Lamas Anônimos
O Mosteiro
Dodrup Chen está na região pouco povoada de Golok em Kham. Foi um dos principais centros
para a prática dos ensinamentos Dzogchen do onisciente Jigmé Lingpa, o Longchen
Nyingthig (Essência da Grande Perfeição). Jigmé Gyalway Nyugu e o primeiro Dodrup Chen
Rinpoche foram os principais discípulos de Jigmé Lingpa; o discípulo deles, por sua
vez, foi Patrul Rinpoche.
Mestres poderosos, realizados na prática da ioga de transfêrencia-de-consciência
chamada Phowa, podem conduzir a essência de um ser humano falecido através da abertura
no topo da cabeça, permitindo ao morto renascer nos campos-de-budas, que são paraísos
ou Terras Puras. No momento da transferência, algumas manifestações externas, bem como
algumas internas, geralmente ocorrem; estas são sinais do sucesso do empreendimento.


Um dia uma velha senhora jazia morta na cama. Os parentes enlutados viram
três vagabundos passando um velho, um na meia-idade e um jovem. Como o trio
esfarrapado estava vestido em cores que lembravam os robes vermelho-escuros da ordem
Budista, eles foram convidados. Talvez estes fossem iogues errantes que, sendo pagos,
poderiam executar os ritos apropriados para a falecida.
O chefe da família, um camponês, perguntou respeitosamente, "Podem
ajudar nossa mãe falecida? Não há monges por aqui. Faremos oferendas."
O mendigo mais velho respondeu, "Não precisamos de
oferendas, somente comida. Faremos o que for necessário para enviar sua velha mãe para
os campos-de-budas." Os três começaram a preparar os bolos de centeio chamados
tormas em preparação para os rituais Nyingthig que iriam realizar.
Os membros da família perceberam que os três esfarrapados pareciam saber
exatamente o que estavam fazendo. Os mendigos falavam dos abençoados campos-de-budas como
se conhecedores íntimos destas esferas sublimes. Surpresa, a família manteve-se em
silêncio e reuniu farinha de centeio, água, manteiga, grãos, incenso, e o tudo mais que
os homens pediam. Sua falecida mãe teria um funeral digno!
"Quem poderia imaginar que esses pobres errantes viriam nos
ajudar assim?" a família exclamava, satisfeita com sua boa sorte inesperada.
"Ao menos eles sabem preparar um belo espetáculo disso tudo!"
O mais jovem dos iogues agachava-se perto da fogueira, moldando as tormas
para oferenda com mãos hábeis. A filha da casa, ao fazer suas tarefas de cozinha,
tropeçou nele. Ela rudemente mandou-o sair do caminho, tratando-o com desrespeito como se
fosse um mendigo qualquer.
"Se lamas de verdade estivessem por aqui," a jovem
mulher pensava para si, "eu não teria que conviver com estes três vagabundos. De
qualquer forma, pelo menos eles sabem fazer um espetáculo ao realizar ritos
funerais."
O jovem lama entendeu exatamente o que se passava por sua cabeça. Sorrindo
benevolente e permanecendo em silêncio, ele completou sua humilde tarefa. Logo todas as
preparações estavam terminadas.
Quando os três iogues começaram seu rito, um incrível silêncio
preencheu o recinto. Um arco-íris apareceu acima da casa, e ao mesmo tempo alguns cabelos
caíram da cabeça do cadáver. Um calombo apareceu na sua abertura da coroa, do qual o
princípio da consciência ejetou-se e transferiu-se para os campos-de-budas. A família
inteira ficou assombrada. Nunca haviam esperado resultados tão dramáticos!
"Vocês realizaram um milagre!" o camponês exclamou.
"Por gratidão, oferecemos três cavalos e um iaque para a viagem."
O mais jovem dos lamas falou diretamente, "Não queremos nada com
cavalos, iaques e outros animais de carga. Três cavalos são somente três cavalos de
problemas! Também não precisamos de nenhuma outra oferenda por fazer este serviço pela
falecida. Mesmo que nos oferecessem todas suas posses, o que iríamos querer com
elas?"
O dono da casa polidamente convidou-os para ficar e orar ali por três
meses, três semanas, ou ao menos três dias. Então ele respeitosamente perguntou ao
jovem lama quem suas companhias eram de fato, pois ficou óbvio que estes não eram três
viajantes comuns.
O jovem lama respondeu, "Já ouviram falar do sucessor ilustre de
Jigmé Lingpa. Dodrup Chen Rinpoche?"
O camponês ficou boquiaberto. Hesitante, ele aventurou-se a
perguntar o nome do outro venerável lama. "Este é o renomado mestre Dzogchen Jigmé
Gyalway Nyugu em pessoa," disse o jovem lama, não mencionando seu próprio nome.
Instantaneamente, a família prostrou-se no chão de terra, implorando
perdão por sua ignorância. Relutantes em deixar partir tão santa companhia, eles
acompanharam os lamas a pé por um dia.
O jovem lama era ninguém mais do que o vagabundo iluminado
Patrul Rinpoche, cujos escritos originais e impecável integridade nos inspiram ainda
hoje.

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