chama violeta  Pager

Nas Colinas de Dã


(Os Estratagemas de Satanás)

Era mais do que sabido naquela época que Maria era profetisa. E ela tivera mais uma de suas visões. Precisava falar com Jesus sobre ela. Precisava contar-lhe o sonho que tivera com ele. Era assim que na maioria das vezes ela tinha suas visões.
- Maria.
- Mestre. Venho querendo falar-lhe a sós.
– Agora, que o conseguira, as palavras não lhe saíam da boca. Jesus ficou esperando. Não disse “o que é?”, ou “então, fale”.
- Sei que é uma hora difícil... Uma hora de decisões...
- É.
- Precisava contar-lhe que tive outro daqueles sonhos, ou visões, ou o que quer sejam. E você estava nele. Preciso contar-lhe o que vi.
Ele suspirou.
- É. Tenho que saber.
– Na escuridão, ele não via seu rosto; apenas ouvia sua voz.
Rapidamente, ela lhe contou o que vira
– Jesus agarrado por alguém, espancado, sangrando sendo atacado.
- Você viu onde isso acontecia?
– perguntou ele. Foi tudo o que disse.
- Vendo de longe... era alguma cidade. Havia muita gente e edifícios por toda parte.
- Jerusalém.
– Jesus pronunciou a palavra quase exultante.
– Jerusalém.
- Mestre – disse ela.
– Não tenho certeza. Não consegui identificar o lugar nem o que, na verdade, estava acontecendo.
- Era Jerusalém
– disse ele.
– Eu sei. É lá que morrerei. Você só viu o início. Foi poupada de um final horroroso.
- Mas por quê? O que irá acontecer lá?
- Não sei responder
– disse ele. Agora ela viu nitidamente seu rosto. Seu olhar estava perturbado, confuso.
– Só sei que devo obedecer.
- Obedecer a quê?
- Deus disse-me que devo ir a Jerusalém por ocasião da Páscoa. Você se lembra de que foi lá? Quando era menina?
- Lembro – disse ela. – Mas só me lembro das multidões, do tamanho do Templo, da pedra branca, ofuscante, e das decorações em ouro.
- Você não sentiu nada de sagrado?
- Se senti, não foi uma sensação que guardei – disse ela. – Perdoe-me.
- Se não o sentiu, talvez tenha sentido o que estava por vir.
– Sua voz deixava transparecer a preocupação.
– Ou talvez uma criança sinta melhor que as outras pessoas quando o sagrado está presente.
- Mas eu era muito pequena.
- Maior o motivo para sentir.
– Falava de forma resoluta.
– O Templo e seus sacerdotes corruptos foram rejeitados por Deus – disse.
– Dentro de poucos anos, dele não restará pedra sobre pedra.
Maria não conseguiu evitar o susto. O Templo era uma estrutura enorme, que parecia sólida como uma montanha. – Não! – Mas a visão que tivera...
- Sim. Nada irá sobrar dele. – Eu disse que a era atual irá acabar. E a contagem regressiva começará em Jerusalém e a partir de lá se ampliará.
- Mas o Templo... disseram nos que era a morada de Deus. Isso quer dizer que ele fugirá de lá e nos abandonará?
- Ele jamais nos abandonará – disse Jesus, com autoridade.
– Mas desconheço o significado da destruição do Templo. Sei que devo obedecer ao chamado e dirigir-me para Jerusalém. E quando lá chegar, devo agir como Deus determinar.
- A visão que eu tive...
- Era verdadeira. Só não sabemos o cenário em que ela ocorre.
– Pegou as mãos de Maria nas suas.
– Agradeço-lhe por me ter revelado. E agradeço a Deus por permitir-lhe que tenha essas visões. Apertou as mãos dela.
- E agradeço a Deus por você ter vindo a mim e falado abertamente.
Maria sentiu-se profundamente excitada e honrada com aquelas palavras, como se uma fonte começasse a brotar água de dentro de si, com uma energia espantosa.
Ele reconhecia que havia um vínculo entre eles e até agradecia a Deus por isso. Maria não sabia dizer exatamente o que era, mas era algo de especial, era simplesmente alguma coisa, e Deus a trouxera aqui e a criara só para isso.
Quando as palavras vieram à sua cabeça, a única coisa que soube expressar foi: “Jesus é meu!” Sentiu percorrê-la a alegria da posse.
Ele pertencia a ela, ele a olhava de maneira diferente da que olhava os outros, eles se integravam mentalmente.
Ambos gozavam da concessão de revelações, diferentes, mas que se completavam.
Ele valorizava o que ela lhe contava de suas revelações, de suas percepções.
Ela oferecia-lhe algo que nenhum outro podia oferecer.
Ele a amava. Agora ela o sabia. Por que não conseguia falar?
Pôs a mão na garganta como se isso ajudasse as palavras a saírem.
Precisava falar, dizer alguma coisa.
Mas apenas continuava olhando para ele, seu rosto comprido de olhos profundos.
Tudo o que gostaria de ser ou de ter sido naquele rosto.
- Maria, assim não. – Era Jesus que falava. – Não dê ouvidos para Satanás. – Parecia derrotado.
– Esperava uma reação. Sim, esperava, mas não desta maneira. E de vocês dois, você e Pedro. Ele falou com vocês e vocês o escutaram. Satanás! Não! Aquele sentimento maravilhoso, aquele amor que, embora fosse entre um homem e uma mulher, era completamente bom e nobre... Não podia ter nada a ver com Satanás.
- Você está dizendo que eu... que eu... estou possuída de novo?
– O que ele estava vendo? Aquela suprema tranqüilidade e alegria que sentira começava a derreter, em pequenas gotas de medo.
A risada leve e reconfortante que ele deu a impediu de cair.
– Não, claro que não. Satanás, agora está fora, e não dentro de você. Está andando em volta de nós, sussurrando, tentando criar obstáculos.
- É esse lugar! – gritou ela. – Esse lugar é malévolo, com aquele altar para deuses estrangeiros – e construído pela desobediência e pela rebelião... É claro que sentimos a presença de Satanás. Vamos embora daqui!
- Logo iremos embora. Mas, Maria, escute-me, agora, em vez de escutar Satanás.
Você sabe que ele nos ataca através de nossos dons, e você tem muitos dons.
Ele os usa para que você sinta orgulho deles.
Orgulho?, pensou Maria. Não sou orgulhosa.
Mas quando olhou para os olhos dele, sentiu vergonha.
Ele havia percebido a alegria secreta que ela sentira ao constatar que sabia mais do que os outros, ou que lhe era concedida uma revelação proibida aos outros, embora ela mesma dissesse que não a desejava.
- Perdoe-me – disse ela, por fim, sentindo-se encolher. Sua excitação desaparecera e agora ela queria apenas sumir dali.
- Não quis ser rude – disse Jesus. – Mas é sempre mais fácil ver Satanás agindo sobre os outros do que sobre nós mesmos.
Lembre-se, Maria, de que ele só ataca quem tenta fazer o bem. Não é uma acusação a você.
Mas é claro que era. Ele desprezava seu orgulho; ele o vira e o desmascarara. Seria impossível que a amasse... Pelo menos, daquela maneira.
- Mas não é com seu orgulho que Satanás está mais preocupado – disse Jesus.
Não! Vamos parar por aqui. Não quero que ele veja mais dentro de mim!, suplicou Maria.
- Seu objetivo maior é o de tomar a coisa mais natural do mundo e transformá-la num obstáculo entre nós. – Jesus fez uma pausa, como se hesitasse em continuar.
– Ou seja, o amor entre um homem e uma mulher. Eu sei que você me ama, Maria.
Ela sentiu-se completamente desconcertada. Pois a frase que se seguiria não seria, evidentemente:
“E eu também a amo”.
Queria fugir dele, fugir daquela vergonha.
Se seus sentimentos não correspondiam, então por que ele expunha os dela daquela maneira?
Mas por que negá-lo?
Ele sabia de tudo, de qualquer maneira.
O que poderia ser pior do que ele já dissera?
– É verdade, eu o amo – disse.
– E você também me ama. Eu sinto! – acrescentou, desafiadora, embora já nem acreditasse nisso.
- É verdade, também a amo – disse ele.
– Amo sua coragem, sua integridade, e se minha vida fosse em outra direção eu a escolheria para percorrer o caminho a meu lado.
Embora não seja, ainda a escolho para me acompanhar em minha caminhada.
Mas será uma caminhada diferente, não aquela que se oferece aos outros, de casamento, filhos e um lar.
Nesse sentido, não posso pertencer a ninguém. Mas Satanás sabe como isso é difícil para mim e me lembra constantemente daquilo que me devo abster.
- Não compreendo. Por que não pode tomar esse outro caminho?
- Porque o caminho que foi escolhido para mim, eu devo percorrer sozinho.
E, a partir de uma determinada encruzilhada, só haverá espaço para um caminhante.
- Escolhido para você? Você o escolheu sozinho!
– Ela revidava, agora, como forma de ocultar seus próprios sentimentos, muito confusos.
– Você só nos provoca a todos, com suas alusões e insinuações misteriosas, e nós o continuamos acompanhando sem saber para onde vamos, nem sequer por que estamos aqui!
- Também não é fácil para mim. Vocês, pelo menos, tem uns aos outros...
- Se você não tem uma companheira é porque você... não é como...
- É porque assim o escolhi, como você disse. Isso não significa que não dê valor ao companheirismo que me é permitido.
- Não... não compreendo. – Maria esforçava-se por não soluçar.
- Tudo ficará claro para você. Você recordará minhas palavras e irá compreender tudo. Por enquanto, compreenda apenas que eu realmente a amo.
Não como Joel a amou. Não me abandone! Preciso de sua força. Por favor!
Maria tentou afastar-se. Queria fugir, correr para longe, para bem longe.
- Por favor, Maria, fique comigo! Sem você... será difícil enfrentar o que virá.
- O que virá... O que virá... E o que significa isso para mim?
– O vínculo que existia entre eles era Jesus. E sem ele...
- Você foi batizada numa irmandade. Eles precisam de você. E precisarão de você.
Não queria ser necessitada.
O que queria era que alguém preenchesse suas necessidades.
Não respondeu e começou a andar na direção do acampamento. Os outros, agora, estariam acordando e procurando por eles.
- Tenho eu ir para Jerusalém. É lá que devo falar, no centro do lugar sagrado de Deus. Mesmo se for sozinho, tenho que ir.
- Sua voz era melancólica, como se suplicando que ela compreendesse e, naturalmente, que prometesse ficar.
Ela virou-se e deixou-o sozinho na plataforma. A mágoa que sentia era tão grande que não suportava olhar para ele por mais tempo.

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