chama violeta  Pager


Consciência sem limites


A pesquisa da mente atinge o ponto onde a ciência encontra a espiritualidade.


José Tadeu Arantes


Quem somos?
De onde viemos?
Para onde vamos?
Por que o mundo existe?
Qual o sentido da existência?
Todos nos fizemos, alguma vez, perguntas como estas. Elas têm sido formuladas desde a infância da humanidade. E as inspiradas respostas que lhes foram dadas constituem o núcleo das grandes tradições espirituais do planeta. Essa sabedoria tradicional - que já foi desprezada em nome da ciência - vem recebendo agora notáveis confirmações por parte da moderna pesquisa científica da consciência.
Quando se fala em pesquisa da consciência, o primeiro nome a ser lembrado é o de Stanislav Grof. Nenhum cientista tem feito mais na área do que esse psiquiatra checo radicado nos Estados Unidos. Ao longo de quatro décadas de investigações sistemáticas, ele acompanhou dezenas de milhares de indivíduos, de diferentes meios culturais e crenças, que tiveram acesso ao que chamou de "estados inusuais de consciência". "As experiências psíquicas vividas nessas condições desafiam a visão de mundo materialista e compõem um quadro que coincide com os ensinamentos das antigas tradições espirituais", declarou Grof a Galileu. Ele próprio apresentou esse quadro numa série de livros, especialmente em O Jogo Cósmico, recém-lançado no Brasil.
Segundo o pesquisador, a psique atua de dois modos diametralmente opostos. Recorrendo a uma analogia simplista, mas útil para a compreensão do fenômeno, pode-se dizer que ela possui um dispositivo interno que funciona de modo semelhante a um interruptor de corrente elétrica. Quando giramos a chave para um lado, a consciência se restringe, tornando-se focalizada, analítica, atenta aos detalhes. Essa é a posição com a qual operamos usualmente em nosso dia-a-dia. Ela nos leva a ver a realidade como um conjunto de eventos, que ocorrem no espaço tridimensional e se sucedem num tempo linear. E, por exemplo, nos permite atravessar uma rua movimentada sem sermos atropelados e calcular, com alguma chance de sucesso, o entra-e-sai de dinheiro em nossa conta bancária. Grof a chama de hilotrópica, palavra derivada dos termos gregos hyle (matéria) e trepein (mover-se em direção a).
Até aqui, nenhuma novidade. Quando giramos a chave para o outro lado, porém, a situação se altera de maneira radical. A consciência liberta-se das amarras do espaço-tempo, da identificação restritiva com o corpo físico e o ego racional e expande-se indefinidamente. Caem as barreiras entre o "eu" e o "outro", entre o "aqui" e o "ali", entre o "antes" e o "depois". A consciência passa a englobar domínios cada vez mais amplos da realidade. No limite, ela abarca toda a criação e pode até mesmo identificar-se com o Criador. Esse é o estado no qual surgem as grandes inspirações artísticas, científicas e filosóficas, a iluminação mística e os dons proféticos. Grof o chama de holotrópico, do grego holos (todo) e trepein (mover-se em direção a).

Ursos poderosos

Parece fantástico. Mas, como demonstrou de maneira exaustiva a pesquisa de Grof, os estados holotrópicos, ou inusuais, são potencialmente acessíveis a todo ser humano. Eles hibernam como ursos poderosos nas cavernas da psique. E tendem a despertar pelos mais variados motivos. Podem irromper fugaz e espontaneamente em meio às atividades cotidianas, provocados pela visão de um céu estrelado, pela audição de um concerto de Bach ou pela leitura de um verso de William Blake, por exemplo. Podem ser metodicamente preparados, desencadeados e estabilizados por meio de rigorosas disciplinas espirituais, como as iogas indianas. Podem ser temporariamente induzidos por substâncias psicoativas e técnicas de forte impacto, como a "respiração holotrópica", desenvolvida por Grof e sua mulher Christina.
Qual é a visão de realidade oferecida pelos estados holotrópicos? Para começar, o universo material deixa de ser visto como uma coleção de objetos separados, relacionados uns com os outros por meio de forças externas e cegas. Ele passa a ser percebido, ao contrário, como uma totalidade inseparável e orgânica. "Nosso universo, que parece englobar um número incontável de entidades e elementos diferentes, apresenta-se, então, como um único ser, de imensas proporções e complexidade inimaginável", explica Grof. Igual a um tapete contínuo, é impossível puxar uma de suas pontas sem balançar todas as demais. E não se trata de um tapete comum, mas do famoso tapete mágico dos contos de As Mil e Uma Noites, pois a percepção que se tem do universo é a de um ser vivo, impregnado de consciência em todos os seus níveis.
Grof e seus colaboradores recolheram centenas de relatos de indivíduos que, em estado holotrópico, sentiram-se identificados com animais, vegetais ou minerais. Todos esses entes, inclusive aqueles supostamente inanimados, pareciam-lhes dotados de consciência, que adquiria, em cada caso, um matiz específico. Tais experiências poderiam ser rotuladas como meras fantasias ou alucinações, não fosse pelo fato de que esses episódios proporcionaram, às pessoas envolvidas, informações detalhadas - e previamente desconhecidas - sobre os entes com os quais haviam sintonizado. A identificação consciente com plantas, por exemplo, traduziu-se em vislumbres surpreendentemente precisos de processos botânicos, como germinação de sementes, trânsito de água e minerais nas raízes, fotossíntese e polinização.
Em O Jogo Cósmico, Grof menciona a experiência espontânea de um americano inteligente e culto, que se identificou com uma montanha, enquanto acampava com amigos na Sierra Nevada. O psiquiatra o chama apenas de John. "Gradualmente, perdi o sentido dos limites e me fundi com a montanha de granito", relata John. "Todo o meu turbilhão e palavrório internos silenciaram e foram substituídos por uma quietude absoluta. Senti que eu havia chegado. Eu estava num estado de completo repouso, no qual todos os meus desejos e necessidades pareciam satisfeitos e todas as perguntas respondidas. Subitamente me dei conta de que essa paz inimaginável tinha algo a ver com a natureza do granito. Por incrível que pareça, senti que eu me tornara a consciência do granito. Compreendi, então, por que os egípcios faziam esculturas de deuses em granito e por que os indianos viam o Himalaia como a figura reclinada de Shiva. Era o estado de consciência imperturbável que eles veneravam."
Esses dados já contradizem frontalmente o sistema de crenças da ciência materialista. Mas a visão descortinada em estados ampliados de consciência vai muito além. Pois, o domínio da matéria, com seus bilhões de galáxias, representa nela apenas uma estreita faixa do campo contínuo que compõe a realidade. Adiante dele, estende-se a vastidão inconcebível dos domínios espirituais, povoados por uma profusão de personagens, que, na posição holotrópica da chave do interruptor, mostram-se tão ou mais reais do que os entes materiais. Grof e seus colaboradores reuniram uma quantidade prodigiosa de casos de encontros ou mesmo identificação com espíritos desencarnados, antigos mestres espirituais, personagens mitológicos e deuses e deusas de diferentes panteões.

Um amor irrestrito

Um jornalista brasileiro, que para manter sua privacidade prefere não ser identificado, viveu experiência desse tipo durante uma sessão de respiração holotrópica. "A atividade mal havia começado, quando eu fui presenteado com uma visão do grande mestre espiritual indiano Babaji", afirma. "Ele estava na minha frente, a uma certa distância, com a mão direita levantada num gesto de bênção. Era jovem, tinha cabelos longos, vestia uma túnica branca e emanava um amor irrestrito. Sua figura possuía uma presença, qualidade plástica e luminosidade sem paralelos com qualquer personagem que possamos observar no mundo material. E se manteve estável durante as três horas que durou a sessão, não desaparecendo mesmo quando eu tive que interromper a atividade para ir ao banheiro. Eu estava perfeitamente desperto e lúcido e tenho certeza de que aquela visão não foi produto da minha fantasia ou imaginação."
Narrativas como esta podem ser recebidas com desdém pelos céticos. Mas os estados holotrópicos são pródigos em experiências semelhantes e qualquer um que as tenha vivido dificilmente duvidará de sua autenticidade. Nesses elevados patamares de consciência, o mundo material e o mundo espiritual apresentam-se como elos de uma corrente contínua, que as tradições místico-filosóficas nomeiam como a "grande cadeia do ser". E a matéria e o espírito mostram ser apenas diferentes manifestações da divindade única.
"Quando experimentamos essas dimensões que estão ocultas à nossa percepção diária, percebemos, de maneira direta e irrecusável, o caráter divino da existência", enfatiza Grof. Sri Aurobindo Ghose (1872-1950), um dos maiores iogues contemporâneos, teve essa percepção logo no início de sua prodigiosa trajetória espiritual. Aos 35 anos, engajado na luta pela independência nacional da Índia, ele buscou, na milenar disciplina da ioga, um método que otimizasse sua capacidade de trabalho e ação. Seu primeiro exercício de meditação profunda, sob a direção de um guru, resultou numa experiência que transformou radicalmente sua visão de mundo. "Com estupenda intensidade, ela me fez ver o mundo como um jogo cinematográfico de formas vazias na impessoal universalidade do Absoluto", escreveu ele anos mais tarde. "Não havia ego ou mundo. Não havia um ou muitos. Apenas um 'Isso' sem feições, sem relações, puro, indescritível, impensável, absoluto. Todavia, supremamente real e a única realidade."
Contra sua expectativa e convicções filosóficas, Aurobindo havia entrado num estado espiritual que representa a mais alta meta de várias escolas místicas. Uma meta alcançada apenas por poucos e após longos anos de prática. Para ele, porém, esse foi apenas o primeiro passo, rumo a experiências ainda maiores, que se sucederiam num crescendo até o fim de sua vida. Prosseguindo seu combate contra o domínio inglês da Índia, ele foi preso pelas autoridades coloniais e, na cadeia, teve acesso a um estado de consciência que o levou a ver Deus em todas as coisas. A visão se manteve imperturbável, mesmo diante do tribunal britânico: "Eu olhava para o conselho de promotores e não era o conselho de promotores que eu via", descreveu Aurobindo. Era o Senhor Krishna (uma das personificações divinas), que estava sentado lá e sorria. 'Você ainda tem medo?', ele disse. 'Eu estou em todos os homens e governo suas ações e palavras'".

O como e o porquê

Na perspectiva holotrópica, a realidade inteira, com seus incontáveis enredos, personagens e conflitos, é um magnífico teatro, no qual Deus é o autor, o produtor, o diretor, a equipe técnica, os atores e a platéia. O "como" e o "porquê" desse jogo fascinante são perguntas que vêm intrigando, há milênios, a inteligência humana. E constituem um enigma insolúvel para o ego racional. A simples indagação "por que existe alguma coisa, ao invés do nada?" deixa mudas a ciência e a filosofia. Confirmando e até enriquecendo as inspiradas respostas dos grandes místicos, a moderna pesquisa da consciência permite encaixar novas peças nesse quebra-cabeça cósmico.

Uma nova e revolucionária visão da psique

Stanislav Grof iniciou sua pesquisa da consciência na antiga Checoslováquia, no ano de 1956. Ele trabalhava então no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Praga. E recebeu do Laboratório Sandoz, da Suíça, um kit com uma substância recém-sintetizada: o LSD. O laboratório queria sua opinião sobre o potencial que a droga oferecia para o tratamento dos distúrbios psíquicos. Nas duas décadas seguintes, Grof coordenou mais de 4 mil sessões, nas quais testou a substância em milhares de voluntários. A investigação foi realizada no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica, da Checoslováquia, e, depois, na Johns Hopkins University, no Maryland Psychiatric Research Center e no Esalen Institute, dos Estados Unidos, onde Grof passou a residir a partir de 1967. Sua conclusão foi que a droga não induzia formas específicas de alucinação, como se imaginava. Ela funcionava, isto sim, como catalisadora e amplificadora das atividades da psique. Em outras palavras, tudo aquilo que as pessoas experimentavam durante as sessões eram seus próprios conteúdos psíquicos, muitos dos quais haviam permanecido inconscientes por toda a vida. Quando o LSD passou a sofrer restrições legais, Grof deixou de utilizá-lo e, junto com sua segunda mulher, Christina, desenvolveu uma nova e poderosa técnica de ampliação da consciência, que batizou com o nome de respiração holotrópica. Ela dispensa o emprego de qualquer substância química e consegue alcançar seu objetivo por meio da combinação de três ingredientes: uma forma específica de respiração, a audição de músicas de forte poder evocativo e intervenções corporais localizadas. Sob a coordenação de profissionais credenciados, dezenas de milhares de pessoas já recorreram a esse método de investigação e transformação da psique. No Brasil, ele foi introduzido há mais de 15 anos, pelas mãos da psicóloga Doucy Douek, a principal discípula de Grof no país.
A enorme quantidade e a desconcertante variedade de experiências propiciadas pelas sessões de LSD e respiração holotrópica exigiram de Grof um exaustivo trabalho de sistematização e interpretação. O resultado foi uma revolucionária teoria da psique, que incorpora e supera os modelos de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung e lança uma ponte entre a ciência de vanguarda e a sabedoria milenar das tradições espirituais. A aguda consciência da necessidade desse intercâmbio o levou a fundar a International Transpersonal Association (ITA), ou Associação Transpessoal Internacional, uma entidade engajada na busca de novos paradigmas e no diálogo entre cientistas, artistas e líderes espirituais. À frente da ITA, Grof organizou grandes congressos internacionais, que reuniram personalidades da estatura do físico David Bohm, do psiquiatra R. D. Laing, do cardeal brasileiro Dom Helder Câmara, do Dalai Lama e de Madre Teresa de Calcutá.


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