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O Nobel de Leonardo Boff



Leonardo Boff


Matéria do Jornal O Globo de 10 -11 - 2001


O Correto Modo de Vida


Adiando uma operação urgente — está usando uma clara bengala devido a um problema no fêmur — no dia 3 de dezembro, o escritor e teólogo Leonardo Boff estará em Estocolmo para receber, no Parlamento sueco, o Prêmio Right Livelihood (Correto Modo de Vida), um Nobel alternativo. Foi em 1980 que um rico filatelista, Jakob von Uexkull, decepcionado com o desvio do Prêmio Nobel de seu papel humanístico, resolveu criar a sua própria premiação, no valor de US$ 187 mil, que este ano foi concedida a quatro intelectuais. Entre eles se encontra o brasileiro Leonardo Boff, “por unir em sua vida espiritualidade, justiça social e proteção do meio ambiente”.

O coração bateu forte ao ganhar o Prêmio Nobel alternativo?

LEONARDO BOFF: Mais do que honrar uma pessoa, este prêmio consagra uma causa. E a causa dos meus últimos 20 anos foi tentar unir o grito dos pobres, de onde nasceu a Teologia da Libertação, ao grito da Terra, de onde nasceu o discurso ecológico. O que os une é a opção pelos pobres, ser contra a pobreza e a favor da vida. Entre os pobres está o grande pobre, que é o planeta Terra, explorado, pilhado pela voracidade do processo industrialista moderno. Todos nós somos reféns de um modelo de civilização que explora as pessoas, as classes, as nações e extenua os recursos escassos da Terra. Precisamos de uma ecologia da libertação. Meu livro “Ecologia, grito da terra, grito dos pobres” acolheu este desafio, ao unir ecologia, física quântica, o discurso teológico e a espiritualidade.

Este livro, ao qual você atribui o prêmio, foi escrito em 1995, não?

BOFF: Ele foi editado em 1995 e saiu praticamente ao mesmo tempo na Alemanha, na Espanha, nos EUA, na Itália, tendo feito um bom caminho dentro da discussão ecológica. Há editoras estrangeiras que sistematicamente publicam minhas obras. Elas passaram a editar o que eu escrevo em função do discurso da Teologia da Libertação, que hoje é uma das tendências mais fortes do mundo cristão e ecumênico. E que nasceu aqui.

Foi a Teologia da Libertação que causou a sua ruptura com a Igreja, não?

BOFF: Em 1984 tive a honra de sentar na cadeirinha de Galileu Galilei, no Santo Ofício, em Roma, que hoje se chama Congregação da Doutrina da Fé. É no edifício do Santo Offici, à esquerda das colunatas do Vaticano. Estive naquela salinha onde, depois de serem torturadas, as vítimas da Inquisição eram interrogadas. Passei na frente de uma grade enorme cheia de espinhos de ferro para fora e perguntei a meu inquisidor: é aqui a sala da tortura? E ele me deu uma cotovelada...

E aí se deu a sua separação da Igreja?

BOFF: Em 1984 foi o interrogatório, em 1985 veio a punição, o silêncio obsequioso, a deposição da cátedra, não podia falar nem escrever. Um ano depois o Papa, pressionado pela Igreja do Brasil, tirou a suspensão, eu pude falar, mas mantiveram o controle

Até quando?

BOFF: Até 1992, durante a ECO. Em 1992, eles me pediram novamente para guardar silêncio, não viajar, não dar aula, e aí eu disse não, na Igreja devem valer os direitos humanos, o teólogo só tem uma arma, que é a palavra escrita e falada. E como eles não cederam eu tive que tomar a decisão de me afastar, mas continuei como teólogo, escrevo, dou cursos. Agora mesmo dei um curso de um semestre na Universidade de Heidelberg.

Então até 1992, enquanto você aceitava o controle, não havia rompido com a Igreja?

BOFF: Eu não rompi em termos da comunidade de fé. Eu rompi como padre. Até 1992 ainda era padre franciscano. Roma gostaria que eu me tornasse diretor da Coca-Cola em Bangu, mas eu continuei como teólogo. Eles não gostam que quando um teólogo saia continue teólogo. Quem que vai querer viver de teologia? Só a Igreja mesmo. Ao ser colocado fora da Igreja, você tem que ser outra coisa. Mas eu recebi logo uma carta da Uerj, em julho de 1992, e fiz concurso, tornei-me professor. Continuei fazendo teologia, ética, dando cursos no exterior, escrevendo livros. Não sou mais padre, me autopromovi a leigo, mas continuei com a mesma função de teólogo de antes.

É como teólogo que defende suas idéias?

BOFF: Teólogo, mas de uma forma interdisciplinar, ecumênica. Quem sabe só teologia não sabe nem sequer teologia. A teologia é um discurso de articulação. Você tem que discutir a teologia com a física quântica, com a ética, com a globalização, com os direitos humanos. Dialogar com a contemporaneidade. É isso que dá força aos meus textos...

Você diz em seus livros que a ecologia não é do meio ambiente, é do ambiente inteiro...

BOFF: Tento trabalhar as quatro ramas fundamentais da ecologia: o meio ambiente, que eu nem chamo mais de meio ambiente, falo em comunidade de vida. Trato também da ecologia social — discuto a questão da pobreza, a nível mundial, que é uma questão da ecologia, pois afeta o ser humano que é parte da natureza. Trabalho a ecologia mental, aqueles preconceitos e estruturas mentais que levam às guerras, à violência, à discriminação, e a quarta, que é a ecologia integral, a Terra é parte de um todo, que é o cosmos, que é o sistema solar, galáctico. E daí vem toda uma reflexão a partir da nova cosmologia, que vê o processo revolucionário como processo único, e contraditório, que tem caos e cosmos, e quanto mais ele se expande mais complexo fica e quanto mais complexo mais carregado de consciência, até chegar à consciência do ser humano, e a vida como auto-organização da matéria. Nós, seres humanos, vivemos porque há uma interrelação de todos com todos, entre todas as energias do Universo. A ecologia integral deve incluir a totalidade do ser, e não só ficar na dimensão antropocêntrica ou terracêntrica.

O homem, a terra, o cosmos... Por aí passa seu conceito de Deus?

BOFF: É verdade. Mas o que eu acho que é a grande novidade, o que torna meu trabalho conseqüente em termos de paradigma novo, visão nova da Terra, é a visão que os astronautas têm da Terra. Quando eles vêem a Terra lá de fora, eles dizem que não há distinção entre Humanidade e Terra, tudo é uma unidade só. O ser humano é a própria Terra que no momento de sua evolução começou a sentir, a pensar, a amar. Nós somos Terra, nós não estamos sobre o planeta Terra, somos a própria Terra, que pensa, que ama... Homem vem de húmus, de terra fértil. E a gente esquece que Adão vem de adama, e adama é terra fértil. Há mitos sobre isso criados pelos indígenas, mitos de criação. Nós somos Terra. E a Terra é a grande mãe. Somos filhos da Terra. A Terra tem o comportamento de um superorganismo vivo. O oxigênio da terra, milhões e milhões de anos, sempre a 21%. Se tivesse a 22%, um raio queimaria todo o oxigênio. Todos os elementos físicos e químicos têm uma calibragem ultra-sofisticada, um equilíbrio próprio dos organismos vivos. Tudo é vida. É a teoria de Gaia. Eu incorporo isso. Tento pensar primeiro sobre dados científicos, com mediação filosófica, para permitir um discurso teológico. E debato, dentro de um discurso espiritual-cultural, que mudanças poderíamos fazer para salvar este planeta que podemos destruir de 25 maneiras diferentes. Acho muito pouco cair um avião sobre o Pentágono. Deviam cair 25 aviões.

Vinte e cinco aviões sobre o Pentágono?

BOFF: É preciso destruir o Pentágono todo. No Pentágono estão todas as estratégias de destruição da vida e do planeta. Lembra o Carl Sagan, que orientou a viagem dos americanos à Lua? Se quiser ter uma grande experiência espiritual, cósmica, leia “Pálido ponto azul”, o livro dele. A última foto que um satélite americano fez antes de deixar o sistema solar — um satélite que circulará ao redor da galáxia por bilhões, trilhões de anos, carregando mensagens num disco de ouro, fórmulas matemáticas, um choro de criança, mil línguas humanas — foi a de um pálido ponto azul, num fundo preto... Sagan escreveu este livro e dois anos depois morreu. É o testamento dele. A nossa cultura criou o princípio da autodestruição. Com as armas atômicas e biológicas, podemos destruir a terra com 25 formas diferentes. Temos muito poder e nenhuma sabedoria. Temos que desenvolver o princípio de co-responsabilidade. Em nome disso eu participei da elaboração da Carta da Terra, feita pela Comissão da Terra, um grupo de 23 pessoas coordenado por Gorbachov e Maurice Strong, que organizou a ECO-92. Nós propusemos descrever os direitos da Terra. Trabalhamos oito anos sobre isso até que no ano passado ela foi aceita na Unesco. Entrará ano que vem na agenda da ONU. Se ela for aprovada, terá o mesmo valor que a Carta dos Direitos Humanos. E em nome dela será possível prender os Pinochets ecológicos. Há uma consciência de que o destino da Terra e da Humanidade está sob grave ameaça. Desta vez não haverá uma Arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou morremos todos.

Esta carta é ambientalista ou também une o grito dos pobres com o da Terra?

BOFF: Batalhei muito para que entrasse neste documento esta dimensão espiritual, social. Os grandes capítulos são: respeitar e cuidar da comunidade de vida; integridade ecológica de todos os seres, não só seres humanos; justiça social e econômica, e o quarto democracia, não violência e paz. Tudo isso como ecologia. E eles me pediram que escrevesse um gran finale . Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência diante da vida, por um compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela rápida luta pela justiça, pela paz e pela alegre celebração da vida...

Mas estamos vivendo o contrário, medo, desespero e guerra. Mantém a esperança de que conseguiremos um dia salvar a Terra?

BOFF: Acho que estamos no coração de uma crise civilizacional. Nossa civilização globalizada não tem mais recursos internos para oferecer um horizonte de esperança para a Humanidade. Ela só consegue se manter com emprego maciço de violência. Violência física ou econômica, que acaba com as economias regionais, vitima empresas, cria uma acumulação fantástica. Segundo Noam Chomsky, 230 famílias detêm 80% da riqueza mundial. Nunca conhecemos tanta exclusão como agora. O desemprego é estrutural.

Viviane Forrester fala que acabarão criando campos de concentração para os desempregados, os marginais..

BOFF: Os níveis de pobreza, de conflito, são insuportáveis para uma consciência ética mínima. Estamos no coração de uma crise. Para mim, o atentado nos Estados Unidos tem um caráter simbólico. Este sistema se sustenta sobre três pilares fundamentais: sobre o sistema econômico, altamente competitivo e nada cooperativo, derrubado nas duas torres. Ele é defendido pelo aparato militar, e o Pentágono foi atingido. É articulado pela política da Casa Branca, sobre a qual ia cair um avião, derrubado antes. Simbolicamente as três pilastras foram atingidas em seu significado central. Os ícones do sistema. Isso significa que a Humanidade está perplexa porque no fundo a lição que a história nos dá é dizer: por aqui não há caminho. Ou mudamos, ou vamos ao encontro do pior. Vivemos uma crise de travessia. Isto é, não é o fim do mundo, mas o fim deste tipo de mundo.

Cecilia Costa

Matéria do Jornal do Brasil de 14 -06 - 2002

Terra, corpo de Deus


No dia internacional do meio ambiente, sozinho num canto do jardim onde posso ver tudo sem ser visto por ninguém, fui tomado de comoção pela majestade das montanhas que guardam, quais guardiães, minha casa, e pelo azul profundo do céu matinal. E então celebrei como outrora. O horizonte era o altar, o pão sagrado, a Terra inteira, e o cálice, o espaço formado por duas montanhas que se abrem em forma de V. Li textos sagrados. Meditei salmos de louvor pela grandiosidade da criação. Sobre a patena do horizonte ofereci o inteiro universo com suas galáxias, miríades de estrelas e incontáveis planetas. E eis que chegou o momento mágico e místico da consagração. E então, com as mãos trêmulas pelas energias cósmicas que entranham a realidade, e com os lábios incandescentes pelo fogo das palavras sagradas, pronunciei com reverência:

''Terra minha querida, Grande Mãe e Casa Comum! Finalmente chegou tua hora de unir-te à Fonte de todo ser e de toda vida. Vieste nascendo para isto, lentamente, há milhões e milhões de anos, grávida de energias criadoras.

Teu corpo, feito de pó cósmico, era uma semente no ventre das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram, te lançando pelo espaço ilimitado. Vieste aninhar-te, como embrião, no seio de uma estrela ancestral, no interior da Via-Láctea, transformada depois em Supernova. Ela também sucumbiu de tanto esplendor. E vieste então parar no seio acolhedor de uma Nebulosa, onde já, menina crescida, perambulavas em busca de um lar. E a Nebulosa se adensou virando um Sol esplêndido de luz e de calor. Ele se enamorou de ti, te atraiu e te quis em sua casa, junto com Marte, Mercúrio, Vênus e outros planetas. E celebrou o esponsal contigo. De teu matrimônio com o Sol, nasceram filhos e filhas, frutos de tua ilimitada fecundidade, desde os mais pequenininhos, bactérias, vírus e fungos, até os maiores e mais complexos seres vivos. E como expressão nobre da história da vida, nos geraste a nós, homens e mulheres.

Através de nós, tu, Terra querida, sentes, pensas, amas, falas e veneras. E continuas crescendo, embora adulta, para dentro do universo rumo ao Seio do Deus-Pai-e-Mãe de infinita ternura. Dele viemos e para ele retornamos com uma implenitude que só Ele pode preencher. Queremos, ó Deus, mergulhar em Ti e ser um contigo para sempre junto com a Terra.

E agora, Terra querida, realizo o gesto de Jesus na força de seu Espírito. Como ele, cheio de unção, te tomo em minhas mãos impuras, para pronunciar sobre ti a Palavra sagrada que o universo escondia e tu ansiavas por ouvir:

'Hoc est corpus meum: isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue.' E então senti: o que era Terra se transformou em Paraíso e o que era vida humana se transfigurou em vida divina. O que era pão se fez corpo de Deus e o que era vinho se fez sangue sagrado.

'Finalmente, Terra, com teus filhos e filhas chegaste a Deus. Te fizeste Deus por participação. Enfim em casa.

'Fazei isso em minha memória'. Por isso, de tempos em tempos, cumpro o mandato do Senhor. Pronuncio a palavra essencial sobre ti, Terra querida, e sobre todo o universo. E junto com ele e contigo nos sentimos o Corpo de Deus, no pleno esplendor de sua glória.''



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