Kuan Yin

A Deusa da Misericórdia

O Anjo da Guarda do Budismo

Da mesma forma que Nossa Senhora representa o espírito que guia Roma, para os fiéis do budismo esse espírito é representado por Kuan Yin.

De acordo com uma lenda chinesa maravilhosa, no momento em que estava pronta para entrar no Céu, Kuan Yin ouviu um clamor angustioso vindo da Terra embaixo, e, comovida de piedade, parou quando os seus pés tocavam o glorioso limiar. Daí o seu nome ‘Kuan (Shih) Yin’ (uma pessoa que se conscientiza ou, ouve o clamor, ou prece, do mundo).

Houve uma época em que Kuan Yin era sempre representada na forma masculina; porém, na dinastia T’ang e nas Cinco Dinastias, encontramos sua representação feminina, e desde então, geral embora nem sempre invariavelmente, é a que se mantém.

Shâkyamuni, o deus principal no budismo antigo, continua ocupando o cargo de honra em diversos templos, mas é totalmente ofuscado pelo Deus ou Deusa da Misericórdia.

"Os homens a amam, as crianças a adoram, e as mulheres oferecem suas orações em cânticos. Seja qual for o templo, quase sempre no seu interior há uma capela de Kuan Yin; ela encontra moradia em muitos lares, e reina no altar de muitos corações. Considerada a deusa padroeira das mães, e ao lembrar-nos do valor relativo de um filho na tradição chinesa, podemos avaliar a sinceridade do ritual oferecido a ela. Kuan Yin protege-nos nos momentos de tristeza, e portanto, a prece, "Grande misericórdia, grande piedade, salve da miséria, salve do sofrimento", é oferecida milhões de vezes, ou, encontrada em livros, "Grande misericórdia, grande piedade, salve da miséria, salve do mal, expansiva, grande, eficiente, responsiva Buda Kuan Yin". Ela salva o marinheiro perdido no mar pela tempestade, e portanto, ofuscou a Imperatriz do Céu, que, representada pela versão feminina de Netuno, é a padroeira dos marinheiros; durante as secas, os mandarinos oferecem louvor ao Dragão e Emperador Perolado, mas se esses falharem, a Deusa da Misericórdia de bronze que habita nas colinas, faz chover. Outros deuses são temidos, ela é amada; outros possuem rostos negros e desdenhosos, mas sua fisionomia é radiante como o ouro e suave como os raios da lua; aproxima-se das pessoas e as pessoas aproximam-se dela. O seu trono encontra-se sobre a Ilha de Pootoo [P’u T’o], à qual Kuan Yin chegou flutuando sobre um lírio-d’água. Representa o modelo da beleza chinesa, e dizer que uma mulher ou uma menina é uma ‘Kuan Yin’, trata-se do maior elogio que se atrubui a graciosidade e ao encanto. Considerada feliz por festejar seu aniversário em 3 ocasiões – o 19° da segunda, sexta e nona luas". Há diversas metamorfóses dessa deusa.

A Salvadora Budista

"O seu nome Kuan Yin atribui-se ao fato de qualquer clamor de miséria ela ‘ouve a voz e remove a tristeza’. O seu apelido é ‘O Buda que nos livra do medo’. Em caso de encontrar-se no meio do fogo e invocar o nome Kuan Yin, não se queimará; se arremessado por vagalhões gigantescos, invoque seu nome e alcançará águas rasas. Se comerciantes atravessam o mar buscando ouro, prata, pérolas e pedras preciosas, e deparam-se com uma tempestade que ameaça a levar todos ao reino maligno do diabo, se alguém a bordo invocar o nome Kuan Yin, o navio será salvo. No meio de um conflito, se o nome Kuan Yin for invocado, a espada e lança do inimigo caem ao chão sem causar nenhum dano. Se os 3,000 grandes reinos são visitados por demônios, invoque o seu nome e esses demônios não conseguem olhar ninguém com seu olho malígno. Se, interiormente, tem maus pensamentos, apenas invoque Kuan Yin e seu coração será purificado. O nome Kuan Yin, ao ser invocado, pode dispersar a ira e a raiva. O lunático que ora a Kuan Yin alcançara a sanidade. Kuan Yin concede filhos à mães, e se a mãe pedir uma filha esta será linda. O homem que oferece os cânticos com os nomes dos 6.200.000 Budas, numerosos como as areias do Ganges, tem o mesmo mérido que aquele que simplesmente invoca o nome Kuan Yin. Kuan Yin pode tomar a forma de Buda, príncipe, sacerdote, freira, estudiosa, qualquer forma ou aspecto, pode ir a qualquer reino, e pregar a lei em toda a Terra."

Miao Chuang deseja um Herdeiro

No 21° ano do reinado de Ta Hao, o Grandíssimo da Dinastia do Céu Dourado, um homem chamado P’o Chia, cujo primeiro nome era Lo Yü, um régulo empresário de His Yü, apoderou-se do trono durante 20 anos, após 3 anos de guerra. O seu reino era conhecido como Hsing Lin, e o título de seu reinado era Miao Chuang.

De acordo com o escritor chinês, o reino de Hsing Lin situava-se entre a Índia ao oeste, e o reino de T’ien Chêng ao sul, e o reino de Siam ao norte, e tinha 3000 li de comprimento. As fronteiras diferem dependendo do escritor. Nesse reino, os 2 líderes do Estado eram o Grande Ministro Chao Chên e o General Ch’u Chieh. A Rainha Pao Tê, cujo nome de solteira era Po Ya, e o Rei Maio Chuang, na faixa dos 50 anos de idade, ainda não tinham um filho homem para suceder o trono. Motivo de grande pesar para os dois. Po Ya sugeriu ao Rei que o Deus de Hua Shan, a montanha sagrada no oeste, tinha a reputação de estar sempre disposto a ajudar; e que se orasse a ele e pedisse seu perdão por terem derramado tanto sangue durante as guerras que precederam sua ascensão ao trono, esse deus conseguiría um herdeiro.

O Rei aceitou a sugestão, mandou buscar Chao Chên e ordenou que ele dispachasse ao templo de Hua Shan, os 2 Ministros Chefes de Cerimônias, Shi Hêng-nan e Chih Tu, com as instruções solicitando que 50 sacerdotes budistas e taoistas orassem por 7 dias e 7 noites a fim de conceder um filho ao Rei. No final desse período, o Rei e a Rainha iríam pessoalmente oferecer sacrifícios no templo.

Orações aos Deuses

Os enviados levaram diversos presentes raros e de muito valor, e por 7 dias e 7 noites o templo ressoou os sons de tambores, sinos, e todos os tipos de instrumentos, mesclados com as vozes dos sacerdotes que oravam. Logo que chegaram, o Rei e a Rainha ofereceram sacrifícios aos deuses da montanha sagrada.

Porém, o Deus de Hua Shan sabia que o Rei havia sido despojado de um filho homem, como castigo pelas sangrentas hecatombes durante os 3 anos de sua guerra. Os sacerdotes, no entanto, intercederam por ele e insistiram que o Rei tinha vindo pessoalmente para oferecer os sacrifícios, e que portanto, o Deus não poderia rejeitar sua oração por total. Desse modo, ele ordenou Ch’ien-li Yen, ‘Mil Olhos-li’, e Shun-fêng E^rh, ‘O Ouvido dos Ventos Favoráveis’, a irem rapidamente e verificarem se não havia alguém que estivesse prestes a reencarnar nesse mundo.

Os 2 mensageiros voltaram logo em seguida, e disseram que na Índia, nas Montanhas de Chiu Ling, na cidadezinha de Chih-shu Yüan, vivia um homem bom que se chamava Shih Ch’in-Ch’ang, cujos ancestrais de 3 gerações haviam observado todas as regras acéticas do budismo. Este homem era o pai de 3 filhos, o mais velho Shih Wên, o segundo Shih Chin, e o terceiro Shih Shan, todos dignos seguidores do grande Buda.

O Assassinato de Tais

Wang Chê, um chefe bandoleiro, e 30 de seus seguidores, viram-se perseguidos e perturbados pelos soldados indianos, sem terem o que comer e nem onde dormirem, morrendo de fome, foram a Shih Wên e imploraram por comida. Sabendo que estes eram malfeitores, Shih Wên e seus dois irmãos recusaram-lhes qualquer coisa; disseram que se morressem de fome, os camponeses não sofreríam mais de suas devastações. Após o que, os bandoleiros decidiram que era um caso de vida por vida, e assaltaram a casa de uma família rica de nome Tai, incendiaram a casa, assassinaram 100 homens, mulheres e crianças, e levaram tudo que a família possuía.

Imediatamente, o t’u-ti local fez um relato a Yü Huang.

"Esta família Shih", respondeu deus, "tem dedicado a boas obras por 3 gerações, e certamente os bandoleiros não mereciam nenhuma piedade. No entanto, é impossível negar que os 3 irmãos Shih, ao recusá-los alimento, moralmente os compeliram a saquear a casa da família Tai, assassinando todos com espadas ou chamas do incêndio. Não seria a mesma coisa se tivessem cometido o crime eles mesmos? Que sejam presos e acorrentados na prisão celestial, e que nunca mais voltem a ver a luz do sol."

O mensageiro do Deus de Hua Shan disse, "Já que, sua gratidão à Miao Chuam compele a ceder-lhe um herdeiro, porque não pedir a Yü Huang que perdoe seu crime para reencarnarem no ventre da Rainha Po Ya, a fim de começarem uma nova existência na Terra, e dedicarem-se a boas obras?" Como resultado, o Deus de Hua Shuan convocou o Espírito dos Ventos e deu-lhe uma mensagem para Yü Huang.

Uma Mensagem para Yü Huang

A mensagem foi a seguinte: "O Rei Miao Chuang ofereceu sacrifícios a mim, e implorou-me a ceder-lhe um herdeiro. Mas, visto que, devido suas guerras causou a morte de um grande número de seres humanos, ele não merece que seu pedido seja concedido. Agora, esses 3 irmãos Shih ofenderam a sua Majestade quando forçaram o bandoleiro Wang Chê a ser culpado de assassinato e assalto. Rogo-lhe a levar em consideração suas boas obras do passado, e perdoar seu crime, dando-lhes uma oportunidade de expiarem o mesmo, fazendo com que os 3 renasçam mas no sexo feminino, no ventre da Rainha Po Ya. Dessa maneira eles poderão resgatar o crime que cometeram e salvar diversas almas." Yü Huang ficou satisfeito em consentir, e ordenou o Espírito do Polo Norte a liberar os 3 captivos e levar suas almas ao palácio do Rei Miao Chuang, onde no período de 3 anos seriam transformadas ao feminino no ventre da Rainha Po Ya.

Nascimento das Três Filhas

O Rei, que esperava anciosamente a cada dia o nascimento de um herdeiro, foi informado pela manhã que havia nascido uma filha sua. Seu nome era Miao Ch’ing. Um ano passou, e nasceu outra filha. Esta chamou-se Miao Yin. No final do terceiro ano, quando nasceu uma outra filha, o Rei, envolvido pela sua própria ira, chamou seu Grande Ministro Chao Chên e todo desconsolado, disse-lhe, "Já passei dos 50 anos de idade, e não tenho um filho homem para suceder-me no trono. Minha dinastia, portanto, será extinta. De que serviu todo meu labor e minhas vitórias?" Chao chên entrou consolá-lo dizendo, "O céu cedeu-lhe 3 filhas: nenhum poder humano pode mudar esse decreto divino. Quando essas princesas crescerem, escolheremos genros para sua Majestade, e poderá eleger o seu sucessor entre eles. Quem se atreverá a disputar o seu direito ao trono?"

O Rei deu o nome Miao Shan a sua terceira filha. A mesma ficou conhecida pela sua modéstia e suas demais diversas qualidades, e escrupulosamente observou todas as regras das doutrinas budistas. Para ela, viver uma vida de virtudes era verdadeiramente muito natural.

A Ambição de Miao Shan

Um belo dia, quando as 3 irmãs brincavam no jardim da Primavera Perpétua do palácio, Miao Shan, com uma fisionomia séria, disse às irmãs, "Riquezas e glória são como a chuva na primavera, ou o orvalho pela manhã; dura apenas pouco tempo, e logo passa. Reis e imperadores pensam em desfrutar até o final da boa fortuna que os coloca em um nível separado dos demais seres humanos; mas a enfermidade os faz descansar em seus caixões, e tudo acaba. Onde estão agora todas as poderosas dinastias que estabeleceram a lei do mundo? Com relação a mim, desejo nada mais do que um retiro pacífico em uma montanha isolada, na tentativa de atingir a perfeição. Se algum dia conseguir alcançar um grau elevado de bondade, então, carregada nas núvens do Céu, viajarei por todo o universo, passando do oriente ao ocidente no piscar de um olho. Resgatarei meu pai e minha mãe, e os levarei ao Céu; salvarei os miseráveis e afligidos na Terra; converterei os espíritos que praticam o mal, e os farei praticar o bem. Essa é minha única ambição."

Suas Irmãs Casam-se

Assim que terminou de falar, uma dama da Corte entrou para avisar que o Rei havia encontrado genros que lhe agradaram para suas duas filhas mais velhas. A festa de casamento seria no próximo dia. "Seja rápida", acrescentou, "e preparem seus presentes, seus vestidos, e assim por diante, pois a ordem do Rei é imperativa." O marido escolhido para Miao Ch’ing era um Primeiro Cadetrádico que se chamava Chao K’uei. O seu nome pessoal era Tê Ta, e tratava-se do filho de um célebre ministro de dinastia que reinara. O marido-eleito de Miao Yin era um oficial do exército que se chamava Ho Fêng, cujo nome pessoal era Ch’ao Yang. Ele primeiro havia passado no exame para Doutor Militar. As cerimônia dos matrimônios foi de um carater magnífico. Realizou-se uma festa após a outra; os recém-casados foram devidamente instalados em seus palácios, e a felicidade geral prevalecia.

A Renúncia de Miao Shan

No final restava apenas Miao Shan. O Rei e a Rainha desejavam encontrar um homem para ela, que fosse famoso pela sabedoria e virtude, capaz de governar o reino, e digno de ser o sucessor ao trono. Desse modo, o Rei chamou sua filha e explicou a ela todos os seus planos com relação a esse assunto, e como todas as suas esperanças encontravam-se nela.

"É um crime", ela replicou, "eu não cumprir com os desejos de meu pai; porém, tem de perdoar-me se minhas idéais são diferentes das suas."

"Conte-me quais são suas idéias", disse o Rei.

"Não desejo casar-me", respondeu. "Desejo atingir a perfeição e a Budicidade. Então, prometo não ser ingrata com o senhor."

"Filha infeliz", gritou o Rei irado, "acha que pode ensinar-me, o Chefe do Estado e governante de um povo tão grande! Alguém já ouviu falar em filha de Rei que se tornou freira? Será que se encontra uma boa mulher nessa classe? Abandone todas essas idéias loucas de ser freira, e diga-me logo se você se casará com um Primeiro Catedrádico ou um Primeiro Pós-Graduado Militar."

"Há alguém que não ama a dignidade nobre?", perguntou a menina, "quem não aspira à felicidade de um casamento? No entanto, desejo ser uma freira. Com relação às riquezas e glória deste mundo, o meu coração é tão frio quanto a escória morta, e sinto um desejo intenso de torná-lo cada vez mais puro."

O Rei levantou-se furioso, e desejou que ela desaparecesse de sua frente. Miao Shan, sabendo que não podia desobedecer suas ordens publicamente, seguiu outro caminho.

"Se o senhor insiste em que eu me case", disse ela, "consentirei; porém, terei de casar-me com um médico."

"Um médico!" rosnou o Rei. "Será que falta homens de boas famílias e talentos no meu reino? Que idéia absurda, querer casar-se com um médico!"

"O meu desejo é curar a humanidade de todas suas enfermidades;", respondeu, "do frio, do calor, da luxúria, da velhice, e das demais enfermidades. Desejo igualar todas as classes, colocando ricos e pobres no mesmo nível, ter uma comunidade de bens, sem distinção de pessoas. Se o senhor conceder meu desejo, ainda poderei dessa forma, tornar-me um Buda, uma Salvadora da Humanidade. Não há necessidade de convocar os adivinhadores para escolherem um dia auspicioso. Estou pronta para casar-me agora."

É exilada ao jardim

As palavras do Rei estavam inflamadas com sua ira. "Sua imbecil feia!" gritou, "que sugestões diabólicas são essas que você se atreve a dar na minha presença?"

Sem mais o que fazer, chamou Ho Tao, que naquele dia era o encarregado da segurança do palácio. Ao chegar, ajoelhou-se para receber as ordens do Rei, que disse, "Essa monja feia me falta a honra. Retire dela os mantos da Corte, e leve-a longe de minha presença. Leve-a ao jadim da Rainha, e deixe-a morrer de frio: será uma preocupação a menos para o meu coração tribulado."

Miao Shan prostrou-se ao chão e agradeceu o Rei, e logo, seguiu o segurança ao jardim da Rainha, onde começou sua vida isolada de heremita, tendo a lua como companhia e o vento como amigo, contente de ver todos os obstáculos lançados em seu caminho à Nirvana, a condição mais elevada de bem-aventurança espiritual, e feliz de trocar os prazeres do palácio pela doçura da solidão.

O Convento do Pássaro Branco

Após as tentativas fúteis das damas da Corte, de seus pais, e suas irmãs em dissuadi-la do seu propósito, o Rei e a Rainha incumbiram Miao Hung e Ts’ui Hung a tentarem uma última vez a trazer sua filha desorientada de volta aos seus sentidos. Miao Shan, irritada com esse novo pedido, deu ordem, arrogantemente, para que eles nunca mais viessem a atormentá-la com sua conversa fiada. "Descobri que existe um tempo muito conhecido em Ju Chou, na região de Lung-shu Hsien. Esse templo budista é conhecido como o Convento do Pássaro Branco, Po-ch’iao Ch’an-ssu. Nesse templo, 500 monjas dedicam-se ao estudo da verdadeira doutrina e a senda da perfeição. Portanto, vão e peçam a Rainha em meu nome que consiga a permissão do Rei para eu retirar-me nesse lugar. Se vocês conseguirem esse favor, não deixarei de compensar-lhes no futuro."

Miao Chuang convocou os mensageiros e perguntou a respeito do resultado de seus esforços. "Está mais inacessível do que nunca antes", responderam; "inclusive deu ordem para pedirmos a Rainha que conseguisse a permissão de Sua Majestade para retirar-se no Convento do Pássaro Branco em Lung-shu Hsien."

O Rei concedeu sua permissão, porém, enviou ordens estritas ao convento, com instruções às monjas para fazer de tudo em seu poder para dissuadir a Princesa que ela chegasse para levar a cabo sua intenção de lá permanecer.

Sua Chegada no Convento

O Convento do Pássaro Branco foi construído por Huang Ti, e as 500 monjas que viviam lá, tinham uma Madre Superior que se chamava I Yu, notável pela sua virtude. Ao receberem a ordem do palácio, a mesma convocou Chêng Chêng-ch’ang, responsável pelo coral, informando-a que a Princesa Miao Shan, devido a uma discórdia com o pai, estava à caminho do templo. A Madre pediu que a maestra recebesse a visita cordialmente, mas que ao mesmo tempo, fizesse de tudo para dissuadi-la de adotar a vida de monja. Dada as instruções, a Madre Superiora, acompanhada por duas noviças, foi ao encontro de Miao Shan, até o portão do templo. Quando chegou, todos a cumprimentaram. A Princesa respondeu, dizendo: "Acabo de sair de um mundo com o objetivo de seguir a sua ordem: por quê vieram cumprimentar-me na minha chegada? Rogo-lhes de terem a bondade de levarem-me ao templo, para reverenciar o Buda." I Yu levou-a para a entrada principal, orientando as monjas a acenderem o incenso, tocarem os sinos, e os tambores. No final da visita ao templo, ela foi ao salão de sermões, onde foi recebida por suas instrutoras. Essas, obedeceram a ordem do Rei e esforçaram-se em persuadir a Princesa de retornar a sua casa, porém, como nenhum dos argumentos teve efeito, foi decido depois de muito analisar, que dariam uma chance a ela, colocando-a à frente da cozinha onde ela poderia preparar as refeições do convento, e servir a todos de modo geral. Se o serviço não fosse satisfatório ela seria demitida.

Sua Oferta ao Buda

Miao Shan concordou alegremente, e começou sua humilde submissão ao Buda. Ajoelhou-se diante de Ju Lai, e fez uma oferenda a ele com a seguinte oração: "Grande Buda, cheio de bondade e misericórdia, sua humilde serva deseja abandonar o mundo. Conceda-me a nunca ceder às tentações que me serão enviadas para que minha fé seja testada." Miao Shan prometeu observar todas as regras do convento e a obedecer suas superiores.

Ajuda Espiritual

Tal abnegação generosa tocou o coração de Yü Huang, o Mestre do Céu, que convocou o Espírito da Estrela Polar, e instruiu o seguinte a ele: "Miao Shan, a 3a. filha do Rei Miao Chuang, renunciou o mundo a fim de dedicar sua vida à realização da perfeição. Seu pai a enviou ao Convento do Pássaro Branco. Ela aceitou o fardo de toda a tarefa do convento, sem reclamar. Se não tiver ajuda, quem estará disposto a adotar uma vida de virtudes? Vá imediatamente e ordene os Três Agentes, os Deuses dos Cinco Picos Sagrados, os Oito Ministros do Dragão Celeste, Ch’ieh Lan, e o t’u-ti, a enviarem-lhe ajuda imediatamente. Diga ao Dragão Marinho para cavar-lhe um poço próximo da cozinha, um tigre para trazer-lhe madeira, pássaros para colher legumes para os moradores do convento, e todos os espíritos do Céu para ajudar-lhe com suas tarefas, para que, desse modo, ela possa dedicar-se sem perturbações à busca da perfeição. Certifiquem-se de que minhas ordens sejam obedecidas imediatamente." O Espírito da Estrela Polas cumpriu sem demora.

O Convento Pega Fogo

Ao ver todos esses deuses chegarem com o objetivo de ajudarem a noviça, a Madre Superior, I Yu, foi consultar com a maestra do coral dizendo: "Designamos as tarefas pesadas da cozinha à Princesa, visto que, a mesma recusou voltar ao mundo; mas desde que começou suas obrigações, os deuses das oito cavernas do Céu vieram para oferece-la frutas, Sh’ieh Lan varre a cozinha, o dragão cavou um poço, o Deus da Saúde e o tigre trazem-lhe combustível, os pássaros colhem legumes, o sino do convento soa ao anoitecer, como se fosse tocado por uma mão misteriosa. Obviamente, os milagres estão sendo realizados. Busque o Rei rapidamente, e implore Sua Majestade para vir buscar sua filha."

Chêng Chêng-ch’ang foi ao Rei, e ao chegar, informou-lhe de tudo que havia acontecido. O Rei chamou Hu Pi-li, o chefe de segurança, e deu-lhe ordem de dirigir-se ao sub-prefeito de Lung-shu Hsien, liderando uma tropa do exército de 5000 da infataria e da cavalaria. Ele deveria cercar o Convento do Pássaro Branco e incendiá-lo junto com as monjas. Ao chegar no local, o comandante e seus soldados cercaron o convento e tiçaram fogo. As 500 monjas condenadas invocaram a ajuda do Céu e da Terra, e logo, dirigindo-se a Miao Shan, disseram: "Foi você que nos trouxe esse terrível disastre."

"É verdade", respondeu Miao Shan. "Eu sozinha sou a causa de sua destruição." Logo, ajoelhou-se e orou ao Céu: "Grande Soberania do Universo, sua serva é filha do Rei Miao Chuang; és o neto do Rei Lun. Não resgatarás sua irmã mais nova? Abandonastes seu palácio; eu também abandonei o meu. Nos tempos passados retirastes às montanhas cobertas pela neve para atingir a perfeição; eu vim aqui com o mesmo objetivo. Não nos salvarás desta destruição em chamas?"

Miao Shan terminou sua oração, tirou um grampo de bambú de seu cabelo, furou o céu da boca com ele, e cuspiu sangue em direção ao Céu. Imediatamente, enormes nuvens juntaram-se no céu inteiro e chuvas desceram inundando o chão, o que apagou o fogo que ameaçara o convento. As monjas lançaram-se de joelhos no chão, e agradeceram-lhe sem cessar por ter salvado suas vidas.

Hu Pi-li retirou-se, e foi correndo para informar o Rei sobre o ocorrido. O Rei, irado, ordenou-lhe a voltar imediatamente, a trazer sua filha acorrentada, e decapitá-la ali mesmo.

A Execução de Miao Shan

Porém, a Rainha, tomando conhecimento da nova trama, implorou com o Rei para dar uma última chance a sua filha. "Se você permitir", disse ela, "mandarei construir um lindo pavilhão ao lado da estrada onde Miao Shan passará acorrentada, ao caminho de sua execução, e irei com nossas duas filhas e genros. Quando ela passar, haverá música, canções, festas, tudo para impressioná-la e faze-la ver o contraste entre nossa vida luxuosa e sua promessa miserável. Certamente, com isso arrepender-se-á."

"Concordo", disse o Rei, "em retirar a ordem de sua execução até que você finalize suas preparações." Não obstante, quando chegou o momento, Miao Shan demonstrou nada além do desdenho por todo esse show mundano, e a todos os avanços simplesmente comentou: "Não amo essas vaidades pomposas; juro que prefiro a morte às chamadas alegrias deste mundo." Logo, foi levada ao local da execução. A Corte inteira estava presente. Os sacrifícios foram feitos a ela como se já estivesse morta. Um Grande Ministro pronunciou a oração do sacrifício.

No meio de tudo isto aparece a Rainha, ordenando aos oficiantes que voltassem aos seus postos, para ela poder mais uma vez exortar sua filha ao arrependimento. Mas Miao Shan somente ouviu em silêncio olhando para o chão.

O Rei sentiu imensa repugnância em derramar o sangue de sua filha, e ordenou-lhe a ser presa no palácio, no intuito de um último esforço em salvá-la. "Sou o Rei", disse ele, "minhas ordens não podem ser simplesmente ignoradas. Desobediência a elas involve castigo, e apesar do meu amor paterno a você, se você persistir com sua atitude, será executada amanhã em frente o portão do palácio."

O t’u-ti, ouvindo o veredito do Rei, foi depressa a Yü Huang, e relatou-lhe a sentença pronunciada contra Miao Shan. Yü Huang exclamou: "Salve o Buda, não há ninguém no oriente tão nobre quanto a Princesa. Amanhã, na hora marcada, vá ao local da execução, rompe as espadas, e parte as lanças que irão usar para matá-la. Certifique-se dela não sentir nenhuma dor. No momento de sua morte, transforme-se em um tigre, e traga-me seu corpo à floresta de pinheiros. Tendo colocado o mesmo em um lugar seguro, coloque uma pílula mágica em sua boca para impedir a decomposição. A sua alma triunfante ao voltar de suas regiões inferiores tem de encontrar o corpo em perfeito estado de preservação, a fim de possibilitar sua re-entrada nele e animá-lo novamente. Em seguida, ela terá que ir a Hsiang Shan na Ilha de P’u T’o, onde atingirá o estado mais elevado da perfeição."

No dia marcado, o Comandante Hu Pi-li conduziu a Princesa condenada ao local da execução. Uma tropa foi posicionada para manter a ordem. O t’u-ti estava vigiando o portão do palácio. Miao Shan estava radiante de alegria. "Hoje", disse ela, "deixo o mundo para uma vida melhor. Ande logo, tome minha vida mas cuidado se mutilar o meu corpo."

Chegara a ordem do Rei, e de repente o céu tornou-se nublado e a escuridão caiu sobre a Terra. Miao Shan foi envolvida por uma luz brilhante, e quando a espada do algoz caiu sobre o pescoço da vítima, partiu-se em duas. Logo, lançaram em sua direção, uma lança que rompeu em pedaços. Depois disso, o Rei ordenou que a estrangulassem com um cordão de seda. Poucos momentos depois, um tigre saltou no local da execução, dispersou os algozes, colocou o corpo sem vida de Miao Shan nas suas costas, e desapareceu na floresta de pinheiros. Hu Pi-li correu ao palácio, relatou os fatos ao Rei detalhadamente, e recebeu uma recompensa de duas barras de ouro.

Miao Shan visita as Regiões Infernais

Nesse interim, a alma de Miao Shan, que permaneceu intacta, surgiu em uma nuvem; e, como se tivesse acordado de um sonho, levantou sua cabeça e olhou ao seu redor, e não viu seu corpo. "Meu pai acaba de mandar alguém me estrangular", pensou. "Como fui parar aqui? Aqui não há montanhas, nem árvores, nem vegetação; não há sol, lua, nem estrelas; não há habitações, nenhum som, nenhum pássaro cantando, e nem cachorro latindo. Como posso viver nessa região deserta?

De repente, aparece um jovem vestido de azul, brilhando como luz reluzente e carregando uma enorme bandeira disse, "Por ordem de Yen Wang, o Rei dos Infernos, venho para levá-la às 18 regiões infernais."

"Que lugar amaldiçoado é esse onde estou agora?" perguntou Miao Shan.

"Aqui é o mundo inferior, o Inferno", respondeu ele. "A sua recusa em casar-se, e a magnimidade com a qual escolheu uma morte desonrosa ao invés de romper suas resoluções, merecem o reconhecimento de Yü Huang, e dos 10 deuses das regiões inferiores, os quais ficaram impressionados e satisfeitos com sua virtude eminente, enviando-me aqui ao seu encontro. Não tema e siga-me."

Dessa forma, Miao Shan começou sua visita a todas as regiões infernais. Os Deuses dos Dez Infernos vieram cumprimentá-la.

"Quem sou eu", perguntou Miao Shan, "para tomar o seu tempo ao dignarem-se em mostrar-me tal respeito?"

"Soubemos que," replicaram, "quando você recita suas orações, todo o mal desaparece como se fosse uma mágica. Gostaríamos de ouvi-la orar."

"Dou meu consentimento", disse Miao Shan, "com a condição de que todos os condenados nas regiões infernais sejam libertados de suas correntes a fim de me ouvirem."

Na hora designada, os condenados foram levados por Niu T’ou (‘Cabeça de Boi’) e Ma Mien (‘Rosto de Cavalo’), os dois chefes de polícia do Inferno, e Miao Shan começou a orar. Nem bem terminado, o Inferno, de repente, foi transformado em um paraízo de alegria, e os instrumentos de tortura em flor de lotus.

O Inferno como um Paraízo

P’an Kuan, o guardião dos Registros dos Vivos e dos Mortos, apresentaram um memorial a Yen Wang, declarando que desde a chegada de Miao Shan não havia mais dor no Inferno; e todos os condenados não se continham de felicidade. "Visto que, sempre foi decretado", acrescentou, "que, na justiça tem de haver tanto o Céu como o Inferno, se você não enviar esta santa de volta à Terra, não haverá mais Inferno, apenas o Céu."

"Já que é assim", disse Yen Wang, "mande 48 porta-bandeiras acompanhá-la para o outro lado de Styx Bridge [Nai-ho Ch’iao], para ser levada à floresta de pinheiros e entrar novamente em seu corpo, e resumir sua vida no mundo superior."

O Rei dos Infernos, após ter dado atenção a ela, o jovem vestido de azul conduziu sua alma de volta ao seu corpo, que encontrávasse debaixo de um pinheiro. Tendo entrado de volta em seu corpo, Miao Shan encontrou-se viva novamente! Um suspiro amargo saiu de seus lábios. "Lembro-me", disse ela, "de tudo que vi e ouvi no Inferno. Anseio pelo momento em que me encontrarei livre de todos os impedimentos, e no entanto, minha alma entrou novamente em meu corpo. Aqui, sem nenhuma montanha deserta para renunciar-me em busca da perfeição, o que será de mim?" Gotas enormes de lágrimas desciam de seus olhos.

Um Teste de Virtude

Exatamente neste momento, o Buda Ju Lai apareceu. "Por quê veio a este lugar?" perguntou. Miao Shan explicou porque o Rei havia-lhe sentenciado à morte, e como, após sua descida ao Inferno, sua alma havia entrado novamente em seu corpo. "Sinto enorme piedade de sua infortúnia", disse Ju Lai, "mas não há ninguém que possa lhe ajudar. Eu também estou sozinho. Por quê não nos casamos? Podemos construir uma chopana, e passar nossos dias em paz. O que você diz?" "Senhor", respondeu, "não deve dar sugestões impossiveis. Eu morri e rescussitei. Como pode falar com tanta tranquilidade? Faça-me o obséquio de retirar-se de minha presença."

"Bem", disse ele, "esse à quem dirige sua palavra não é ninguém mais do que o Buda do Oriente. Vim para testar sua virtude. Este lugar não é adequado para seus exercícios devocionais; convido-lhe a Hsiang Shan."

Miao Shan lançou-se de joelhos ao chão e disse: "Meus olhos humanos enganaram-me. Jamais pensei que Sua Majestade viria a um lugar como este. Perdoa minha aparente falta de respeito. Onde fica Hsiang Shan?"

"Hsiang Shan trata-se de um mosteiro muito antigo", respondeu Ju Lai, "construído no início dos tempos históricos. É habitado por Imortais. Situa-se no mar, na Ilha de P’u T’o, pertencente ao reino de Annam. Lá terá condições de alcançar a mais elevada perfeição."

"Essa ilha é muito longe?" perguntou Miao Shan. "Mais de 3.000 li", replicou Ju. "Temo", disse ela, "não conseguir aguentar a fadiga de uma viagem tão longa." "Tenha calma", disse ele, "Trouxe comigo um pêssego mágico, do tip que não se encontra em nenhum pomar da Terra. Uma vez ingerido, você não sentirá nem fome nem sede; velhice e morte não terão nenhum poder sobre você; e viverá eternamente."

Miao Shan comeu o pêssego mágico, despediu-se de Ju Lai, e seguiu caminho à Hsiang Shan. O Espírito da Estrela Polar, olhando das nuvens onde estava, viu Miao Shan seguir em direção a P’o T’u com muito sacrifício. Chamou o Guardião da Terra de Hsiang Shan e disse-lhe: "Miao Shan está a caminho do seu país; a jornada é longa e difícil. Tome a forme de um tigre, e leve-a até o final de sua viagem."

O t’u-ti transformou-se em tigre e posicionou-se no meio da estrada que Miao Shan iria passar, dando vazão aos seus rugidos ferozes.

"Sou uma pobre menina desprovida da piedade que se estende a uma filha", declarou Miao Shan quando chegou. "Desobedeci as ordens de meu pai; devora-me, e acaba com minha vida."

O tigre logo falou: "Na realidadem, não sou um tigre mas o Guardião da Terra de Hsiang Shan. Recebi instruções para levar-lhe até lá. Suba nas minhas costas."

"Já que recebeu estas instruções", disse a menina, "obedecerei, e quando atingir a perfeição, não esquecerei de sua bondade."

O tigre saiu como relâmpago, e no piscar de um olho Miao Shan encontrou-se no sopé dos declives rochosos da Ilha de P’u T’o.

Miao Shan atinge a Perfeição

Passados 9 anos neste retiro, Miao Shan atingiu o cume da perfeição. Ti-tsang Wang então, veio a Hsiang Shan, e ficou tão surpreendido com sua virtude que perguntou ao t’u-ti local, o que havia causado esse resultado tão maravilhoso. "Com a exceção de Ju Lai, ninguém iguala-se a ela em dignidade e perfeição, em todo o Ocidente. Ela é a Rainha dos 3.000 P’u-sa’s e de todos os seres na Terra feitos de carne e sangue. Consideramos como nossa soberana em todas as coisas. Portanto, no 19o. dia da 11a. lua, vamos reverenciá-la, a fim do mundo inteiro receber sua beneficiência."

O t’u-ti enviou os convites para a cerimônia. O Rei-Dragão do Mar Ocidental, os Deuses das Cinco Montanhas Sagradas, os 120 Santos-Emperadores, e 36 oficiais do Ministério do Tempo, os funcionários celestiais encarregados dos ventos, chuvas, trovões, e relâmpagos, as Três Causas, os Cinco Santos, os Oito Imortais, os Dez Reis dos Infernos – todos estavam presentes no dia designado. Miao Shan tomou assento no trono de lotus, e os deuses presentes proclamaram-na Buda e soberana sobre o Céu e a Terra. Além disso, decidiram não ser adequado que ela permanecesse sozinha em Hsian Shan; portanto, imploraram que ela escolhesse um jovem digno e uma donzela virtuosa para servi-la no templo.

Ao t’u-ti foi confiada a tarefa de encontrá-los. Enquanto procurava, encontrou um jovem sacerdote chamado Shan Ts’ai. Após a morte de seus pais, o mesmo tornara-se um hermita em Ta’hua Shan, e ainda era um principiante na ciência da perfeição.

Miao Shan ordenou que ele fosse levado à ela. "Quem é você?" ela perguntou.

"Sou um pobre sacerdote órfão e sem mérito algum", respondeu. Desde muito jovem vivo a vida de heremita. Ouvi dizer que seu poder é comparável apenas por sua bondade, então, aventurei-me em vir rogar-lhe para mostrar-me como atingir a perfeição."

"Meu único medo", respondeu Miao Shan, "é que seu desejo de perfeição não seja sincero."

"Não tenho pais", o sacerdote continuou, "e viajei mais de 1.000 li para lhe encontrar. Como posso carecer de sinceridade?"

"Que grau especial de habilidade você já atingiu durante o seu curso de perfeição?" perguntou Miao Shan.

"Não tenho nenhuma qualificação", respondeu Shan Ts’ai, "mas para tudo dependo de sua piedade, e sob sua orientação, espero alcançar a qualificação necessária."

"Muito bem", disse Miao Shan, "tomo seu posto no topo do pico mais alto, e espere até que eu encontre meios de transportar-lhe."

Uma Estratagema

Miao Shan chamou o t’u-ti e pediu-lhe para ir e implorar com os Imortais para disfarçarem-se de piratas e atacarem a montanha, com tochas em suas mãos, e ameaçando matá-la com espadas e lanças. "Logo, buscarei refúgio no topo, e em seguida lançar-me-ei no precipício para provar a fidelidade e afeto de Shan Ts’ai.

Após um minuto, um bando de bandoleiros com aspecto feroz, invadiu o templo de Hsiang Shan. Miao Shan gritou pedindo ajuda, correu para o declive íngreme, tropessou, e rolou até a ravina. Quando Shan Ts’ai viu a queda até o abismo, lançou-se, sem hesitar, atrás dela a fim de salvá-la. Quando chegou até ela perguntou: "Por quê tem medo dos ladrões? Não possui nada que eles possam roubar; por quê lançar-se no precipício, expondo-se a morte certa?"

Miao Shan percebeu que ele chorava, e chorou também. "Tenho que cumprir com o desejo do Céu", disse ela.

A Transformação de Shan Ts’ai

Shan Ts’ai orou, inconsolavelmente, ao Céu e a Terra para salvar sua protetora. Miao Shan disse a ele: "Não devería ter arriscado sua vida lançando-se você mesmo no precipício. Eu ainda não lhe transformei. Mas você fez algo corajoso, e sei que tem um bom coração. Agora, olhe para baixo." "Ó", ele disse, "se não estou enganado, é um cadáver." "Sim", ela respondeu, "é seu corpo anterior. Agora você está transformado, voc6e pode elevar-se quando desejar e voar pelo espaço."" Shan Ts'ai curvou-se para agradecer sua benfeitora, que disse a ele: "Daqui em diante terá que fazer suas orações ao meu lado, e não deixar-me nem por um dia se quer."

‘Irmão e Irmã’

Com sua visão espiritual, Miao Shan percebeu que no fundo do Mar do Sul estava o 3o. filho de Lung Wang, que, ao levar a cabo as ordens de seu pai, dividia as ondas na forma de uma carpa. Nesse momento, ficou preso na rede de um pescador, levado ao mercado de Yüeh Chou, e comercializado. Miao Shan imediatamente enviou seu fiel Shan Ts’ai, disfarçado de servo para comprá-lo, dando a ele 1.000 notas em efetivo para comprar o peixe, o qual deveria ser levado ao sopé das rochas de P’u To e devolvido ao mar em liberdade. O filho de Lung Wang agradeceu o seu libertador enormemente, e ao voltar ao palácio, relatou ao seu pai o que havia acontecido. O Rei disse: "Como recompensa, ofereça um presente de pérola luminosa, para ela recitar suas orações à noite, à luz dessa pérola."

Lung Nü, a filha do 3o. filho de Lung Wang, conseguiu a permissão de seu avô para levar o presente a Miao Shan, e implorar que lhe fosse permitido estudar a doutrina dos sábios sob sua orientação. Tendo provado sua sinceridade, foi aceita como aluna. Shan Ts’ai chamou sua irmã, e Lung Nü retribuiu chamando-lhe de querido irmão. Os dois viveram como irmão e irmã ao lado de Miao Shan.

O Castigo do Rei

Depois do Rei Miao Chuang ter incendiado o Convento do Pássaro Branco e assassinado sua filha, o Buda Ch’ieh Lan apresentou uma petição a Yú Huang, rogando que não fosse permitido que o crime ficasse sem castigo. Yü Huang, irritado justamente, deu ordem a P’an Kuan para consultar o Registro dos Vivos e dos Mortos para ver quanto tempo de vida ainda tinha esse Rei homicida. P’an Kuan folheou as páginas de seu registro, e viu que, de acordo com as os rituais do reinado do Rei no trono de Hsing Lin, perduraria por 20 anos, mas que seu período ainda não havia vencido. "O que foi decretado é imutável", disse Yü Huang, "mas não o castigarei enviando-lhe uma enfermidade." Invocou o Deus das Epidemias, e deu-lhe ordem para afligir o corpo do Rei com úlceras, do tipo incurável exceto por remédios a serem administrados a ele por sua filha Miao Shan.

A ordem foi rapidamente executada, e o Rei não conseguia descansar de dia nem de noite. Suas duas filhas e seus maridos passavam o tempo festejando enquanto ele se virava por todos os lados agonizando em sua cama de enfermo. Os médicos mais famosos eram chamados em vão; a doença somente piorava, e o desespero tomou conta do paciente. Logo, ele mandou proclamar que cederia a sucessão ao trono a qualquer pessoa que lhe fornecesse um remédio eficaz, restaurando sua saúde.

O Sacerdote-Doutor Disfarçado

Miao Shan em Hsiang Shan, soube por revelação de tudo que ocorría no palácio. Assumiu a forma de um sacerdote-doutor, vestiu-se como padre de acordo com as regras, e levou na cintura uma pochete com comprimidos e outros remédios. Com esse traje ela seguiu direto ao portão do palácio, leu o edital real que ali estava, e o rasgou. Alguns membros da segurança do palácio a detevem e perguntaram irados: "Quem é você que se atreve a rasgar uma proclamação do Rei?"

"Eu, um pobre sacerdote, também sou médico", respondeu. "Li o edital pendurado nos portões do palácio. O Rei está solicitando um médico capaz de curá-lo. Sou doutor e venho de uma antiga família culta, e proponho-me a recuperar sua saúde."

"Se vem de família culta, por quê tornou-se sacerdote?" perguntaram. "Não teria sido melhor ganhar sua vida de forma honesta, praticando sua arte do que raspar sua cabeça e sair pelo mundo vagabundeando? Além do mais, todos os médicos de nível tentaram em vão curar o Rei; imagina que será mais hábil do que todos os especialistas experientes?"

"Acalma-se", ela respondeu. "Recebi de meus ancestrais os mais eficazes remédios, e garanto recuperar a saúde do Rei." O segurança do palácio concordou, então, transmitir sua petição à Rainha, que informou o Rei, e no final, autorizaram a entrada do sacerdote pretentende. Quando chegou no quarto do Rei, sentou-se em silêncio por algum tempo para se acalmar antes de tirar o pulso, e para ter controle total de todas suas faculdades enquanto examinava o Rei. No momento em que sentiu-se seguro, aproximou-se da cama do Rei, tomou sua mão, sentiu seu pulso, cuidadosamente diagnosticou a natureza da enfermidade, e assegurou-se de ser facilmente curável.

Medicamento Estranho

No entanto, apresentou-se uma grave dificuldade, a do medicamente correto ser quase impossível de ser encontrado. O Rei mostrou sua insatisfação dizendo: "Para cada doença há uma receita médica, e para cada receita médica, um medicamento específico; como você pode dizer que o diagnóstico é fácil mas que não existe remédio?"

"Sua Majestade", respondeu o sacerdote, "o remédio para sua enfermidade não se encontra em nenhuma farmácia, e ninguém concordaría em vende-lo."

O Rei ficou furioso, achando que estava sendo acuado, e deu ordem para os que estavam ao seu redor que levassem o sacerdote embora, e o mesmo saiu sorrindo.

Na noite seguinte, o Rei sonhou que um homem idoso dizia-lhe: "Este sacerdote é a única pessoa que pode lhe curar, e se você pedir, ele mesmo lhe dará o medicamento adequado."

O Rei despertou logo em seguida, e implorou à Rainha que mandasse chamar o sacerdote outra vez. Quando este voltou, O Rei relatou seu sonho e implorou que o sacerdote encontrasse o remédio necessário. "O quê é, afinal, esse remédio que tenho de ter para ser curado?" perguntou.

"São necessários a mão e o olho de uma pessoa viva, dos quais se faz um ungüento, o único remédio que poderá lhe salvar", respondeu o sacerdote.

O Rei gritou indignado: "Esse padre está de brincadeiro comigo! Quem jamais iria doar sua mão ou seu olho? Mesmo que alguém o fizesse, jamais teria coragem de usa-los."

"Não obstante", respondeu o sacerdote, "não há nenhum outro remédio eficaz."

"Então onde posso encontrar esse remédio?" perguntou o Rei.

"Sua Majestade tem de enviar seus ministros, que têm de observar as regras budistas de abstinência, até Hsiang Shan, onde lhes será entregue o que é necessário."

"Onde fica Hsiang Shan, e que distância daqui?"

"Cerca de 3.000 li, mas eu mesmo mostro o caminho; dentro de pouco tempo estarão de volta."

O Rei, que sofria terrivelmente, ficou mais contente quando soube que a viagem podia ser realizada rapidamente. Convocou seus dois ministros, Chao Chên e Liu Ch’in, e deu-lhes as instruções de não perderem tempo em seguir caminho à Hsiang Shan e observarem escrupulosamente as regras budistas de abstinência. Ordenou o Ministro de Cerimônias a deter o sacerdote no palácio até sua volta.

Uma Conspiração que Falhou

Os dois genros do Rei, Ho Fêng e Chao K’uei, que já haviam tramado secretamente a sucederem o trono logo após a morte do Rei, souberam que o sacerdote tinha esperança de curar a doença do Rei, e que estava esperando no palácio até que o remédio chegasse a ele. Com medo de serem decepcionados com sua ambição, e que após sua recuperação o Rei, fiel a sua promessa, daria a coroa ao sacerdote, conspiraram com um inescrupuloso oficial da Corte, Ho Li. Tinham que agir rapidamente, porque os ministros viajavam em ritmo de marcha, e logo voltariam. Na mesma noite, Ho Li colocaria veneno na bebida do Rei, dizendo ter sido um analgésico preparado pelo sacerdote, a fim de aliviar a dor do Rei até que seus ministros voltassem. Logo em seguida, um assassino, Su Ta, assassinaria o sacerdote. Dessa maneira, um só golpe levaria o Rei e o sacerdote ao encontro da morte, e o reino passaria aos dois genros do Rei.

Miao Shan voltara à Hsiang Shan, deixando no palácio a forma física do sacerdote. Ela viu os dois traidores Ho Fêng e Chao K’uei preparando o veneno, e ficou ciente de suas intenções malvadas. Invocando o espírito Yu I, quem estava de plantão naquele dia, disse-lhe para voar ao palácio e transformar o veneno preparado para o Rei, em sopa saudável, e atar pés e mãos do assassino.

À meia-noite, Ho Li, levando em suas mãos a bebida envenenada, bateu na porta do apartamento real, e disse à Rainha que o sacerdote havia preparado uma poção para o alívio do Rei, enquanto esperava a volta dos ministros. "Venho", disse ele, "oferece-la a sua Majestade." A Rainha tomou a prato em suas mãos e no momento em que passava ao Rei, entrou Yu I sem avisar. Mais rapidamente que um pensar, arancou o prato da Rainha e derramou o líquido no chão; simultaneamente, empurrou todos que estavam presentes a ponto de cairem no chão.

No mesmo momento em que isso acontecia, o assassino Su Ta entrou no quarto do sacerdote e atacou-lhe com sua espada. Instantaneamente o assassino, sem saber como, encontrou-se amarrado com a bata do sacerdote e lançado ao chão. Lutou e tentou livrar-se, mas viu que suas mãos não tinham força devido algum poder misterioso, e que era impossível fugir. O espírito Yu I, tendo cumprido com a missão a ele confiada, voltou a Hsiang Shan e relatou o acontecido a Miao Shan.

Uma Confissão e seus Resultados

Na manhã seguinte, os dois genros do Rei souberam do que havia acontecido durante a noite. O palácio inteiro encontrava-se em um estado de grande confusão.

Quando foi informado que o sacerdote havia sido assassinado, o Rei chamou Ch’u Ting-lieh e deu-lhe ordens para prender o assassino. Su Ta foi torturado e confessou tudo que sabia. Junto com Ho Li foi condenado a ser esquartejado em mil pedaços.

Os dois genros foram capturados e ordenados a execução instantânea, e somente a intercessão da Rainha salvou suas vidas. O Rei furioso, no entanto, ordenou que suas duas filhas fossem presas no palácio.

O Remédio Medonho

Nesse interim, Chao Chên e Liu Ch’in haviam chegado em Hsiang Shan. Quando foram levados a Miao Shan, os ministros apresentaram-lhe a carta do Rei e a leram. "Eu, Miao Chuang, Rei de Hsing Lin, soube que habita em Hsiang Shan um ser Imortal cujo poder e compaixão não existem iguais no mundo inteiro. Já passei dos meus 50 anos, e estou afligido com úlceras que todos os remédios falharam em curar. Hoje, um sacerdote assegurou-me que em Hsiang Shan poderei obter a mão e o olho de uma pessoa viva, com os quais irá preparar um ungüento capaz de restaurar-me ao meu estado normal de saúde. Confiando em sua palavra e na bondade do ser Imortal a quem ele me indicou, aventuro-me implorar que essas duas partes do corpo vivo necessários para curar minhas úlceras, sejam enviadas a mim. Asseguro-lhe minha eterna gratidão, inteiramente confiante que meu pedido não será recusado."

Na manhã seguinte, Miao Shan pediu que os ministros pegassem uma faca e cortassem sua mão esquerda e arrancassem seu olho esquerdo. Liu Ch’in pegou a faca mas não se atreveu obedecer a ordem dada. "Seja rápido", insistiu a Imortal; "você recebeu a ordem de voltar o mais rápido possível; por quê você hesita como se fosse uma menina moça?" Liu Ch’in foi forçado a proceder. Ele lançou a faca, e o sangue vermelho fluía ao chão, espalhando um cheiro de incenso doce. A mão e o olho foram colocados em uma bandeja dourada, e, tendo agradecido respeitosamente a Imortal, os enviados apressaram-se a voltar.

Após terem partido, Miao Shan, que havia se transformado para permitir que os enviados retirassem sua mão e seu olho, contou a Shan Ts’ai que agora iria preparar o ungüento necessário para a cura do Rei. "Se a Rainha", acrescentou, "mandar buscar outro olho e outra mão, transformarei-me novamente, para serem-lhe dados." Nem bem terminara de dizer essas palavras, envolveu-se em uma nuvem e desapareceu no espaço. Os dois ministros chegaram no palácio e apresentaram o medonho remédio que trouxeram do tempo à Rainha. Ela, transbordando de gratidão e emoção, chorou copiosamente. "Que Ser Imortal", perguntou, "pode ser tão caridoso ao ponto de sacrificar uma mão e um olho para o benefício do Rei?" Logo, de repente, suas lágrimas desciam, e soou um enorme clamor, porque reconheceu a mão de sua filha por uma marca negra que tinha.

Meia-medida

"Quem mais, na realidade, mas essa filha", continuou entre as lágrimas, "poderia ter a coragem de dar sua mão e salvar a vida de seu pai?" "O que você está dizendo?" disse o Rei. "Há muitas mãos iguais a essa no mundo." Enquanto raciocinavam, o sacerdote entrou no quarto do Rei. "Essa grande Imortal há muito tempo dedica-se à realização da perfeição", disse ele. "É incontável o número de pessoas que já curou. Dá-me a mão e o olho." Tomou os dois e logo fez um ungüento que, disse ao Rei, era para passar no seu lado esquerdo. Nem bem tocara sua pele, a dor do seu lado esquerdo desaparecera como se fosse uma mágica; nenhum sinal de úlceras havia nesse lado, mas seu lado direito permanecera tão inchado e dolorido como antes.

"Por quê", perguntou o Rei, "esse remédio tão eficaz para o lado esquerdo não funciona no direito?" "Porque", respondeu o sacerdote, "a mão e olho esquerdos da santa cura apenas o lado esquerdo. Se deseja ser curado por completo, tem de enviar as suas autoridades para obter o olho direito e a mão direita também." O Rei despachou devidamente os seus enviados novamente com uma carta de agradecimento, e implorando que fizesse mais um favor para sua cura completa cerca do seu lado direito.

O Rei é Curado

Na chegada dos enviados, Shan Ts’ai recebeu-lhes na forma mutilada de Miao Shan, e pediu-lhes que cortassem sua mão direita e arrancassem seu olho direito, e os colocassem em uma bandeja. Ao ver os quatro ferimentos sangrando, Liu Ch’in não se conteve e gritou indignado: "Esse sacerdote é um malvado, fazendo uma mulher de mártir para obter a sucessão!"

Terminado de falar, saiu com seu companheiro para o reino de Hsing Lin. Quando chegaram, o Rei não se continha de alegria. O sacerdote rapidamente preparou o ungüento, e o Rei, sem demora, aplicou ao lado direito. Imediatamente as úlceras desapareceram como a escuridão da noite anterior antes do sol nascer. A Corte inteira cumprimentou o Rei e elogiou o sacerdote. O Rei conferiu ao mesmo o título de Sacerdote do Olho Brilhante. Este curvou-se ao chão em gratidão e acrescentou: "Eu, um pobre sacerdote, abandonei o mundo, e tenho apenas um desejo, que sua Majestade governe os seus subordinados com justiça e compaixão, e que todas as autoridades do reino provem-se homens íntegros. Com relação a mim, estou acostumado a vagar por ai. Não tenho nenhum desejo de qualquer estado de nobreza. Minha felicidade excede todas as alegrias mundanas."

Tendo falado, o sacerdote sacudiu a manga de seu manto, uma nuvem desceu do Céu, e sentando-se sobre ela, desapareceu no firmamento. Dessa nuvem desceu uma nota contendo as seguintes frases: "Eu sou um dos Instrutores do Oriente. Vim para curar a enfermidade do Rei, e também para glorificar a Doutrina Verdadeira."

A Filha do Rei

Todos que testemunharam esse milagre exclamaram em voz única: "Esse sacerdote é o Buda Vivo, que volta ao Céu!" A nota foi levada ao Rei Miao Chuang, que exclamou: "Quem sou eu para merecer que um dos governantes do Céu deve dignar-se a descer e curar-me com o sacrifício de mãos e olhos?"

"Qual era a fisionomia da pessoa santa que lhe deu o remédio?" perguntou então a Chao Chên.

"Era igual a de sua falecida filha Miao Shan", respondeu.

"Quando retirou suas mãos e olhos parecia sofrer?"

"Vi um grande fluxo de sangue, e meu coração partiu, mas o rosto da vítima parecia radiante de felicidade."

"Certamente deve ser minha filha Miao Shan, que atingiu a perfeição", disse o rei. "Quem mais a não ser ela doaria suas mãos e olhos? Purifiquem-se e observem as regras da abstinência, e vão rapidamente a Hsiang Shan para dar graças a santa por este inestimável favor. Eu mesmo irei depois para agradecer pessoalmente."

O Rei e a Rainha são levados como Prisioneiros

Passados 3 anos o Rei e a Rainha, junto com os eminentes de sua Corte, partiram para visitar Hsiang Shan, porém no caminho os monarcas foram capturados pelo Leão Verde, ou Deus do Fogo, e o Elefante Branco, ou Espírito das Águas, os dois guardiães do Templo do Buda, que lhes transportaram a uma caverna escura nas montanhas. Uma terrível luta ocorreu entre os espíritos malígnos de um lado, e do outro, e algumas hostes celestiais, que foram convocadas para o resgate. Enquanto o motivo era desconhecido, reforços sob o Diabo Infantil Vermelho, que resistia fogo, e o Dragão-Rei do Mar Oriental, que conseguia acalmar as águas, finalmente desviaram o inimigo, e os prisioneiros foram liberados.

O Arrependimento do Rei

O Rei e a Rainha agora resumiram sua peregrinação, e Miao Shan deu instruções a Shan Ts’ai para receber os monarcas quando chegassem para oferecer-lhes incenso. Ela tomou seu lugar no altar, seus olhos arrancados, suas mãos cortadas, e seus punhos jorrando sangue. O Rei reconheceu sua filha, e amargamente aproximou-se; a Rainha prostrou-se aos seus pés. Miao Shan falou então, e tentou confortar-lhes. Disse-lhes de tudo que havia passado desde o dia em que ela foi executada, e como havia atingido a perfeição imortal. Logo, continuou: "A fim de castigar-lhe por ter causado as mortes de todas as pessoas que morreram nas guerras que precederam sua acensão ao trono, e também para vingar o incêncio do Convento do Pássaro Branco, Yü Huang afligiu-lhe com as horríveis úlceras. Foi então que transformei-me em sacerdote para curar-lhe, e doei meus olhos e minhas mãos, com os quais preparei o ungüento que lhe curou. Fui eu, além de tudo, que consegui do Buda a sua liberdade quando foram capturados na caverna pelo Leão Verde e o Elefante Branco."

O Burel e as Cinzas

Com essas palavras o Rei lançou-se com o rosto no chão, ofereceu incenso, reverenciou o Céu, a Terra, o sol, e a lua, e dizendo aos prantos: "Cometi um grave crime matando minha filha, que sacrificou seus olhos e suas mãos para curar minha enfermidade."

Nem bem terminou de dizer essas palavras, Miao Shan retomou sua forma normal, e descendo do altar, aproximou-se de seus pais e irmãs. Seu corpo estava em sua forma original e completa; e na presença de sua beleza perfeita, e encontrando-se reunidos como família, todos choraram de alegria.

"Bem", disse Miao Shan ao seu pai, "você vai forçar-me agora a casar e impedir que me dedique em atingir a perfeição?"

"Não fale mais nisso", respondeu o Rei. "Eu estava errado. Se você não tivesse atingido a perfeição, eu não estaria vivo agora. Decidi a trocar meu setro pela busca da vida perfeita, que desejo seguir daqui em diante junto a você."

O Rei renuncia o Trono

Logo, na presença de todos, ele dirigiu a palavra ao seu Ministro Superior Chao Chên, dizendo: "Sua devoção ao serviço do Estado recompensou com a dignidade de usar a coroa: eu a entrego a você." A Corte proclamou Chao Chên, o Rei de Hsing Lin, despediu-se de Miao Chang, e partiu para seu reino acompanhado de sua nova soberania.

Perdão ao Leão Verde e ao Elefante Branco

Buda convocou o Elefante Branco e o Leão Verde, e estava prestes a sentenciá-los a condenação eterna quando a compassiva Miao Shan intercedeu por eles. "Certamente vocês não merecem o perdão", disse ele, "mas não posso recusar o pedido de Miao Shan, cuja clemência é ilimitada. Passo vocês a ela, para servi-la e obedece-la em tudo. Sigam-na."

Miao Shan torna-se Buda

O espírito guardião de plantão nesse dia, logo anunciou a chegada de um mensageiro de Yü Huang. Era T’ai-po Chin-hsing, o portador de um decreto divino, que ele entregou a Miao Shan. Dizia o seguinte: "Eu, o majestoso Imperador, dou-lhes conhecer este decreto: Miao Chuang, Rei de Hsing Lin, que faz esquecer tanto o Ceu quanto o Inferno, as seis virtudes, e metempsicose, viveu uma vida culpável; mas os seus 9 anos de penitência, a piedade que lhe fez sacrificar seu próprio corpo para conseguir sua cura, em resumo, todas as suas virtudes, redimiram suas falhas. Os seus olhos podem ver e seus ouvidos podem ouvir todas as boas e más obras e palavras dos homens. Você é o objeto de minha consideração especial. Portanto, proclamo desse decreto de canonização.

"Miao Sahn terá o título de Muito Misericordiosa e Muito Compassiva P’u-sa, Salvadora dos Afligidos, Milagrosa e Protetora Sempre Auxiliadora dos Mortais. Em seu precioso trono elevado de flor de lotus, será a Soberana dos Mares do Sul e da Ilha de P’u To.

"Suas duas irmãs, manchadas até agora com os prazeres mundanos, gradualmente irão progredir até alcançarem a verdadeira perfeição.

"Miao Ch’ing terá o título de Muito Virtuosa P’u-sa, a Completamente Bela, Montada no Leão Verde.

"Miao Yin será honrado com o título de Muito Virtuosa e Completamente Resplandescente P’u-sa, Montada no Elefante Branco.

"O Rei Miao Chuang é elevado à dignidade de Virtuoso Conquistador P’u-sa, Fiscal dos Mortais.

"A Rainha Po Ya recebe o título de P’u-sa das Dez Mil Virtudes, Fiscal das Mulheres Famosas.

"Shan Ts’ai dotou a ele o título de Jovem Dourado.

"Lung Nü possui o título de Donzela de Jade.

"Durante todo o tempo deve queimar incenso diante de todos os membros desse grupo canonizado."

Livro I das Pérolas de Sabedoria 1982
Kuan Yin
Abri a Porta para a Era de Ouro: A Senda dos Místicos, Oriente e Ocidente

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