delas contam que ela e José de Arimatéia desembarcaram em Saintes-Maries-de-la-Mer, em algumas versões juntamente com Maria Salomé e outra Maria, e em outras versões com Marta e Lázaro (desta vez confundida com a irmã destes). De qualquer maneira o nome do lugar é dado às Marias que lá desembarcaram, e o curioso é que, além da adoração ao lugar onde desembarcaram as personagens sagradas ao cristianismo, existe uma festa anual celebrada pelos ciganos de origem tcheca, que vão até lá para adorar Santa Sara, através de uma estátua de uma virgem negra.

Kali Sara, ou a "Sara Negra"


Imagem de Kali Sara

Originalmente ela é chamada de Kali Sara, ou a "Negra Sara", e os ciganos executam uma grande procissão pelas ruas da cidade, cultuando uma santa cuja estória se perdeu no tempo. Alguns acreditam que ela era uma pescadora de origem cigana moradora da região, que teria testemunhado o desembarque de Maria e José de Arimatéia, e que, ao perceber que o barco onde estavam as três Marias estava adornando, teria pulado na água, e como exímia nadadora, salvado seus ocupantes. Outra versão diz que ela era uma criança de pele morena, que teria desembarcado juntamente com Maria Madalena e que seria sua filha com Jesus. Desembarcando na França, teria dado origem a linhagem dos francos Merovíngios10, que seriam descendentes da sagrada família. Nesta visão, Madalena teria levado para a Europa o Sangue Real, que com o passar do tempo, em franco, se tornou a palavra Santo Graal. Durante a época da suposta chegada de Maria Madalena à França, os ciganos cultuavam a deusa Astarte, e já realizavam procissões anuais carregando sua imagem. Esta deve ser a origem do culto atual, que foi misturado às lembranças históricas e lendas, ao perceberem uma nova manifestação de sua divindade.

A busca por uma linhagem sagrada do homem Jesus animou a mente de várias pessoas ao longo dos séculos, mas não há nenhum escrito da época sobre o assunto. A necessidade que anima esta esperança é a mesma que animava os judeus da época do Cristo, quando esperavam um Messias rei e guerreiro. Os homens procuram a solução de seus problemas no mundo da matéria e esquecem que a verdadeira linhagem do Cristo, Seu Sangue e Seu Corpo, são doados a todo momento na Eucaristia, e pertencem a todos os homens. Este é o Sangue Real que Madalena poderia ter levado junto consigo em sua peregrinação, e ele é mais forte e transformador do que qualquer objeto.

De qualquer modo, as Virgens Negras são uma manifestação legítima e poderosa de Fé, na medida em que sabemos que Deus se manifestou à todos os homens, em todos os tempos, de acordo com a capacidade de entendimento de cada cultura. E a cada um deu, sua parte da Gnose Sagrada. E Maria, como a Apóstola dos Apóstolos, e a noiva sagrada dos Cânticos dos Cânticos, também se manifesta através deste poderoso símbolo. E a criança sagrada que traz junto de si, é o Cristo Oculto que fez nascer dentro de seu coração purificado.

Sou morena, mas formosa
Ó filhas de Jerusalém"
(Cântico dos Cânticos cap. 1 v.5).

Simbologia de Maria Madalena



Maria Madalena e o Ovo Vermelho

A palavra "Símbolo" vem do grego Symbolon, que significa: prova de reconhecimento entre duas pessoas, formada por um objeto (caco de argila, moeda) cortado em dois, cada um detendo uma metade, e que servirá de sinal de ligação por ocasião do reencontro ou da identificação por um meio indireto. O símbolo hermético reúne, portanto, dois "fragmentos de alma" que já constituíram parte do mesmo todo. É o caminho do visível para o invisível.

Quatro são os principais símbolos associados a Maria Madalena: O Jarro, O Crânio, o Livro e o Ovo Vermelho.

O Jarro

Este símbolo dispensa maiores comentários do porque estar associado à Maria Madalena, já que ela foi associada à várias passagens da bíblia sobre mulheres que ungiram o corpo do Senhor, com um liquido que estava em um jarro. Além disso, o Jarro nos lembra o cálice sagrado, também era representado por uma cornucópia, que dispensava alimento espiritual à todos o que o tocassem.

O Crânio

De conotação mais hermética, o crânio pode estar ligado a diversas interpretações. A mais comum delas é a de que é um símbolo de penitência, pois nos mostra o quanto a vida é efêmera diante da certeza da morte, e do quanto é necessária a penitência como forma de se purificar para a vida eterna.

O crânio também está associado à ressurreição por ser um símbolo da morte física. É o arquétipo da renovação espiritual, do abandono da vida anterior ligada ao mundo da matéria, da renovação da natureza. Como ela foi testemunha da ressurreição do Cristo, foi associado à ela este símbolo.

Outra associação possível é com o nome do lugar onde o Cristo foi crucificado: o Gólgota, ou "lugar das caveiras". De acordo com o tradição mística cristã, Cristo foi crucificado no mesmo lugar onde o corpo de Adão havia sido enterrado. Quando o sangue de Cristo foi derramado, ele penetrou no solo sagrado e purificou o Adão original, abrindo caminho para sua absolvição e reintegração. Ali, no centro anímico da Terra, o fogo renovou a natureza, e por ser uma das testemunhas da Sua crucificação, Maria Madalena, assim como a Virgem Maria, são associadas ao símbolo.

O Livro

Maria Madalena também é muitas vezes representada juntamente a um livro aberto, sobre o qual ela medita sobre os conhecimentos deixados pelo Mestre. O Livro é a Gnose, é o Novo Testamento, ou Aliança deixada pelo Cristo aos seus discípulos. Como principal discípula de Jesus, Madalena continua como a portadora do Conhecimento que abre o espírito ao Espírito Divino. Ela decifra o verdadeiro conteúdo e simbologia das escrituras, buscando o sentido interior da palavra escrita. Pode ser também a representação do fato de que, à Maria Madalena, foi associado o quarto evangelho, senão como sua escritora, mas como sua inspiradora, pois é o evangelho que mais fala do amor e do espírito. Além disso, há o fato de que o quarto evangelho foi atribuído ao "discípulo mais amado" do Cristo, epíteto este utilizado pelas comunidades cristãs primitivas mais à Maria Madalena do que à João. Outro detalhe é que, em sua cruz, Jesus pede ao "discípulo mais amado" que cuide e vele por sua mãe, Maria. Como sabemos pela descrição da cena pelo próprio autor do quarto evangelho, ao redor da Cruz só estavam as três mulheres, e entre elas Madalena. Isto poderia representar que era a ela que Cristo se dirigia, e não a nenhum outro discípulo.

O Ovo Vermelho

Diz a tradição que, após partir para a Europa, Maria Madalena conseguiu uma audiência em Roma com o imperador Tibério César, por ser considerada uma patrícia romana (assim como Paulo). Sua intenção era denunciar o crime cometido pela negligência de Pilatos, e para isso contou-lhe a vida do Cristo, Sua morte e Ressurreição. Ao terminar seu relato, ela pegou sobre a mesa de jantar um ovo branco para ilustrar seu ponto de vista sobre a ressurreição. Ao ver isso, César replicou que era mais fácil um ovo branco se tornar vermelho do que existir alguém que retornou dos mortos. No mesmo instante, o ovo nas mãos de Maria se tornou vermelho como sangue. Até hoje os cristãos ortodoxos trocam ovos vermelhos na Páscoa para comemorar esta estória.

O ovo é o símbolo do nascimento, de tudo o que está em germe para ser gerado e dar à vida. É o símbolo da unidade primordial, que trás em si o que irá emanar. É a gestação do Novo Homem, símbolo da unidade da qual viemos e para qual iremos retornar.

Cultuar seus símbolos é uma forma de evocarmos os auspícios de Maria, e meditar sobre eles é uma forma de penetrar em seus mistérios.

Santa Maria Madalena

Padroeira dos Destituídos

Cripta em Jerusalém

Desde o início da idade média, Santa Maria Madalena tem fervorosa devoção, principalmente na Europa, de todos os destituídos, prostituídos, pecadores e despossuídos, que estão em busca de um verdadeiro arrependimento. Várias instituições foram criadas levando o seu nome, para o acompanhamento e orientação, principalmente, de mulheres vítimas da prostituição.

Diz a lenda, que após a volta do Cristo para junto de Seu Pai, Maria Madalena partiu em busca do isolamento, passando o resto de sua vida em penitência e adoração ao Cristo, habitando em uma gruta. Como não se alimentava, anjos vinham constantemente em seu socorro, até que veio a falecer e sua alma foi levada por um cortejo de anjos, para o céu, junto ao seu Salvador.

Algumas lendas situam esse período de penitência em um deserto na Palestina, outras contam que ela e outros discípulos, emigraram para Europa. Ela teria ido até Marselha, na França, e depois a Burgundy, vivendo em uma gruta em Ste, Baume. Lá ela teria vivido até o fim de sua vida, quando foi assistida em seu leito de morte pelo bispo Maximinus, que lhe deu a extrema unção e a enterrou.


Igreja de Maria Madalena em Vezelay

Seu corpo teria sido descoberto em uma igreja perto dessa gruta, e levado até Vezelay. Lá estariam suas relíquias, sendo que a cidade tem sido palco de intensa peregrinação desde o século X. Na idade média, Vezelay não perdia em importância nem para San Tiago de Campostela. Reis, Patriarcas da Igreja e personagens históricos fizeram peregrinação até a cidade em busca dos auspícios da santa.

O fato da lenda nos contar sobre a penitência de Madalena em uma gruta, nos lembra, mais uma vez, do simbolismo de nossa Alma presa em eterna penitência em nosso corpo físico, em busca de sua reintegração com o Cristo.

O fato de ser associada a Maria de Betânia e a pecadora de Lucas, apesar desvirtuar o mistério que há por detrás do símbolo, não a desmerece mas sim a engrandece, na medida em que amplia o caráter de Fé, Amor, Humildade e Misericórdia desta Santa, verdadeira companheira do Cristo, no seu sentido mais espiritual: a Redimida a espera de seu Redentor.

Nosso grande mestre Martinez de Pasquallys, em sua obra "Tratado da reintegração dos seres criados", quando discorre sobre Abel e Cain, nos diz : "A perda do indivíduo corporal do Cristo, operada pelos homens na presença das duas mulheres, Maria de Zebedeu e Maria Madalena, tinha sido figurada pelo crime de Cain contra seu irmão Abel na presença de suas duas irmãs. As duas mulheres que acabo de nomear acompanharam a Cristo em todas as suas operações espirituais divinas, assim como as irmãs de Cain o acompanharam em suas operações malignas".

Maria Madalena quando presenciou a Ressurreição do Cristo recebeu Deste um Mistério : ali a Alma teve as portas do céu abertas para si. Como exemplo de Apóstola e Adepta, ela nos trás a possibilidade de redenção através da procura do Cristo em nós mesmos, através do isolamento interior e da Fé. Peçamos a ela seus auspícios, sua Luz, seu Amor e sua Fé, e façamos com ela a seguinte oração :

Deus Todo Poderoso, cujo filho abençoado purificou Maria Madalena de corpo e alma e a chamou para ser testemunha de Sua ressurreição: Misericordiosamente concedei pela Sua graça que possamos ser purificados de todas as nossas enfermidades, físicas ou morais, e que O conheçamos no poder de Sua vida infinita, aquele que junto de Vós e do Espírito Santo vive e reina, Deus único, O Cristo, agora e sempre, Amém.


Assunção de Maria Madalena
Assunção de Maria Madalena






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