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| CAPÍTULO IV: O Conhecimento Transcendental Perola 23. O MISTÉRIO DA CIÊNCIA DO GITA (versos 1 a 3) 1. A Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, disse: Ensinei esta imperecível ciência da yoga ao deus do Sol, Vivasvan, e Vivasvan ensinou-a a Manu, o pai da humanidade, e Manu, por sua vez, ensinou-a a Iksvaku. 2. Esta ciência suprema foi então recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na dessa maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão foi interrompida, e portanto a ciência como ela é parece ter-se perdido. 3. Esta antiquíssima ciência da relação com o Supremo é falada hoje a ti por Mim porque és Meu devoto bem como Meu amigo e podes portanto entender o mistério transcendental que há nesta ciência. Aqui fica
claro que o Bhagavad-gita é um tratado espiritual especialmente
destinado ao bhakta, ou devoto do Senhor. Na verdade, segundo o próprio
Senhor, os jñanis, ou especuladores filosóficos, e os yogis,
ou os que se limitam às práticas ióguicas mecânicas,
não podem tirar o verdadeiro proveito do Bhagavad-gita. Portanto,
o Senhor diz claramente que escolhera Arjuna para receber este conhecimento
devido às suas qualidades devocionais. A bhakti-yoga só
pode ser praticada com conhecimento transcendental e este conhecimento
é um grande segredo, pois inclui o conhecimento sobre a natureza
espiritual da Suprema Personalidade de Deus. Além de devoto, Arjuna
era um amigo sincero do Senhor e, devido à sua fidelidade, era
qualificado para penetrar nos mistérios da compreensão acerca
do Senhor Krishna. Pérola 24. A NATUREZA TRANSCENDENTAL DO SENHOR (versos 4 a 6) 4. Arjuna disse: O deus do Sol, Vivasvan, nasceu antes de Ti. Como poderei entender que, no começo, ensinaste-lhe esta ciência? 5. A Personalidade de Deus disse: Tu e Eu já passamos por muitos e muitos nascimentos. Posso lembrar-Me de todos eles, mas tu não podes, ó subjugador do inimigo! 6. Embora Eu seja não nascido e Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todas as entidades vivas, mesmo assim, em cada milênio Eu apareço sob Minha forma transcendental original. Aqui,
revela-se a característica especial do nascimento do Senhor: embora
apareça como um ser humano comum, Ele Se lembra dos pormenores
de Seus outros milhares de nascimentos anteriores. Esta é a diferença
entre o Senhor e um ser vivo comum. O Senhor possui um corpo espiritual
eterno, livre de nascimento, velhice, doença ou morte, e por isso
Ele pode Se lembrar dos atos que Ele executou há milhões
de anos. Um ser vivo comum muda de um corpo para outro e sua memória
é tão limitada que mal pode se lembrar do que fez em algumas
horas atrás. Assim, ninguém pode nunca se igualar ao Senhor.
Pérola 25. O PROPÓSITO DO APARECIMENTO DO SENHOR (versos 7 a 11) 7. Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião – neste momento Eu próprio desço. 8. Para libertar os piedosos e aniquilar os canalhas, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo apareço, milênio após milênio. 9. Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna. 10. Estando livres do apego, do medo e da ira, estando plenamente absortas em Mim e refugiando-se em Mim, muitas e muitas pessoas no passado purificaram-se através do conhecimento a respeito de Mim – e com isso todas alcançaram transcendental amor por Mim. 11. A todos Eu recompenso proporcionalmente ao grau de sua rendição a Mim. Ó filho de Pritha, em qualquer circunstância, todos seguem o Meu caminho. Sob a ordem
do Senhor, os Vedas apresentam diferentes princípios religiosos,
mas quando existem discrepâncias quanto à execução
apropriada das regras contidas nos Vedas, o mundo todo torna-se irreligioso.
Neste momento, o Senhor desce do Seu reino espiritual e aparece como um
avatara, uma encarnação divina. Ele o faz por Sua própria
vontade, devido à misericórdia que sente por Seus devotos
que estão no mundo material. Tais devotos são sempre molestados
por pessoas demoníacas que tentam propagar suas filosofias mundanas
ou distorcer o verdadeiro significado da religião. Na verdade,
para conseguir se libertar do cativeiro material, a entidade viva precisa
vencer sérias dificuldades. Para tal, nada melhor do que aceitar
a ajuda do Senhor na forma do conhecimento védico, do mestre espiritual
e da associação com os devotos. Só assim ela poderá
compreender a natureza transcendental do corpo e das atividades do Senhor
e, como resultado, após findar este corpo, não correr o
risco de voltar a este mundo material. Pérola 26. AS COMPLEXIDADES DA AÇÃO (versos 12 a 24) 12. Neste mundo, os homens desejam sucesso nas atividades fruitivas, e por isso adoram os semideuses. Rapidamente, é claro, os homens obtêm neste mundo os resultados do trabalho fruitivo. 13. Conforme os três modos da natureza material e o trabalho referente a eles, as quatro divisões da sociedade humana são criadas por Mim. E embora Eu seja o criador deste sistema, deves saber que, sendo Eu imutável, continuo como a pessoa que não age. 14. Não há trabalho que Me afete; tampouco Eu aspiro aos frutos da ação. Aquele que entende esta verdade sobre Mim também não se enreda nas reações do trabalho fruitivo. 15. Em tempos antigos, todas as almas liberadas agiram com esta compreensão acerca de Minha natureza transcendental. Portanto, deves executar teu dever, seguindo-lhes os passos. 16. Até mesmo os inteligentes ficam confusos em determinar o que é ação e o que é inação. Agora, passarei a explicar-te o que é ação, e conhecendo isto te libertarás de todo o infortúnio. 17. É dificílimo entender as complexidades da ação. Portanto, deve-se saber apropriadamente o que é ação, o que é ação proibida e o que é inação. 18. Quem vê inação na ação, e ação na inação, é inteligente entre os homens, e está na posição transcendental, embora ocupado em todas as espécies de atividades. 19. Tem conhecimento pleno quem, em cada esforço seu, não apresenta desejo de gozo dos sentidos. Os sábios dizem que tal pessoa é um trabalhador cujas reações do trabalho foram queimadas pelo fogo do conhecimento perfeito. 20. Abandonando todo o apego aos resultados de suas atividades, sempre satisfeito e independente, ele não executa nenhuma ação fruitiva, embora ocupado em todas as espécies de empreendimentos. 21. Tal homem de compreensão age com a mente e a inteligência sob perfeito controle, deixa de ter qualquer sentimento de propriedade por suas posses e age apenas para obter as necessidades mínimas da vida. Trabalhando assim, ele não é afetado por reações pecaminosas. 22. Aquele que se contenta com o ganho que vem automaticamente, que está livre de dualidade e não inveja, que é estável no sucesso e no fracasso, nunca se enreda, embora execute ações. 23. O trabalho do homem que não está apegado aos modos da natureza material e que está situado em pleno conhecimento transcendental imerge por completo na transcendência. 24. Quem se absorve por completo em consciência de Krishna com certeza alcançará o reino espiritual por causa de sua plena contribuição às atividades espirituais, cuja execução é absoluta e nelas tudo o que se oferece é da mesma natureza espiritual. O
processo através do qual a pessoa pode se livrar do cativeiro das
ações é chamado de consciência de Krishna,
onde tudo passa a ser feito para a satisfação do Senhor.
Quem é consciente de Krishna age por amor à Suprema Personalidade
de Deus e vive livre de interesses egoístas. Para se alcançar
esta fase elevada, é necessário seguir a liderança
de pessoas autorizadas que estão na linha de sucessão discipular,
como se explicou no início deste capítulo. Os exemplos deixados
pelos devotos autênticos anteriores são perfeitos e devemos
segui-los, caso contrário, mesmo homens muito inteligentes ficarão
confusos no que se refere às ações reguladoras existentes
na consciência de Krishna. Os princípios religiosos são
estabelecidos diretamente pelo Senhor. Isto significa que ninguém
pode criar sua própria maneira de agir baseado no seu conhecimento
experimental imperfeito. A alma condicionada vive absorta em suas especulações
mentais e não consegue determinar o verdadeiro significado de religião
e auto-realização transcendental. Portanto, bondosamente
o Senhor explica a Arjuna e a todos nós o verdadeiro significado
de ação, inação e ação proibida,
pois qualquer pessoa que estiver decidida a libertar-se deste cativeiro
material terá de compreender muito bem tais tópicos. Pérola 27. OS DIFERENTES TIPOS DE SACRIFÍCIOS (versos 25 a 33) 25. Alguns yogis adoram perfeitamente os semideuses, oferecendo-lhes diferentes sacrifícios, e alguns deles oferecem sacrifícios no fogo do Brahman Supremo. 26. Alguns (os brahmacharis verdadeiros) sacrificam a faculdade auditiva e os sentidos no fogo do controle mental; e outros (os chefes de família regulados) sacrificam os objetos dos sentidos no fogo dos sentidos. 27. Outros, que se interessam em obter a auto-realização através do controle da mente e dos sentidos, oferecem as funções de todos os sentidos e do alento vital como oblações no fogo da mente controlada. 28. Tendo feito votos estritos, alguns se iluminam sacrificando seus bens, e outros, executando austeridades rigorosas, praticando a yoga do misticismo óctuplo (astanga-yoga) ou estudando os Vedas para progredir no conhecimento transcendental. 29. E outros, que estão inclinados ao processo de restrição da respiração para permanecer em transe, praticam oferecendo no alento inspirado o movimento do alento expirado, e no alento expirado o alento inspirado, e assim acabam entrando em transe, suspendendo toda a respiração. Outros, restringindo o processo alimentar, oferecem como sacrifício o alento expirado neste mesmo alento. 30. Todos estes executores que sabem o significado do sacrifício purificam-se das reações pecaminosas, e, tendo saboreado o néctar dos resultados dos sacrifícios, avançam em direção à atmosfera eterna e suprema. 31. Ó melhor da dinastia Kuru, sem sacrifício a pessoa jamais pode viver feliz neste planeta ou nesta vida; que se dizer da próxima, então? 32. Os Vedas aprovam todos estes diferentes tipos de sacrifício, e todos eles surgem de diferentes classes de trabalho. Tu te libertarás ao conhecê-los assim. 33. Ó castigador do inimigo, o sacrifício executado com conhecimento é melhor do que o mero sacrifício dos bens materiais. Afinal de contas, ó filho de Pritha, todos os sacrifícios do trabalho culminam em conhecimento transcendental. Como
aprendemos aqui no Bhagavad-gita, a alma condicionada, absorta na matéria,
pode curar-se por meio da consciência de Krishna. Este processo
também é conhecido como yajña (sacrifícios),
ou seja, atividades destinadas à satisfação do Senhor
Vishnu, ou Krishna. Tais sacrifícios podem ser de diferentes categorias.
Os bhaktas, ou aqueles que estão em consciência de Krishna,
executam sacrifícios para a satisfação do Senhor
e são considerados os mais perfeitos yogis. Os karmis, no entanto,
desejam felicidade material advinda do gozo dos sentidos. Desse modo,
eles executam sacrifícios para a satisfação dos semideuses,
tais como Indra, Surya, etc. Tais semideuses são seres poderosos,
pois são designados pelo Senhor para administrar os diferentes
departamentos da criação material, tais como irrigação,
aquecimento, iluminação, etc., do Universo. Há também
aqueles que, sendo impersonalistas, sacrificam sua identidade material
e espiritual para fundir-se na existência do Absoluto. De qualquer
modo, qualquer pessoa interessada em obter auto-realização
material ou espiritual deve adotar os vários sacrifícios
conforme os rituais prescritos nos Vedas. A essência da vida dos
estudantes transcendentalistas (brahmacharis) é a austeridade,
por isso eles devem dedicar-se a ouvir o conhecimento védico da
boca de lótus de um mestre espiritual puro e, assim, abster-se
completamente do gozo dos sentidos. Os chefes de família (grihasthas)
podem se purificar através do sacrifício sob a forma da
caridade. Eles possuem alguma licença para o gozo dos sentidos,
mas, ainda assim, executam-no com bastante restrição. Portanto,
o casamento religioso é um sacrifício que visa a restringir
a vida sexual das pessoas. Uma pessoa na ordem de vida renunciada (sannyasi)
deve executar sacrifícios que beneficiem todas as outras classes
de pessoas, por isso seu principal dever prescrito é a propagação
da consciência de Krishna. Todas estas práticas chamam-se
yoga-yajña, e são diferentes sacrifícios para se
obter diferentes perfeições espirituais. Além disso,
há sacrifícios de diferentes naturezas. Há pessoas
que sacrificam seus bens materiais e abrem várias espécies
de instituições de caridade, asilos, hospitais, etc. Outras
pessoas preferem executar grandes austeridades e fazem votos estritos,
vivendo livre de qualquer espécie de conforto material. Há
outros que, com o propósito de controlar seus sentidos e progredir
em compreensão espiritual, praticam a yoga apresentada por Patañjali,
dedicando-se a diferentes técnicas ióguicas. Todas estas
diferentes classes de pessoas estão fielmente ocupadas em suas
diferentes classes de sacrifícios e procuram uma situação
de vida superior. Dependendo do grau de consciência, os sacrifícios
ora fazem parte da seção karma-kanda (atividades fruitivas),
ora jñana-kanda (conhecimento em busca da verdade). Pérola 28. A FORÇA DO CONHECIMENTO TRANSCENDENTAL (versos 34 a 42) 34. Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas auto-realizadas te podem transmitir conhecimento porque viram a verdade. 35. Tendo recebido verdadeiro conhecimento de uma alma auto-realizada, jamais voltarás a cair nessa ilusão, pois, com este conhecimento, verás que todos os seres vivos são apenas partes do Supremo, ou, em outras palavras, que eles são Meus. 36. Mesmo que sejas considerado o mais pecaminoso de todos os pecadores, quando estiveres situado no barco do conhecimento transcendental serás capaz de cruzar o oceano de misérias. 37. Assim como o fogo ardente transforma a lenha em cinzas, ó Arjuna, do mesmo modo, o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as reações às atividades materiais. 38. Neste mundo, não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. Esse conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo. E aquele que se familiarizou com a prática do serviço devocional desfruta este conhecimento dentro de si no devido curso do tempo. 39. Um homem fiel que se dedica ao conhecimento transcendental e que subjuga seus sentidos está qualificado para conseguir este conhecimento, e, tendo-o alcançado, obtém rapidamente a paz espiritual suprema. 40. Mas as pessoas ignorantes e sem fé, que duvidam das escrituras reveladas, não alcançam a consciência de Deus; elas acabam caindo. Para a alma incrédula não há felicidade nem neste mundo nem no próximo. 41. Aquele que age em serviço devocional, renunciando aos frutos de suas ações, e cujas dúvidas foram destruídas pelo conhecimento transcendental, está de fato situado no eu. Assim, ele não está atado às reações do trabalho, ó conquistador de riquezas. 42. Portanto, as dúvidas que, por ignorância, surgiram em teu coração devem ser cortadas com a arma do conhecimento. Armado com a yoga, ó Bharata, levanta-te e luta. É
necessário aproximar-se de um mestre espiritual genuíno
para se obter o conhecimento transcendental. Um mestre genuíno
tem de, antes de mais nada, fazer parte da linha de sucessão discipular
proveniente do próprio Senhor, pois ninguém pode alcançar
a auto-realização espiritual fabricando seu próprio
processo. Tal mestre espiritual mantém intacta a mensagem original
do Senhor e a transmite sem interpretações materialmente
motivadas. Ele aprendeu este conhecimento, rendendo-se ao seu mestre espiritual,
e, assim, passou a entender as coisas como elas são. O mestre espiritual
deve ter uma compreensão prática de que todos os seres vivos
são partes integrantes da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor
Krishna. Portanto, seus ensinamentos se destinam a convencer o discípulo
que o ser vivo, como servo eterno de Krishna, não pode estar separado
do Senhor, e quando uma pessoa sente que sua identidade é separada
do Senhor, deve-se saber que ela está sob os encantos de maya,
a energia ilusória. Por isso, o mestre espiritual ensina o discípulo
a prestar serviço devocional puro, livrando-o gradualmente da busca
pelos resultados fruitivos e da especulação mental. Quem
presta serviço devocional ao Senhor, sob a guia de um verdadeiro
mestre espiritual, imediatamente livra-se da ilusão que faz com
que um ser vivo equivocado manifeste interesses diferentes dos interesses
do Senhor. Portanto, como exemplificado por Arjuna no início do
segundo capítulo, ninguém é capaz de resolver seus
problemas e desenvolver conhecimento perfeito sem a ajuda do mestre espiritual.
Desse modo, o discípulo aprende a se relacionar com seu mestre
espiritual através do serviço amoroso humilde, sem falso
prestígio. |