
Certa vez Patrul Rinpoche estava caminhando pelas montanhas próximas a
Katog, na província de Dergé, onde há várias grandes stupas (estas são grandes
monumentos em forma de sino que servem como santuários para as relíquias sagradas dos
patriarcas budistas). Patrul encontrou ali a hospitalidade de um velho lama de Gyarong.
Patrul e o lama conversaram. O lama de Gyarong disse ao anônimo Patrul,
que parecia a ele apenas um sincero mendigo religioso, "Pareces interessado nos
ensinamentos budistas. Conheces algo de sua pratica efetiva?"
O incomparavelmente erudito e realizado Patrul respondeu, "Um
pouco, apenas umas coisinhas aqui e ali que fui bem-afortunado o suficiente para ouvir no
passar dos anos. Por certo o Darma sublime é inimaginavelmente vasto e profundo."
O monge disse a Patrul, "Ouça, tenho aqui um texto maravilhoso que
explica completamente os fundamentos da doutrina budista; é cheio de contos interessantes
e revelações compassivas. Foi recentemente escrito pelo professor iluminado Patrul
Rinpoche. O livro chama-se 'As Instruções Orais do Buda Primordial'. Explicarei-o para
ti, se quiseres."
Patrul Rinpoche pareceu gostar da idéia. O idoso lama ensinou-lhe sobre as
quatro contemplações que retiram a mente do samsara (o mundano), e outros tópicos dos
capítulos iniciais do livro que contem as instruções essenciais da linhagem oral, que o
próprio Patrul havia reunido. O lama estava satisfeito por ter um estudante
atento, e explicou tudinho em detalhes, para deleite mútuo.
Poucos dias depois, todos ficaram sabendo que o ilustre Patrul
Rinpoche iria dar ensinamentos bem perto, no mosteiro de Katok. O próprio Patrul passou
uma grande parte do tempo circumambulando as stupas, as quais ele percebia, através de
sua visão sagrada, como o local de todos os iluminados do passado, presente e futuro.
Alguns monges de Dzachuka que também estava circulando as stupas viram-no ali;
reconhecendo-o imediatamente, eles prostraram-se na terra. Todos regozijaram-se: o
glorioso Dza Patrul havia chegado!
Aquela noite o lama de Gyarong retornou do mercado. Ele disse a todos na
casa, maravilhado, que o próprio Patrul estava na área de Katog e que logo chegaria ao
mosteiro. Virando-se para o mendigo anônimo, o lama disse, "Não é esplêndido que
o autor iluminado desse mesmo livro que estamos estudando esteja tão próximo?"
Patrul pareceu pouco impressionado. "Talvez seja ele, mas por outro
lado talvez não... Quem pode dizer? Afinal, o que há de tão especial a respeito de Dza
Patrul? Ele provavelmente é apenas mais um lama da cidade. 'É melhor reverenciar os
ensinamentos do que o professor,' como disse o Buda."
O lama bateu nele, berrando, "Como ousas falar dessa forma a teus
superiores? Devo mandar-te embora dessa casa direita! Devias ter mais respeito por nosso
professor gracioso, o Buda vivo Patrul Rinpoche."
Dois dias mais tarde, Patrul subiu ao decorado trono de ensinamento no
mosteiro de Katog, perante uma assembléia de milhares. Quando o lama de Gyarong viu seu
estudante temporário sentado no trono, imediatamente percebeu o que havia acontecido. Ele
fugiu envergonhado e nunca mais foi visto em Katog.
Mais tarde Patrul foi relembrado da história. Ele sorriu e
disse, "Isso é muito ruim mesmo. Talvez ele realmente tenha ficado bravo comigo; mas
mesmo assim deu excelentes ensinamentos das 'Instruções Orais do Buda Primordial' a
respeito das quatro contemplações que livram a mente do samsara, que eu nunca me canso
de refletir a respeito. Eu espero sinceramente e rezo para que meu gentil professor, o
lama de Gyarong, encontre a paz sublime, e que todos os seres ligados a mim iluminem-se
juntos."