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| CAPÍTULO II: Resumo do Conteúdo do Gita Pérola 6. ARJUNA É REPREENDIDO POR KRISHNA (versos 1 a 3) 1. Sañjaya disse: Vendo Arjuna cheio de compaixão, sua mente deprimida, seus olhos rasos d’água, Madhusudana, Krishna, disse as seguintes palavras: 2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, como foi que estas impurezas desenvolveram-se em ti? Elas não condizem com um homem que conhece o valor da vida. Elas não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia. 3. Ó filho de Pritha, não cedas a esta impotência degradante. Isto não te fica bem. Abandona esta mesquinha fraqueza de coração e levanta-te, ó castigador dos inimigos. Tal reação
enérgica do Senhor em relação à condição
aflitiva de Arjuna serve como grande exemplo para todos nós. Embora
tivesse recebido treinamento espiritual, Arjuna deixou-se entregar a sentimentos
mundanos. Portanto, o Senhor Krishna mostrou Sua surpresa ao indagar:
“Como estas impurezas se desenvolveram em ti, um ariano, uma pessoa
que conhece o verdadeiro propósito da vida?” Pérola 7. ARJUNA ACEITA KRISHNA COMO MESTRE ESPIRITUAL (versos 4 a 9) 4. Arjuna disse: Ó matador dos inimigos, ó matador de Madhu, como é que na batalha posso contra-atacar com flechas homens como Bhisma e Drona, que são dignos de minha adoração? 5. É preferível viver mendigando neste mundo que viver à custa das vidas de grandes almas que são meus mestres. Embora desejem conquistas terrenas, eles são superiores. Se forem mortos, tudo o que desfrutarmos estará manchado de sangue. 6. Tampouco sabemos o que é melhor – vencê-los ou ser vencidos por eles. Se matássemos os filhos de Dhritarastra, não nos importaríamos de viver. Contudo, eles agora estão diante de nós no campo de batalha. 7. Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a compostura devido à torpe fraqueza. Nesta condição, estou Te pedindo que me digas com certeza o que é melhor para mim. Agora sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me. 8. Não consigo descobrir um meio de afastar este pesar que está secando meus sentidos. Não serei capaz de suprimi-lo nem mesmo que ganhe na Terra um reino próspero e inigualável com soberania como a dos semideuses nos céus. 9. Sañjaya disse: Tendo falado essas palavras, Arjuna, o castigador dos inimigos, disse a Krishna, Govinda, não lutarei, e ficou calado. Apesar de
ter apresentado anteriormente tantos argumentos baseados no conhecimento
dos princípios religiosos e morais, podemos analisar que Arjuna
foi incapaz de resolver seus problemas sozinho. Esta verdade não
é aplicável simplesmente a Arjuna, mas se aplica a todos
que se encontram neste mundo. Independente do grau elevado de conhecimento
material que a pessoa tenha atingido, continuará sendo impossível
superar as perplexidades da vida sem a ajuda de um mestre espiritual.
Assim como Arjuna, qualquer pessoa desprovida de conhecimento transcendental
comprovará, mais cedo ou mais tarde, que seus esforços pessoais
em tentar resolver seus problemas serão insuficientes. Ela terá
de se submeter ao cultivo do conhecimento transcendental sob a guia de
um mestre espiritual auto-realizado. As perplexidades e situações
problemáticas fazem parte da natureza deste mundo e surgem a todos,
mesmo que ninguém as procure. 10. Ó descendente de Bharata, naquele momento, Krishna, no meio dos dois exércitos, sorriu e disse as seguintes palavras ao desconsolado Arjuna. 11. A Suprema Personalidade de Deus disse: Enquanto falas palavras sábias, estás lamentando aquilo com que não precisas te afligir. Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos. 12. Nunca houve um tempo que Eu não existisse, nem tu, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir. 13. Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com essa mudança. 14. Ó Filho de Kunti, o aparecimento transitório de felicidade e aflição, e seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e é preciso aprender a tolerá-los sem perturbar-se. 15. Ó melhor entre os homens (Arjuna), quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e que permanece estável em ambas as circunstâncias decerto está qualificado para alcançar a liberação. O Senhor Krishna, o mestre espiritual supremo, foi direto ao assunto: “Meu querido Arjuna, se Me queres como teu mestre espiritual, então dar-te-ei Minha primeira instrução: torna-te um verdadeiro sábio e não te lamentes desnecessariamente!” Isto é extremamente significativo. Lamentação e vida espiritual definitivamente não combinam. De um modo geral, a lamentação é um sinal evidente da ignorância acerca do verdadeiro eu. Pelo controle supremo, as diferentes almas são lançadas em diferentes corpos, onde terão de existir por um período específico de tempo. Pelo controle supremo, tais almas terão de abandonar no momento certo seus respectivos corpos e obterão, de uma maneira impecavelmente justa, os resultados de suas atividades. Qual é, então, a necessidade de lamentação? Como ficará cada vez mais claro durante o estudo desta obra, a alma é eterna e sempre existente. A morte é um simples conceito material, relativo apenas ao corpo físico, uma mera cobertura temporária da alma. Por isto, Arjuna não deveria dar tamanha importância à condição do corpo material. Isto estava acarretando um esquecimento acerca do verdadeiro eu, a alma espiritual, resultando em desnecessária lamentação. Nos dias de hoje, a civilização humana carece deste conhecimento espiritual e, como Arjuna, foi mordida pela serpente da lamentação, cujo veneno se expande em todos os setores da sociedade. Na verdade, a condição corpórea é lamentável por ser completamente incompatível com a natureza eterna da alma. Logo que nasce, o corpo terá de gradualmente atingir as fases de doença, velhice e morte. Em conclusão, a identificação corpórea é uma fonte de lamentação que tem como consequência a intolerância e a instabilidade emocional. No entanto, ao compreender sua natureza eterna e ao utilizar o corpo material exclusivamente como um instrumento para a auto-realização espiritual, a pessoa livra-se das dualidades concernentes à vida material, aprende a tolerar as adversidades deste mundo e não se perturba diante dos reveses da vida. Certamente, tal pessoa pode alcançar completa liberação mesmo estando em contato com o corpo material, posto que suas atividades corpóreas não mais a afetarão. Isto significa que, mesmo que o seu corpo aja movido pela reação às suas atividades passadas, a Suprema Personalidade de Deus passa a cuidar pessoalmente de tal alma liberada. Por exemplo, mesmo depois de desligado, o ventilador elétrico continua girando por algum tempo. No entanto, este giro não se deve à corrente elétrica, mas à continuação do último movimento. Em outras palavras, embora uma alma liberada pareça estar agindo tal qual uma pessoa comum, suas ações não passam de continuação das atividades passadas. Pérola 9. A NATUREZA SUPERIOR DA ALMA (versos 16 a 25) 16. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que o não-existente (o corpo material) não permanece e o eterno (a alma) não muda. Isto eles concluíram estudando a natureza de ambos. 17. Deves saber que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. 18. O corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável e eterna decerto chegará ao fim; portanto, luta, ó descendente de Bharata. 19. Nem aquele que pensa que a entidade viva é o matador nem aquele que pensa que ela é morta estão em conhecimento, pois o eu não mata nem é morto. 20. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre-existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre. 21. Ó Partha, como pode uma pessoa que sabe que a alma é indestrutível, eterna, não-nascida e imutável matar alguém ou fazer com que outrem mate? 22. Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. 23. A alma nunca pode ser despedaçada por arma alguma, tampouco pode ser queimada pelo fogo, umedecida pela água ou enxugada pelo vento. 24. Essa alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma. 25. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível e imutável. Sabendo disto, não te deves afligir por causa do corpo. Nestes versos,
encontramos explicações claras da verdadeira natureza da
alma como algo diferente do corpo. O corpo material, por exemplo, vive
em constante transformação através das ações
e reações das diferentes células, produzindo o crescimento
e a velhice. A alma, no entanto, sendo uma centelha espiritual minúscula,
permanece imutável, sem se submeter às mudanças que
ocorrem no corpo. Portanto, este corpo material é simplesmente
a corporificação da alma, a qual se espalha por todo o corpo
e pode ser percebida como consciência individual. Por natureza,
o corpo material é perecível, mas a alma é eterna.
Ela é descrita nos Vedas como sendo do tamanho de uma décima
milésima parte da porção superior da ponta de um
fio de cabelo. Em outras palavras, ela é tão pequena que
nem sequer pode-se medir sua dimensão. Ainda assim, apesar de diminuta,
ela é autoluminosa, sendo parte da luz suprema. É esta partícula
de luz espiritual que mantém o corpo, pois quando ela parte, imediatamente
começa a decomposição do corpo. O que se chama de
morte, portanto, nada mais é do que o fenômeno que ocorre
quando a alma abandona o corpo que não apresenta mais condições
apropriadas para sua permanência. O corpo está frequentemente
sujeito a seis diferentes transformações: ele nasce do ventre
do corpo da mãe, permanece por algum tempo, cresce, produz subprodutos,
definha gradualmente e cai no esquecimento. A alma, porém, não
passa por tais mudanças. Ela não nasce, mas, por ser lançada
no ventre materno, acaba aceitando a cobertura de um determinado corpo
e faz com que, sob sua influência, o corpo nasça e se desenvolva.
Por observação, podemos comprovar que tudo o que nasce também
morre. No entanto, por que não tem nascimento, a alma não
tem passado, presente ou futuro – ela é sempre-existente
e primordial. A alma nunca é afetada pelas mudanças do corpo
e tampouco ela produz algum subproduto. O que chamamos de filhos são
simplesmente os subprodutos do corpo, os quais possuem diferentes almas
individuais. O corpo só se desenvolve por causa da presença
da alma, mas ela permanece livre de qualquer alteração.
Estando localizada no coração da entidade viva, a alma simplesmente
atua como fonte de energia para que o corpo possa executar suas funções.
Às vezes, devido às nuvens no céu, não podemos
ver o Sol no céu, mas quando existe claridade podemos ter a completa
convicção de que é dia e que o Sol ainda está
presente. Da mesma forma, mesmo que não se consiga encontrar a
alma dentro do coração, ainda assim, se um corpo apresenta
consciência isto indica a presença da alma dentro deste corpo.
Do mesmo modo, quando o corpo perde completamente sua consciência,
isso é uma evidência concreta que a alma foi transferida
para outro corpo. Esta transferência torna-se possível unicamente
pela presença transcendental da manifestação do Senhor
conhecida como Superalma, a qual também reside dentro de todos
os corpos. Segundo este exemplo, os Vedas comparam este corpo a uma árvore
onde estão pousados dois pássaros: a alma individual e a
Superalma. Um pássaro, a alma individual, executa todo tipo de
atividades mundanas e, na tentativa de desfrutar dos frutos desta árvore,
vive mergulhado em constante ansiedade e melancolia. A Superalma, por
Sua vez, mantém-Se à parte e, como um pássaro amigo,
simplesmente testemunha e aguarda o momento em que a alma individual irá
se voltar para Ele. Neste momento, o pássaro aflito, concordando
em aceitar Suas instruções divinas, se livrará de
toda ansiedade. Mas, enquanto isto não acontecer, a alma terá
de se contentar em trocar de corpo material, assim como uma pessoa tem
de substituir suas roupas inúteis e velhas por vestes mais novas.
Pérola 10. NÃO HÁ RAZÃO PARA SE LAMENTAR (versos 26 a 30) 26. Se, no entanto, pensas que a alma sempre nasce e morre para sempre, mesmo assim, não tens razão para lamentar, ó pessoa de braços poderosos. 27. Alguém que nasceu com certeza morrerá, e após a morte ele voltará a nascer. Portanto, no inevitável cumprimento do dever, não deves te lamentar. 28. Todos os seres criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados. Então, qual a necessidade de lamentação? 29. Alguns consideram a alma espantosa, outros descrevem-na como espantosa, e alguns ouvem dizer que ela é espantosa, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la. 30. Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser morto. Portanto, não precisas afligir-te por nenhum ser vivo. Estes versos são especialmente destinados às pessoas que acreditam que este corpo não passa de uma mera combinação de elementos químicos e que a vida se desenvolve através da simples interação desses elementos químicos. Para tais pessoas, que não acreditam na existência da alma, ainda assim não existe motivo para lamentação, pois ninguém deve se lamentar pela simples perda de meras substâncias químicas. Além disso, a batalha tornara-se inevitável e, como ficará cada vez mais claro, em certas circunstâncias a violência e a guerra são fatores essenciais para se manter uma situação pacífica na sociedade humana. Na verdade, esta Batalha de Kurukshetra era um desejo do próprio Senhor e, como um kshatriya, Arjuna deveria lutar por esta causa suprema sem cair em lamentação. As atividades que a pessoa executa numa vida irão determinar seu próximo nascimento, pois, dessa maneira, todos passam por consecutivos ciclos de nascimentos e mortes. Isso significa que, mesmo que evitasse a guerra contra seus parentes, Arjuna não seria capaz de deter a morte deles. Tal lamentação era infundada e levaria Arjuna à degradação por escolher a maneira errada de agir. O Bhagavad-gita revela-nos o conhecimento essencial para a auto-realização espiritual, dando-nos como base a não-existência do corpo material. No entanto, é muito difícil encontrar alguém que esteja verdadeiramente inclinado a entender esta ciência da alma diretamente da boca de lótus do Senhor. Deixando-se levar por diferentes teorias desautorizadas, as pessoas podem facilmente se desorientar e concluir erroneamente que a alma individual e a Alma Suprema são unas em todos os aspectos. De qualquer maneira, aceitando ou não a existência da alma ou mesmo acreditando na unidade entre a alma atômica e a Superalma, a lamentação pela perda do corpo material não faz o menor sentido. Pérola 11. OS DEVERES DE UM GUERREIRO (versos 31 a 38) 31. Considerando teu dever específico de kshatriya, deves saber que não há melhor ocupação para ti do que lutar conforme determinam os princípios religiosos; e assim não há necessidade de hesitação. 32. Ó Partha, felizes são os kshatriyas a quem aparece essa oportunidade de lutar, abrindo-lhes as portas dos planetas celestiais. 33. Se, contudo, não executares teu dever religioso e não lutares, então na certa incorrerás em pecados por negligenciar teus deveres e assim perderás tua reputação de lutador. 34. As pessoas sempre falarão de tua infâmia, e para alguém respeitável, a desonra é pior do que a morte. 35. Os grandes generais que têm na mais alta estima o teu nome e fama pensarão que deixaste o campo de batalha simplesmente porque estavas com medo, e portanto te considerarão insignificante. 36. Teus inimigos te descreverão com muitas palavras indelicadas e desdenharão tua habilidade. Que poderia ser mais doloroso para ti? 37. Ó filho de Kunti, ou serás morto no campo de batalha e alcançarás os planetas celestiais, ou conquistarás e gozarás o reino terrestre. Portanto, levanta-te com determinação e luta. 38. Luta pelo simples fato de lutar, sem levar em consideração felicidade ou aflição, perda ou ganho, vitória ou derrota – e adotando este procedimento nunca incorrerás em pecado. Ao matar
indivíduos que estão atuando como inimigos dos princípios
religiosos, o kshatriya não está absolutamente incorrendo
em violência. Na verdade, a atitude enérgica por parte do
kshatriya contra os agressores dos princípios religiosos não
deve ser interpretada como violência, assim como não existe
a menor violência quando se usa um espinho para ajudar a arrancar
o outro espinho que esteja fincado em alguma parte do corpo. Desse modo,
o argumento de Arjuna de que esta luta iria proporcionar a ele uma residência
permanente no inferno não fazia o menor sentido, pois, a palavra
composta kshatriya (kshat - lesado, trayate - dar proteção)
é dada às pessoas que se propõem a proteger os cidadãos.
Arjuna havia sido treinado como um verdadeiro kshatriya e teve de se submeter
a severos treinamentos como entrar na floresta e desafiar animais selvagens
munido unicamente de uma espada. Este treinamento se faz necessário
porque às vezes a violência pode ser útil para dar
proteção à vida religiosa. Por isso, o Senhor Krishna
diz para Arjuna que esta luta abriria as portas dos planetas celestiais
superiores. Se ele vencesse, desfrutaria do reino terrestre em nome da
religião e, se fosse derrotado, elevar-se-ia aos planetas celestiais.
Pérola 12. A YOGA DA INTELIGÊNCIA (versos 39 a 41) 39. Até aqui, descrevi-te este conhecimento através do estudo analítico. Agora ouve enquanto Eu o explico em termos do trabalho sem resultados fruitivos. Ó filho de Pritha, quando ages com esse conhecimento, podes libertar-te do cativeiro decorrente das ações. 40. Neste esforço, não há perda nem diminuição, e um pequeno progresso neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo. 41. Aqueles que estão neste caminho são resolutos, e têm apenas um objetivo. Ó amado filho dos Kurus, a inteligência daqueles que são irresolutos tem muitas ramificações. Até
então, o Senhor Krishna havia explicado o sistema de sankhya-yoga,
ou seja, a diferença analítica entre o corpo material e
a alma espiritual. Isto, no entanto, não consistia em instruções
práticas de como agir na plataforma espiritual. Para praticar tal
sistema de yoga, Arjuna teria de compreender a individualidade das diferentes
almas que estavam naquele campo de batalha e teria de vê-las como
indivíduos eternos, os quais estavam sujeitos às várias
mudanças das roupas corpóreas. Porém, o simples fato
de compreender a diferença entre corpo e alma não seria
suficiente para resolver os problemas de Arjuna. Ele teria de aprender
a agir neste mundo sem se afetar pelas reações materiais.
Por isso, o Senhor passará agora a descrever buddhi-yoga, a qualidade
superior de trabalho quando, com inteligência purificada, passa-se
a atuar em liberdade sem se envolver com as reações do trabalho. Pérola 13. AS PALAVRAS FLORIDAS DOS VEDAS (versos 42 a 46) 42-43. Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos de gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto é tudo o que existe. 44. Nas mentes daqueles que estão muito apegados ao gozo dos sentidos e à opulência material, e que se deixam confundir por estas coisas, não ocorre a determinação resoluta de prestar serviço devocional ao Senhor Supremo. 45. Os Vedas tratam principalmente do tema três modos da natureza material. Ó Arjuna, torna-te transcendental a esses três modos. Liberta-te de todas as dualidades e de todos os anseios advindos da busca de ganho e segurança e estabelece-te no eu. 46. Todos os propósitos satisfeitos por um poço pequeno podem imediatamente ser satisfeitos por um grande reservatório de água. De modo semelhante, pode servir-se de todos os propósitos dos Vedas quem conhece o seu propósito subjacente. As pessoas em geral têm grande dificuldade em compreender e adotar diretamente as atividades espirituais da consciência de Krishna. Devido à sua forte determinação em satisfazer os sentidos, tais pessoas materialmente motivadas preferem adotar atividades religiosas mundanas, onde as propostas de gozo dos sentidos e opulência material são enfatizadas. Mal sabem elas que qualquer atividade material, quer seja religiosa ou não, irá envolvê-las em reações nos três modos da natureza, e causará cativeiro permanente neste mundo. Para tais pessoas menos inteligentes, os Vedas oferecem as seções karma-kanda para, aos poucos, elevá-las do campo grosseiro do gozo do sentidos a uma posição no plano transcendental. Arjuna, no entanto, como aluno e amigo direto do Senhor, deveria transcender a todas as propostas de prazeres materiais temporários e se situar além das dualidades pertinentes à vida material. Portanto, atinge a prática de buddhi-yoga quem é bastante inteligente para compreender o verdadeiro propósito dos Vedas sem se apegar meramente aos rituais e sem visar simplesmente a uma melhor qualidade de gozo dos sentidos. Pérola 14. LIBERTANDO-SE DAS ATIVIDADES FRUITIVAS (versos 47 a 53) 47. Tens o direito de executar teu dever prescrito, mas não podes exigir os frutos da ação. Jamais te consideres a causa dos resultados de tuas atividades, e jamais te apegues ao não-cumprimento do teu dever. 48. Desempenha teu dever com equilíbrio, ó Arjuna, abandonando todo o apego a sucesso ou fracasso. Essa equanimidade chama-se yoga. 49. Ó Dhanañjaya, através do serviço devocional, mantém todas as atividades abomináveis bem distantes, e com esta consciência, rende-te ao Senhor. Aqueles que querem gozar o fruto de seu trabalho são mesquinhos. 50. Um homem ocupado em serviço devocional livra-se tanto das boas quanto das más ações, mesmo nesta vida. Portanto, empenha-te na yoga, que é a arte de todo o trabalho. 51. Ocupando-se nesse serviço devocional ao Senhor, grandes sábios ou devotos livram-se dos resultados do trabalho no mundo material. Desse modo, eles transcendem ao ciclo de nascimentos e mortes e passam a viver além de todas as misérias. 52. Quando tua inteligência tiver cruzado a densa floresta da ilusão, tornar-te-ás indiferente a tudo o que se ouviu e a tudo o que se há de ouvir. 53. Quando tua mente deixar de perturbar-se pela linguagem florida dos Vedas, e quando se fixar no transe da auto-realização, então terás atingido a consciência divina. O Bhagavad-gita
nos ensina que todos são forçados pela natureza material
a agir de acordo com suas próprias tendências. Desse modo,
todos devem aceitar um treinamento para aprender a fazer um bom uso de
sua natureza específica. Tal natureza é como uma bagagem
trazida de outras vidas, da qual não podemos nos livrar facilmente.
Ela é o resultado das atividades piedosas e pecaminosas acumuladas
em muitas vidas prévias. Portanto, dentro de uma sociedade centralizada
em Deus, todos são treinados a adotar deveres prescritos naturais
e, assim, utilizar sua natureza para propósitos espirituais. Pérolas 15. SINTOMAS DE UM TRANSCENDENTALISTA (versos 54 a 59) 54. Arjuna disse: Ó Krishna, quais são os sintomas daquele cuja consciência está absorta nessa transcendência? Como fala, e qual é sua linguagem? Como se senta e como caminha? 55. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó Partha, quando alguém desiste de todas as variedades de desejo de gozo dos sentidos, que surgem da invenção mental, e quando sua mente, assim purificada, encontra satisfação apenas no eu, então se diz que ele está em consciência transcendental pura. 56. Quem não deixa a mente se perturbar mesmo em meio às três classes de misérias, nem exulta quando há felicidade, e que está livre do apego, medo e ira, é chamado um sábio de mente estável. 57. No mundo material, quem não se deixa afetar pelo bem ou mal a que está sujeito a obter, sem louvá-los nem desprezá-los, está firmemente fixo em conhecimento perfeito. 58. Aquele que é capaz de retirar seus sentidos dos objetos dos sentidos, assim como a tartaruga recolhe seus membros para dentro da carapaça, está firmemente fixo em consciência perfeita. 59. A alma corporificada pode restringir-se do gozo dos sentidos, embora permaneça o gosto pelos objetos dos sentidos. Porém, interrompendo tais ocupações ao experimentar um gosto superior, ela se fixa em consciência. Atinge a
plataforma transcendental a pessoa que, além de ser capaz de distinguir
entre os desejos materiais e espirituais, adquire força suficiente
para não se deixar arrastar pelos impulsos dos sentidos materiais.
Para isso, ela necessita ocupar-se em serviço devocional sem hesitação
– isso irá mantê-la sempre feliz em sua posição
natural eterna. Nesta sublime posição, tal pessoa nunca
se perturba pelas dualidades materiais. Quando as dificuldades surgem,
ela as aceita de bom grado. Ela admite que, devido aos seus maus feitos
passados, seria merecedora de mais dificuldades. Ao mesmo tempo, quando
está feliz, continua vendo tudo como misericórdia do Senhor,
pois ela sempre se considera um servo que depende exclusivamente da Sua
graça. Pérola 16. O CONTROLE DOS SENTIDOS (versos 60 a 72) 60. Os sentidos são tão fortes e impetuosos, ó Arjuna, que arrebatam à força mesmo a mente de um homem de discriminação que se esforça por controlá-los. 61. Aquele que restringe os sentidos, mantendo-os sob completo controle, e fixa sua consciência em Mim, é conhecido como homem de inteligência estável. 62. Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego a eles, e de tal apego se desenvolve a luxúria, e da luxúria surge a ira. 63. Da ira, surge completa ilusão, e da ilusão, a confusão da memória. Quando a memória está confusa, perde-se a inteligência, e ao perder a inteligência, cai-se de novo no poço material. 64. Mas quem está livre de todo o apego e aversão e é capaz de controlar seus sentidos através dos princípios reguladores com os quais se obtém a liberdade, pode receber a completa misericórdia do Senhor. 65. Para alguém que sente essa alegria, as três classes de misérias da existência material deixam de existir; nessa consciência jubilosa, a inteligência logo torna-se resoluta. 66. Quem não está vinculado ao Supremo não pode ter inteligência transcendental nem mente estável, sem as quais não há possibilidade de paz. E como pode haver alguma felicidade sem paz? 67. Assim como um vento forte arrasta um barco na água, mesmo um só dos sentidos errantes em que a mente se detenha pode arrebatar a inteligência de um homem. 68. Portanto, ó pessoa de braços poderosos, o indivíduo cujos sentidos são restringidos de seus objetos com certeza tem a inteligência estável. 69. Aquilo que é noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado; e a hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo. 70. Só quem não se perturba com o incessante fluxo de desejos – que são como rios que entram no oceano, que está sempre sendo enchido mas nunca se agita – pode alcançar a paz, e não o homem que luta para satisfazer esses desejos. 71. Aquele que abandonou todos os desejos de gozo dos sentidos, que vive livre de desejos, que abandonou todo o sentimento de propriedade e não tem ego falso – só ele pode conseguir a paz verdadeira. 72. Este é o caminho da vida espiritual e piedosa, e o homem que a alcança não se confunde. Se, mesmo somente à hora da morte, ele atinge essa posição, pode entrar no reino de Deus. Tanto nas
escrituras védicas, quanto em outras escrituras do mundo, existem
muitas histórias narrando a vida de grandes personalidades, yogis,
sábios ou diferentes classes de espiritualistas, que fracassaram
no intento de controlar seus sentidos. E agora, o motivo deste fracasso
é explicado aqui pelo Senhor Krishna. Os sentidos são fortes
e impetuosos e eles têm o poder de arrastar a mente de qualquer
um – especialmente no que diz respeito ao impulso sexual. Deve-se
entender, portanto, que sem uma ocupação constante nas atividades
da consciência de Krishna é absolutamente impossível
controlar os sentidos. Isto porque os sentidos exigem ocupações
práticas, e se não estiverem ocupados em serviço
devocional ao Senhor, certamente se ocuparão em atividades para
desfrute material.
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