Pérolas
93. O PROPÓSITO DA RENÚNCIA (versos 1 a 6)
1.
Arjuna disse: Ó pessoa de braços poderosos, desejo compreender
o propósito da renúncia e da ordem de vida renunciada (sannyasa),
ó matador do demônio Keshi, Senhor dos sentidos. 2. A Suprema
Personalidade de Deus disse: A renúncia a atividades que se baseiam
no desejo material é o que os grandes eruditos chamam de ordem
de vida renunciada (sannyasa). E abdicar os resultados de todas as atividades
é o que os sábios chamam de renúncia (tyaga). 3.
Alguns homens instruídos declaram que todas as espécies
de atividades fruitivas devem ser abandonadas porque são defeituosas,
mas outros sábios argumentam que os atos de sacrifício,
caridade e penitência jamais devem ser abandonados. 4. Ó
melhor dos Bharatas, agora ouça o que tenho a dizer sobre a renúncia.
Ó tigre entre os homens, as escrituras afirmam que há três
categorias de renúncia. 5. Os atos de sacrifício, caridade
e penitência não devem ser abandonados, ma sim executados.
Na verdade, sacrifício, caridade e penitência purificam até
as grandes almas. 6. Todas essas atividades devem ser executadas sem apego
nem expectativa alguma de resultado. Elas devem ser executadas por uma
simples questão de dever, ó filho de Pritha. Esta é
Minha opinião final.
Em todos
os capítulos do Bhagavad-gita, o Senhor dá importância
especial ao processo de serviço devocional e agora, neste capítulo,
encontramos o resumo de toda esta ciência devocional. Desse modo,
como não podia deixar de ser, as instruções finais
do Bhagavad-gita concentram-se em torno do tema da verdadeira renúncia.
Em outras palavras, com exceção das atividades da consciência
de Krishna, deve-se abandonar todo e qualquer interesse por resultados
mundanos. Por isto, se menciona aqui que tanto os sacrifícios,
quanto as caridades e penitências que purificam o coração
nunca devem ser abandonados, pois eles produzem avanço espiritual
devendo ser praticados em todas as fases da vida. É importante
entender que, embora as opiniões sobre o tema da renúncia
se diferem bastante, aqui a própria Suprema Personalidade de Deus
dá Seu parecer, o qual deve ser considerado por nós como
definitivo. A conclusão é que deve-se estimular qualquer
caridade, austeridade ou penitência que possa conduzir uma pessoa
direta ou indiretamente à consciência de Krishna e este é
o critério mais elevado e mais objetivo de ocupação
religiosa.
Pérolas
94. COMO PRATICAR A RENÚNCIA (versos 7 a 13)
7.
Nunca se deve renunciar aos deveres prescritos. Se, por causa da ilusão,
alguém renuncia a seus deveres prescritos, diz-se que semelhante
renúncia está no modo da ignorância. 8. Todos que
abandonaram seus deveres prescritos por serem problemáticos ou
por medo de desconforto físico renunciaram sob a influência
do modo da paixão. Tal ato jamais conduz à elevação
decorrente da renúncia. 9. Ó Arjuna, quando alguém
executa seu dever prescrito só porque deve ser feito, e renuncia
a toda a associação material e a todo o apego ao fruto,
diz-se que sua renúncia está no modo da bondade. 10. O renunciante
inteligente, situado no modo da bondade, que não detesta o trabalho
inauspicioso nem se apega ao trabalho auspicioso, não tem nenhuma
dúvida sobre o trabalho. 11. De fato, é impossível
para um ser corporificado renunciar a todas as atividades. Mas quem renuncia
aos frutos da ação é que renunciou de verdade. 12.
Para quem não é renunciado, as três espécies
de frutos da ação – desejáveis, indesejáveis
e mistos – germinam após a morte. Mas aqueles que estão
na ordem de vida renunciada não experimentam este resultado sob
a forma de sofrimento e prazer.
Renunciar
no modo da ignorância significa renunciar os deveres prescritos.
Por exemplo, os pais de uma criança têm o dever de protegê-la
e educá-la material e espiritualmente, mas caso esteja no modo
da ignorância, os pais se tornam irresponsáveis e deixam
de cumprir este importante compromisso. Tal renúncia está
no modo da escuridão.
A pessoa sob a influência da paixão é muito instável.
As vezes, quando a situação lhe é conveniente, a
pessoa apaixonada dedica-se entusiasticamente ao cumprimento de seus deveres.
Mas, quando a situação se torna difícil, problemática
ou desconfortável, ela tem a tendência de abandoná-los.
Isto é um exemplo típico de renúncia influenciada
pela paixão. Mas, o Bhagavad-gita nos ensina o tempo que devemos
agir com conhecimento perfeito, executando nossos diferentes deveres o
melhor possível e, ao mesmo tempo, nos mantendo desapegados do
resultado final. Essa é a característica do modo da bondade.
Tal pessoa mantém-se estável o tempo todo, independente
das diferentes situações externas que possam surgir. Se
a situação se torna desfavorável, por exemplo, ela
não age de má vontade ou fica se lamentando ou resmungando.
E quando as condições favoráveis se apresentam, ela
tampouco se sente excessivamente jubilosa. Sua inteligência é
pura e nunca se altera devido às condições externas.
Como o Senhor Krishna já havia explicado no Capítulo Três,
Ele aqui novamente enfatiza que ninguém consegue livrar completamente
da ação. Desse modo, a idéia de renunciar a todo
tipo de trabalho é falsa e imprática. Na verdade, em vez
de abandonar o trabalho em nome da assim chamada renúncia, deve-se
abandonar, isso sim, o fruto do trabalho. A idéia é que
executando o trabalho da melhor maneira possível e, ao mesmo tempo,
oferecendo o fruto ao Senhor, atinge-se a plataforma pura e perfeita da
renúncia. Isto irá manter uma pessoa livre do compromisso
de permanecer neste mundo material, ou seja, livre do desfrute ou sofrimento
dos resultados dos seus atos.
Pérola
95. DIFERENTES CAUSAS DA AÇÃO (versos 13 a 18)
13.
Ó Arjuna de braços poderosos, segundo o Vedanta existem
cinco causas que levam à concretização de todos os
atos. Agora ouça enquanto falo sobre isto.14. O lugar onde ocorre
a ação (o corpo), o executor, os vários sentidos,
as muitas diferentes espécies de esforço e, por fim, a Superalma
– estes são os cinco fatores da ação. 15. Qualquer
ação certa ou errada que um homem execute através
do corpo, da mente ou da fala é causada por estes cinco fatores.
16. Portanto, aquele que se considera o único executor e não
leva em consideração os cinco fatores com certeza não
é muito inteligente e não pode perceber as coisas como elas
são. 17. Aquele que não é motivado pelo ego falso,
cuja inteligência não está enredada, embora mate homens
neste mundo, não mata. Tampouco fica preso a suas ações.
18. O conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor são
os três fatores que motivam a ação; os sentidos, o
trabalho e o autor são os três constituintes da ação.
Aqui
o Senhor cita a filosofia Vedanta para explicar sobre as cinco causas
que determinam uma ação. Compreendendo-as, pode-se obter
sucesso em todo tipo de atividade. O corpo onde a alma habita é
conhecido como o lugar onde ocorre a ação e a alma que está
vivendo temporariamente nele é chamada de executora. A alma também
utiliza os diferentes sentidos como seus instrumentos de ação,
por isso, os sentidos são também um importante fator. Ao
mesmo tempo, o grau de esforço ou desempenho durante qualquer atividade
tem sua importância, mas, finalmente, a vontade da Superalma é
certamente o fator determinante mais decisivo. O que se chama comumente
de consciência de Krishna significa simplesmente agir sob a direção
da Superalma, A qual que habita no coração do ser vivo como
o amigo mais bondoso. Agindo-se, desse modo, sob Sua direção
transcendental, a pessoa nunca se prende a nada, pois ela se livra do
risco de agir sob sua própria responsabilidade. Uma pessoa desprovida
de conhecimento espiritual não compreende a presença da
Superalma no coração dos seres vivos e, por isso, nunca
poderá agir corretamente. Na verdade, ela se julga o autor de suas
próprias atividades e é sempre motivado pelo ego falso.
Aqui também se explica que existem três fatores que motivam
a ação: o conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor;
e os três fatores que constituem a ação: os sentidos,
o trabalho e o autor. O conhecedor é a pessoa que, de algum modo,
obteve algum tipo de conhecimento e, desse modo, estabeleceu um objetivo
em particular. Assim, ele passa a agir com a ajuda de seus sentidos. Quando
a pessoa é iluminada pelo conhecimento transcendental, ela e torna
um verdadeiro conhecedor da verdade e seus objetivos são espirituais.
Desse modo, ele passa a agir sob a guia da Superalma e seus sentidos permanecem
sob completo controle tornando-o um instrumento do Senhor, e não
um simples autor egoísta.
Pérola
96. AS TRÊS CLASSES DE CONHECIMENTO (versos 19 a 22)
19.
Conforme os três diferentes modos da natureza material, há
três classes de conhecimento, ação e executor da ação.
Agora ouça enquanto falo sobre elas. 20. Você deve compreender
que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe
uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas,
embora elas se apresentem sob inúmeras formas. 21. Você deve
entender que está no modo da paixão aquele conhecimento
com o qual se vê em cada corpo diferente um diferente tipo de entidade
viva. 22. E diz-se que está no modo da ignorância aquele
conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico
de trabalho como tudo o que existe, sem ter a compreensão da verdade,
além de ser muito escasso.
Como podemos
constatar, os três modos da natureza material estão sempre
interagindo com os seres vivos em todos os seus momentos, lugares e circunstâncias.
A pessoa no modo da bondade, por exemplo, desenvolve verdadeiro conhecimento
e desenvolve uma visão equânime. Em outras palavras, ela
pode reconhecer a presença da mesmíssima qualidade da alma
espiritual em todos os diferentes seres. Isto significa que, independente
da espécie na qual um ser vivo possa estar vivendo temporariamente,
quer esteja ele num vegetal, inseto, réptil, aquático ou
humano, a alma é da mesma qualidade e, ao mesmo tempo, possui sua
individualidade eterna. No entanto, sob a influência do modo da
paixão, a pessoa acredita que, mesmo que exista a alma, elas são
de diferentes qualidades. Em outras palavras, ela acha que as almas que
habitam os seres inferiores são diferentes daquilo que ela chama
de “almas humanas”. Infelizmente, esta filosofia influenciada
pela paixão serve muitas vezes para justificar uma mentalidade
violenta e predatória contra seres vivos inocentes. Na ignorância,
a situação ainda é pior, pois a pessoa nem sequer
acredita na existência da alma. Na verdade, o dito conhecimento
de uma pessoa no modo da ignorância é inútil, pois
gira em torno simplesmente de seus confortos físicos e satisfações
corpóreas grosseiras.
Pérola
97. A AÇÃO E SUAS DIVISÕES (versos 23 a
25)
23.
Diz-se que está no modo da bondade aquela ação que
é regulada e que se executa sem apego, sem amor nem repulsa e sem
desejo de resultados fruitivos. 24. Mas a ação executada
com grande esforço por alguém que busca satisfazer seus
desejos, e efetuada por causa de uma sensação de ego falso,
chama-se ação no modo da paixão. 25. A ação
executada em ilusão, que não leva em conta os preceitos
das escrituras, e em que não há preocupação
com cativeiro futuro ou com violência ou sofrimento causados aos
outros diz-se que está no modo da ignorância.
A influência
exercida pelos três modos da natureza nas diferentes ações
dos seres vivos é também muito forte. O executor da ação
sob a influência da bondade, por exemplo, se caracteriza pela sua
estabilidade. Agindo impulsionado pelo desejo de comprazer o Senhor, o
executor da ação na bondade executa seu dever da melhor
maneira possível. Além disso, seus hábitos de vida
são regulados pelas escrituras e, embora seja uma pessoa paciente
e tolerante, sua determinação é firme e constante.
No modo da paixão, o executor é movido pelo desejo de lucro
e resultados materiais pessoais e suas ações são
empreendidas com um esforço exagerado causando uma grande sensação
de ego falso. E, no modo da ignorância, as ações são
ilusórias e não fazem o menor sentido. Tais ações
não estão sob a direção de nenhuma escritura
religiosa autorizada e é sempre inconsequente e prejudicial. Além
disso, no modo da ignorância existe uma forte tendência de
agindo violentamente e causando sofrimentos às pessoas alheias.
Como foi falado diversas vezes, o devoto do Senhor, no entanto, é
transcendental aos modos da natureza material. Estando acima do ego falso
e orgulho materiais, o devoto age com pureza. As dificuldades podem surgir
a qualquer momento, porém, no êxito ou no fracasso; no sofrimento
ou na felicidade, ele entrega os resultados ao Senhor e continua feliz
e satisfeito cantando Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare,
Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare.
Pérola
98. O EXECUTOR E SUAS DIVISÕES (versos 26 a 28)
26.
Aquele que executa seu dever sem entrar em contato com os modos da natureza
material, sem ego falso, com grande determinação e entusiasmo,
e sem se deixar levar pelo sucesso ou pelo fracasso diz-se que é
um trabalhador no modo da bondade. 27. O trabalhador que se apega ao trabalho
e aos frutos do trabalho, desejando gozar esses frutos, e que é
cobiçoso, sempre invejoso, impuro e que se deixa afetar pela alegria
e tristeza, diz-se que está no modo da paixão. 28. O trabalhador
que sempre está ocupado em trabalho que vai de encontro aos preceitos
das escrituras, que é materialista, obstinado, trapaceiro e perito
em insultar os outros, e que é preguiçoso, sempre desanimado
e irresoluto diz-se que é um trabalhador no modo da ignorância.
A determinação
e o entusiasmo firme e constante são características evidentes
do modo da bondade. Além disso, no modo da bondade o trabalhador
é sempre imperturbável, devido a ausência de luxúria
e cobiça. Ainda assim, o trabalhador na bondade tem seu programa
de trabalho regulado, pois não utiliza seu valioso tempo só
para o trabalho. Ele reserva parte de seu tempo para cultivar conhecimento
e para se dedicar a auto-realização espiritual.
No modo da paixão, o trabalhador manifesta características
diferentes. Sob sua influência, o trabalhador no modo da paixão
se apega exageradamente ao seu trabalho como se fosse a coisa mais importante
da vida. Na verdade, o seu tempo todo é utilizado para o trabalho
e ele mal tem tempo para comer e descansar em paz. Sendo um materialista
obstinado, o trabalhador na paixão se apega aos filhos e esposa
além do limite prescrito pelas escrituras, mas, ainda assim, tem
pouco tempo para se associar com eles. Ele possui uma forte tendência
a invejar os outros trabalhadores que são mais bem sucedidos economicamente
do que ele, ou que tenham um maior padrão de conforto. Isso geralmente
o leva a buscar dinheiro através de meios ilegais e ilícitos.
O trabalhador na ignorância é o mais tolo entre todos e,
apesar de também ser materialista, ele está geralmente desanimado
e sob a influência da preguiça, e sua determinação
é completamente fraca. Ele não possui o menor interesse
de conhecer e seguir as escrituras religiosas, pois é uma pessoa
obstinada e ofensiva aos demais. Como se não bastasse, além
dessas más qualidades, o trabalhador no modo da ignorância
se atrai por trabalho sujo e nunca perde uma oportunidade para enganar
os outros, fazendo trapaças para agir satisfazer os seus desejos
mundanos.
Pérola
99. A DIVISÃO DA COMPREENSÃO E DA DETERMINAÇÃO
(versos 29 a 35)
29.
Ó conquistador de riquezas, agora por favor ouça enquanto
lhe falo pormenorizadamente sobre as diferentes espécies de compreensão
e determinação, segundo os três modos da natureza
material. 30. Ó filho de Pritha, esta compreensão pela qual
se sabe o que deve ser feito e o que não deve ser feito, o que
se deve temer e o que não se deve temer, o que prende e o que liberta,
está no modo da bondade. 31. Ó filho de Pritha, a compreensão
que não pode distinguir entre religião e irreligião,
entre ação que deve ser feita e ação que não
deve ser feita, está no modo da paixão. 32. A compreensão
que considera a irreligião como religião e a religião
como irreligião, que age sob o encanto da ilusão e da escuridão
e se esforça sempre na direção errada, ó Partha,
está no modo da ignorância. 33. Ó filho de Pritha,
a determinação que é inquebrantável, que através
da prática de yoga ganha muita firmeza e controla então
as atividades da mente, vida e sentidos, é determinação
no modo da bondade. 34. Mas a determinação pela qual o homem
se atem aos resultados fruitivos da religião, do desenvolvimento
econômico e do gozo dos sentidos é da natureza da paixão,
ó Arjuna. 35. E a determinação que não pode
transpor o sonho, o medo, a lamentação, a melancolia e a
ilusão – tal determinação ininteligente, ó
filho de Pritha, está no modo da escuridão.
A determinação
de uma pessoa em executar um determinado tipo de trabalho está
sempre relacionado com o nível de compreensão que ela atingiu.
Por isso, o Senhor Krishna prefere tratar destes dois assuntos conjuntamente.
Saber o que se deve ser feito e o que se deve ser evitado não é
uma simples questão de inteligência. Primeiramente, a pessoa
precisa conhecer as direções das escrituras autorizadas
para, além disso, executar suas ações baseadas nestas
direções. Uma pessoa no modo da bondade age desta maneira.
No entanto, no modo da paixão, mesmo uma pessoa dita inteligente
está sempre confusa no que diz respeito à execução
correta de seus verdadeiros deveres, quer sejam sociais ou espirituais.
Devido ao fato dela não conhecer as direções das
escrituras, independente de qualquer esforço ou boa intenção,
ela acaba pecando por não possuir verdadeira referência.
Existem também as pessoas que, sob a influência do modo da
ignorância, invertem o verdadeiro significado das coisas. Tais pessoas
trilham naturalmente o caminho inverso. Para elas, a verdadeira religião
é rejeitada como irreligião, e as coisas importantes da
vida são deixadas de lado, enquanto elas se ocupam em coisas inúteis
e inconsequentes.
Geralmente, a pessoa no modo da bondade pratica yoga e executa métodos
que possam ajudá-la a controlar a mente e os sentidos. Deste modo,
o verdadeiro interesse da vida humana pela auto-realização
é sempre incrementado e a pessoa não desperdiça seu
tempo com atividades banais. A pessoa no modo da paixão, no entanto,
não consegue entender o verdadeiro sentido da yoga, mesmo que a
pratique. Tal pessoa apaixonada está demais interessada em gozo
dos sentidos e desenvolvimento econômico para entender que a verdadeira
prática da yoga se destina a fixar-se na compreensão da
Alma Suprema. Finalmente, no modo da ignorância só existe
ilusão. Por isto, uma pessoa ignorante vive melancólica
e só sabe se lamentar. Sua ilusão é tão grande
que ela se contenta em passar a vida simplesmente sonhando e acaba não
utilizando seu tempo em coisas realmente objetivas.
Pérola
100. A DIVISÃO DA FELICIDADE (versos 36 a 39)
36.
Ó melhor dos Bharatas, agora por favor ouça enquanto falo
sobre as três espécies de felicidade que levam a alma condicionada
a desfrutar e que às vezes lhe trazem o fim de todo o sofrimento.
37. Aquilo que no começo pode parecer veneno, mas que no final
é tal qual néctar e que causa o despertar da auto-realização
diz-se que é felicidade no modo da bondade. 38. A felicidade que
deriva do contato dos sentidos com seus objetos e que parece néctar
no começo mas no final é um veneno diz-se que é da
natureza da paixão. 39. E se diz que a felicidade que é
cega para a auto-realização, que é ilusão
do começo ao fim e que surge do sono, da preguiça e da ilusão
é da natureza da ignorância.
A verdadeira
felicidade é a felicidade espiritual. Porém, não
devemos pensar que, enquanto esteja na condição de alma
condicionada, uma pessoa pode desfrutar desta verdadeira felicidade neste
mundo. Presa dentro de seu corpo específico, ela não pode
manifestar sua verdadeira natureza plena. Ela primeiramente precisa se
livrar da identificação com o ego falso para, como o próximo
passo, parar de agir em função do corpo e, finalmente, iniciar
suas atividades de serviço devocional para ir se purificando gradualmente
de todo tipo de ilusão. Enquanto isto, dependendo da influência
específica que estiver recebendo da natureza material, a pessoa
experimenta diferentes graus de felicidade material.
A felicidade experimentada por uma pessoa que está se despertando
para a auto-realização é uma felicidade no modo da
bondade. A satisfação de ter encontrado um caminho autêntico
de vida espiritual compensa qualquer tipo de sacrifício ou austeridade
que se tenha que aceitar. Na verdade, quando a pessoa realmente chegou
ao ponto de levar a sério seu caminho espiritual, as diferentes
regras e deveres são executados com prazer. É como um criança
que realmente chegou ao ponto de se alfabetizar. Para ela, frequentar
a escola e fazer seus deveres escolares é motivo de grande prazer,
mesmo que, como sabemos, ela terá que sacrificar seu tempo que
anteriormente era utilizado com brincadeiras infantis.
Para uma pessoa no modo da paixão, prazer significa simplesmente
ter êxito em colocar os sentidos em contato com objetos dos sentidos
prazerosos. Por exemplo, uma pessoa no modo da paixão se sente
feliz quando pode saborear alimentos saborosos, mesmo que, o resultado
final disto, seja a causa de doenças. A atividade sexual é
muito preeminente entre as pessoas no modo da paixão, por isto
elas se sentem felizes em se relacionarem sexualmente com o sexo oposto.
Evidentemente, no começo, o prazer sexual pode revelar-se como
agradável. Com o passar do tempo, no entanto, a influência
da paixão faz com que o assim chamado prazer sexual assuma características
indesejáveis. O casal acaba se odiando e se separando, e tudo se
torna motivo de grande ansiedade e lamentação – isso
para não falar da consequência do rompimento do compromisso
familiar que gera outras conseqüências indesejáveis.
A felicidade da pessoa no modo da ignorância é caracterizada
pela inatividade. Quanto menos responsabilidade ou compromisso uma pessoa
na ignorância tiver, mais feliz ela se sentirá.
Pérola
101. O TRABALHO EOS MODOS DA NATUREZA (versos 40 a 44)
40.
Aqui ou entre os semideuses nos sistemas planetários superiores,
não existe ser algum que esteja livre destes três modos nascidos
da natureza material. 41. Os brahmanas, os kshatriyas, os vaishyas e os
shudras distinguem-se pelas qualidades que, de acordo com os modos materiais,
são nascidas de sua própria natureza, ó castigador
do inimigo. 42. Tranquilidade, autocontrole, austeridade, pureza, tolerância,
honestidade, conhecimento, sabedoria e religiosidade – são
estas as qualidades naturais com as quais os brahmanas agem. 43. Heroísmo,
poder, determinação, destreza, coragem na batalha, generosidade
e liderança são as qualidades naturais das atividades dos
kshatriyas. 44. A agricultura, a proteção às vacas
e o comércio são as atividades naturais dos vaishyas, e
os shudras devem executar trabalho e serviço para os outros.
Todo ser
vivo nasce como uma certa quantidade de inteligência, saúde,
beleza etc. Portanto, baseados nessas qualidades, todos devem aceitar
uma posição ocupacional de acordo com sua condição
social.
Por exemplo, os brahmanas são a classe inteligente da sociedade
e, por isso, são considerados a cabeça do corpo social.
No entanto, mesmo sendo dotada de muita inteligência, uma pessoa
terá que se submeter a um rigoroso treinamento sob a orientação
do mestre espiritual autêntico para tornar-se um brahmana qualificado
e situar-se realmente no modo da bondade. Um brahmana é também
conhecido como dvija, que significa “duas vezes nascido”.
O primeiro nascimento é meramente biológico e não
determina se a pessoa é inteligente ou não. O segundo nascimento
está relacionado com a aceitação de um guru, ou mestre
espiritual fidedigno. Colocando-se sob as instruções do
guru, a pessoa aceita uma vida disciplinada, o que caracteriza sua posição
de discípulo. Aprendendo o significado dos textos védicos,
a pessoa desenvolve sua verdadeira inteligência pura e as qualidades
divinas mencionadas aqui, tais como tranquilidade, autocontrole e tolerância
naturalmente se manifestam em tal pessoa. Na verdade, uma pessoa que aceita
um mestre espiritual autêntico e segue suas instruções
com respeito e dedicação, é realmente afortunada
e sua vida se torna decorada com tais qualidades divinas.
Os kshatriyas são a classe administrativa da sociedade e representam
os braços do corpo social. Eles são líderes naturais,
no entanto, é de se esperar que eles exerçam sua liderança
governo sob a orientação dos brahmanas, evitando assim que
o modo da paixão estrague tudo. Os kshatriyas também recebem
o segundo nascimento, porém, eles recebem um treinamento específico
para proteger as leis do dharma e amparar aqueles que foram lesados pelo
adharma.
Os vaishyas são a classe mercantil e representam o estômago
da sociedade. Eles têm uma inclinação toda especial
pelo acúmulo de riquezas. Porém, isto não é
o mesmo que ganância material ordinária, pois um verdadeiro
vaishya é também dedicado à caridade aos brahmanas
renunciados e ocupados em propagar o conhecimento védico. E, finalmente,
os shudras, a classe trabalhadora, representa as pernas da sociedade,
devendo se ocupar auxiliando as demais ordens sociais. Portanto, nestes
versos, o Senhor afirma mais uma vez que os três modos da natureza
estão exercendo sua influência implacável em todos
os setores da sociedade.
Pérola
102. A PERFEIÇÃO NA EXECUÇÃO DO DEVER
(versos 45 a 49)
45.
Sujeitando-se às qualidades de seu trabalho, cada
um pode tornar-se perfeito. Agora por favor ouça enquanto falo
como é que alguém pode tomar essa atitude. 46. Prestando
adoração ao Senhor, que é a fonte de todos os seres
e que é onipenetrante, o homem pode atingir a perfeição
através da execução de seu próprio trabalho.
47. É melhor alguém dedicar-se à sua própria
ocupação, mesmo que venha a executá-la imperfeitamente,
do que aceitar alguma ocupação alheia e executá-la
com perfeição. Os deveres prescritos conforme a natureza
da pessoa nunca são afetados por reações pecaminosas.
48. Todo empenho é revestido de algum defeito, assim como o fogo
é coberto pela fumaça. Por isso, ninguém deve abandonar
o trabalho nascido de sua natureza, ó filho de Kunti, mesmo que
esse trabalho seja cheio de defeitos. 49. Quem é autocontrolado
e desapegado e não se interessa por nenhum prazer material pode
obter, pela prática da renúncia, a fase perfeita mais elevada:
estar livre de reação.
Acabamos
de analisar as qualidades naturais com as quais as diferentes classes
sociais exercem seu trabalho. Aqui, portanto, o Senhor Krishna explica
que todos podem alcançar a perfeição de suas vidas
simplesmente compreendendo a natureza onipenetrante do Senhor e prestando-Lhe
adoração. Quando se compreende claramente que todo ser vivo
é parte integrante do Senhor, passa-se compreender também
o significado da ocupação em consciência de Krishna.
Em outras palavras, não importa a natureza específica através
da qual alguém se ocupa socialmente. Ele deve aceitar tal ocupação
e executá-la o melhor possível. Além disso, os frutos
de tal ocupação devem ser oferecidos para o prazer do Senhor
e não para seu próprio gozo dos sentidos. Esta é
considerada a perfeição da execução do trabalho.
Na realidade, quando alguém se ocupa dentro da sua natureza, ela
permanece tranquila e satisfeita, quer seja como um brahmana ou shudra,
ou mesmo um chefe de família ou renunciado. Quando, porém,
a pessoa abandona seu dever específico e tenta ocupar uma posição
que não condiz à sua natureza, ela age contra os preceitos
védicas e sua vida será coberta de erros. Portanto, o Senhor
afirma aqui que, mesmo imperfeitamente, a pessoa deve executar seus deveres
e seguir sua própria natureza. Agindo dessa forma e oferecendo
seu trabalho ao Senhor, chegará o dia em que tal pessoa se aperfeiçoará
até o ponto máximo.
Esta instrução é especificamente muito significativa
para Arjuna, o qual estava diante de um grande dilema. Sem dúvida,
o dever de Arjuna como um kshatriya de defender o dharma ia contra o bem
estar de parte de sua família, a qual estava defendendo o exército
oponente. Apesar disso, o Senhor Krishna esclarece aqui para Seu discípulo
e amigo Arjuna que neste mundo, quando se analisa as coisas do ponto de
vista material, não existe perfeição absoluta. O
próprio fogo, que é considerado um dos elementos mais puros,
é revestido pela fumaça, um elemento muitas vezes indesejável.
No entanto, mesmo que as vezes a fumaça cause algum tipo de incômodo,
não devemos deixar de usar o fogo e muito menos ele vai deixar
de cumprir seu papel apesar das condições incômodas
criadas pela fumaça. A essência de tudo é, portanto,
agir para satisfazer o Senhor Supremo, tomando todo o cuidado possível
para não utilizarmos isto para justificar nossos desejos pessoais.
Apesar de existirem situações no cumprimento de nosso dever
que poderíamos considerar perturbadoras, ainda assim, devemos continuar
fixos em nossa ocupação, sem abandoná-la caprichosamente.
Agindo deste modo estaremos compreendendo as coisas do ponto de vista
espiritual e estaremos criando condições para, assim, alcançarmos
o estágio perfeccional supremo.
Pérola
103. A ETAPA PERFECTIVA SUPREMA (versos 50 a
50.
Ó filho de Kunti, aprenda comigo como é que, seguindo o
método que agora passo a resumir, alguém que conseguiu esta
perfeição pode alcançar a fase de suma perfeição,
o Brahman, a etapa do conhecimento mais elevado. 51-53. Tendo uma inteligência
que o purifica e controlando a mente com determinação, abandonando
os objetos de gozo dos sentidos, estando livre do apego e do ódio,
aquele que vive num lugar isolado, que come pouco, que controla seu corpo,
mente e poder de fala, que está sempre em transe e que é
desapegado, livre do ego falso, da falsa força, do falso orgulho,
da luxúria, da ira e que deixou de aceitar coisas materiais, que
está livre da falsa idéia de propriedade e é pacífico
– este com certeza elevou-se à posição de auto-realização.
54. Aquele que está situado nessa posição transcendental
compreende de imediato o Brahman Supremo e torna-se completamente feliz.
Ele nunca se lamenta nem deseja ter nada e é equânime para
com todas as entidades vivas. Nesse estado, ele passa a Me prestar serviço
devocional puro.
Evidentemente,
as pessoas comuns ficam surpresas com a descrição dada aqui
pelo Senhor que informa o método para se desapegar do mundo do
gozo dos sentidos. No entanto, tudo isto foi elaboradamente explicado
no decorrer do Bhagavad-gita e, novamente aqui no final desta obra filosófica,
o Senhor descreve este mesmo método resumidamente.
Primeiramente, Ele fala sobre a purificação através
da inteligência. Ou seja, o primeiro passo é se aproximar
de um guru autêntico que siga o sistema de parampara e receber dele
instruções transcendentais sobre o conhecimento védico,
pois ninguém deve tentar extrair seus próprios significados
das escrituras, enquanto se baseia em seu conhecimento imperfeito mundano.
O verdadeiro guru nunca faz malabarismos de palavras, pois ele é
competente o suficiente para ensinar o discípulo a trilhar o verdadeiro
caminho. Na verdade, sem a ajuda de um guru auto-realizado, a pessoa continuará
especulando filosoficamente vida após vida, sem chegar a uma conclusão
final. Se o discípulo for sincero e seguir as instruções
do guru, ele se elevará a o plano de conhecimento perfeito que
se manifestará pelo desapego às atividades de gozo dos sentidos.
Somente ingressando nesta fase elevada de vida espiritual, é possível
entrar nas complexidades da ciência de Deus, e não através
de conhecimento gramatical ou especulação acadêmica.
Estando desapegado dos prazeres inferiores dos sentidos, tal pessoa se
situa no modo da bondade, onde as dualidades de apego ou ódio não
atuam. Estando livre do conceito corpóreo, ela leva uma vida simples
e tranquila e prefere manter-se introspectiva, procurando viver num lugar
mais silencioso, favorável às práticas espirituais.
Sua vida é disciplinada, e ela diminuiu suas propensões
materiais corpóreas, tais como comer, dormir, falar, etc. Tal estágio
de vida perfeita é chamada tecnicamente de brahma-bhuta, ou seja,
o estágio onde a pessoa se situa no transe da auto-realização
e não desperdiça seu tempo valioso com atividades insensatas.
Não devemos pensar que esta fase brahma-bhuta significa tornar-se
uno com o Absoluto e perder a individualidade. Para deixar este ponto
claro, aqui se afirma que, neste estágio, a pessoa atinge a unidade
máxima, praticando serviço devocional puro ao Senhor. Em
filosofia, isto significa achintya-bhedabheda-tattva, ou seja, a pessoa
nesta fase espiritual elevada torna-se una com o Senhor no sentido de
que ela alcançou a mesma natureza do Senhor, mas, ao mesmo tempo,
a distinção entre Senhor e servo é eternamente mantida.
Neste caso, a pessoa sente-se plenamente feliz e nunca encontra motivos
para se lamentar ou desejar qualquer outra coisa. O Senhor é a
fonte e o reservatório de todo o prazer e praticar serviço
devocional puro em plena concepção de unidade significa
mergulhar num inesgotável oceano de bem-aventurança.
Pérola
104. O CONHECIMENTO MAIS CONFIDENCIAL (versos 55 a 62)
55.
É unicamente através do serviço devocional que alguém
pode compreender-Me como sou, como a Suprema Personalidade de Deus. E
quando, mediante essa devoção, ele se absorve em plena consciência
de Mim, ela pode entrar no reino de Deus. 56. Embora ocupado em todas
as espécies de atividades, Meu devoto puro, sob Minha proteção,
alcança por Minha graça a morada eterna e imperecível.
57. Em todas as atividades conte apenas comigo e sempre trabalhe sob Minha
proteção. Nesse serviço devocional, seja plenamente
consciente de Mim. 58. Se você se tornar consciente de Mim, superará
por Minha graça todos os obstáculos da vida condicionada.
Entretanto, se não trabalhar com essa consciência, mas agir
com ego falso e deixar de Me ouvir, você estará perdido.
59. Se você deixar de agir segundo Minha direção e
não lutar, então seguirá uma orientação
errada. Por sua natureza, você terá de se ocupar na luta.
60. Sob a influência da ilusão, você está agora
recusando a agir segundo a Minha direção. Mas, compelido
pelo trabalho nascido de sua própria natureza, você acabará
fatalmente agindo, ó filho de Kunti. 61. O Senhor Supremo está
situado nos corações de todos, ó Arjuna, e está
dirigindo as andanças de todas as entidades vivas, que estão
sentadas num tipo de máquina feita pela energia material. 62. Ó
descendente de Bharata, renda-se completamente a Ele. Por Sua graça,
você vai obter paz transcendental e a suprema e eterna morada.
O conhecimento
transcendental tem três divisões: o conhecimento do aspecto
impessoal de Deus, o conhecimento das Superalma onipenetrante e o conhecimento
da Personalidade de Deus. Dos três, o conhecimento transcendental
sobre a Personalidade de Deus é superior e tem importância
especial, pois só pode ser obtido através do serviço
devocional. De fato, pelo desempenho do serviço devocional puro,
a pessoa pode conhecer o Senhor como Ele é, e, assim, receber a
permissão de entrar em diferentes graus de associação
direta com o Senhor. A associação mais elevada e gloriosa
com o Senhor torna-se possível em Goloka Vrindavana, o planeta
supremo. A descrição de Goloka Vrindavana, onde o Senhor
Se diverte com suas consortes, as gopis, e Seus animais prediletos, as
vacas surabhi, é dada no texto conhecido como Brahma-samhita, considerado
pelo Senhor Chaitanya como o texto mais autêntico dentro desta linha.
Pode ser que, por meio de nosso esforço pessoal, aproximemo-nos
do Senhor, mas o objetivo final só poderá ser alcançado
pela Sua misericórdia. Desse modo, o devoto mantém-se humilde
e devotado ao Senhor, ocupando-se vinte e quatro horas em atividades espirituais.
Ele está sempre ouvindo e cantando sobre o Senhor, meditando nEle,
oferecendo-Lhe orações ou executando diversos serviços
práticos. Estas ocupações devocionais práticas
revestem o devoto com uma proteção espiritual, defendendo-o
do contato com a energia ilusória inferior. Livrando-se, portanto,
da influência da energia ilusória, o devoto puro atinge um
estágio tão elevado de consciência de Krishna que,
praticamente, não existem mais problemas no curso de sua vida.
Seguir diretamente a instrução do Senhor é, indubitavelmente,
a posição mais segura possível e Arjuna estava tendo
esta grande oportunidade diante dele. A instrução dada pelo
Senhor é que Arjuna deveria lutar simplesmente por uma questão
de dever, enquanto, ao mesmo tempo, deveria manter sua consciência
espiritual. Como um guerreiro verdadeiro, para Arjuna a luta era algo
completamente natural. No entanto, por fraqueza, ele temia a morte de
seus parentes e, por ignorância, achava que, se lutasse, estaria
agindo pecaminosamente. Seu ponto de vista estava influenciado pela ignorância,
pois ele estava desconsiderando a presença da Suprema Personalidade
de Deus no Campo de Kurukshetra, o que tornava tudo auspicioso. Portanto,
o Senhor Krishna enfatiza para seu amigo Arjuna que se ele relegasse a
direção dada por Ele, Arjuna estaria agindo sob a influência
da ilusão. Na verdade, a situação criada era tão
envolvente que de fato não existia a possibilidade de Arjuna se
afastar completamente da batalha. Mesmo que isto viesse a acontecer, devido
à sua própria natureza, Arjuna acabaria não suportando
ficar de fora da batalha como um covarde. De fato, só restava a
Arjuna seguir as instruções impecáveis dadas pelo
Senhor Krishna e, assim, se tornar famoso não apenas como um verdadeiro
guerreiro, mas também como um devoto glorioso.
Pérola
105. A INSTRUÇÃO SUPREMA (versos 63 a 65)
63.
Assim, Eu lhe expliquei o conhecimento bem mais confidencial. Delibere
sobre isto detidamente, e então faça o que você deseja
fazer. 64. Porque você é Meu queridíssimo amigo, estou
falando para você Minha instrução suprema, o mais
confidencial de todos os conhecimentos. Ouça enquanto falo isto,
pois é para seu benefício. 65. Pense sempre em Mim e converta-se
em Meu devoto. Adore-Me e ofereça-Me suas homenagens. Assim, você
virá a Mim impreterivelmente. Eu lhe prometo isto porque você
é Meu amigo muito querido.
O Senhor
acabara de transmitir para Arjuna o conhecimento mais confidencial: simplesmente
renda-se ao Senhor Supremo e alivie-se de todas as misérias causadas
pela vida material. Na verdade, render-se ao Senhor é o interesse
supremo de todo ser vivo, pois somente nesta posição de
servo rendido ao Senhor, o ser vivo pode se situar numa condição
de felicidade plena.
Quem não está em consciência de Krishna está
sempre ansioso na luta pela existência material. Tal pessoa é
sempre arrastada pelo ego falso e, mesmo estando presa às leis
materiais, julga-se independente e livre para tomar suas próprias
decisões. Isto é ilusão. Mas, quando age em consciência
de Krishna, o ser vivo se volta para seu melhor e verdadeiro amigo. Desse
modo, o próprio Senhor Krishna atua diretamente como seu benquerente
e toma conta de seu conforto em todos os aspectos. Como foi falado no
final do Capítulo Seis, o devoto imaculado está sempre pensando
em seu amo, o Senhor Krishna, dentro do coração. Por isso,
ele mantém-se intimamente ligado ao Senhor. Este estágio
no qual o devoto está sempre absorto em pensamentos sobre o Senhor
de uma forma espontânea é a plataforma devocional mais elevada.
O Bhagavad-gita também explica que aqueles que não chegaram
a este nível, podem manter-se em consciência de Krishna executando
seus deveres e oferecendo os frutos em sacrifício ao Senhor. De
qualquer modo, se a pessoa mantém-se simplesmente glorificando
o Senhor cantando Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare,
Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare, ela avançará em
direção à consciência de Krishna.
Esta é a última fase das instruções do Senhor
no Bhagavad-gita, e as pessoas inteligentes devem levá-las muito
a sério. As primeiras instruções confidenciais do
Senhor começam com o conhecimento do eu. O próximo passo
é a compreensão acerca de Deus, que é chamado de
conhecimento mais confidencial. Atingindo esta fase, a pessoa passa a
se comportar como um devoto e aprende a ajustar suas vida de uma tal maneira
que sua consciência de Krishna adormecida possa ser despertada.
Tais atividades ajustadas para o cultivo da consciência de Krishna
são chamadas de serviço devocional e baseiam-se no amor
a Deus. Tais atividades são transcendentalmente naturais e espontâneas,
ao contrário da natureza da rotina das práticas de karma-yoga,
jñana-yoga ou dhyana-yoga. No Bhagavad-gita, portanto, encontramos
diferentes instruções para diferentes categorias de pessoas.
Há descrições sobre os deveres dos chefes de famílias,
dos renunciados, dos kshatriyas ou brahmanas, aceitação
do guru, meditação, etc. Entretanto, quando alguém
chega ao ponto de se entregar ao Senhor e passa a serví-lO com
amor espontâneo, compreende-se que ela foi capaz de assimilar a
essência de todo o conhecimento não apenas do Bhagavad-gita,
mas, também, de todos os Vedas.
Neste Capítulo Dezoito fica claro que o êxito completo no
caminho espiritual é obtido pela consciência de Krishna,
o processo mais elevado de yoga. No Capítulo Seis, o Senhor explicou
o processo de dhyana, ou meditação, para Arjuna, que o rejeitou.
Na verdade, a despeito de todo o encanto na prática da yoga mística,
é muito difícil que um homem comum possa praticá-la.
Isto significa que, por incrível que pareça, o mais elevado
processo de yoga também se tornou, especialmente nesta era, como
o mais fácil – simplesmente fixar a mente no Senhor enquanto
se canta o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare
Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare.
Devemos, portanto, ser práticos e objetivos, não desperdiçando
nosso tempo valioso unicamente com cursos de posturas ióguicas
ou ginásticas. Evidentemente, isto tem seu valor à nível
físico e mental, mas não se trata de verdadeira yoga. Aqui
o Senhor diz claramente que a consciência de Krishna é a
yoga mais elevada, pois em consciência de Krishna o devoto passa
a agir sob as ordens de Krishna, além da plataforma material. No
começo, o devoto segue as instruções do guru, que
é o meio transparente no qual o Senhor Se manifesta. À medida
que avança em fé e conhecimento, as percepções
espirituais e sentimentos devocionais afloram no devoto e o processo se
torna ainda mais firme e consistente. Neste ponto, o devoto passa a receber
instruções diretas da Superalma que está dentro dele,
ao passo que, externamente, continua sendo auxiliado pelo mestre espiritual.
Esta é a perfeição do processo da yoga dada no Bhagavad-gita.
Pérola
106. A PERFEIÇÃO DA RENÚNCIA (versos 66
a 69)
66.
Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te
a Mim. Eu te libertarei de todas as reações pecaminosas.
Não temas. 67. Este conhecimento confidencial jamais pode ser explicado
àqueles que não são austeros, nem devotados, nem
se ocupam em serviço devocional, e tampouco a alguém que
tenha inveja de Mim. 68. Para aquele que explica aos devotos este segredo
supremo, o serviço devocional puro está garantido, e no
final, ele voltará a Mim. 69. Não há neste mundo
servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco jamais haverá
alguém mais querido.
Se, ao estudar
o Bhagavad-gita, alguém decide dedicar sua vida a Krishna, tal
pessoa se livra imediatamente de todas as reações pecaminosas.
Este é o verdadeiro princípio religioso que todos devem
seguir. Pode ser que alguém estude toda a literatura védica,
mas não possa compreender este princípio transcendental,
por que, na verdade, trata-se de um conhecimento confidencial que não
é apanágio de todos. O próprio Arjuna havia afirmado
que nem mesmo os semideuses dos planetas celestiais podem compreender
este tópico muito bem, muito menos os seres humanos. A única
maneira de ter acesso a ele, como ficou claro em todo o Gita, é
através do representante especial do Senhor, um mestre espiritual
completamente auto-realizado e devotado ao Senhor. O mestre espiritual
tem a capacidade de iluminar o discípulo, tornando-o perfeito ao
convencê-lo que a essência da vida religiosa está em
cumprir as ordens da Suprema Personalidade de Deus. Deve-se entender claramente
que o mestre espiritual é o representante do Senhor e, desse modo,
não há diferença entre satisfazer o mestre espiritual
ou o Senhor, pois tanto ele quanto o Senhor Krishna falam os mesmos ensinamentos
transcendentais. Satisfazendo-se o guru, satisfaz-se também o Senhor.
O cativeiro material é decorrente do fato de se ter executado atividades
pecaminosas passadas. Mas, ninguém precisa ficar preocupado com
tal cativeiro material, pois o Senhor assegura que pessoalmente cuidará
de Seu devoto, salvando-o das reações pecaminosas. Uma vez
que o Senhor cancelará o karma passado, é melhor que a pessoa
aceite a guia do mestre espiritual e se preocupe unicamente com a boa
execução do seu serviço devocional e confie na misericórdia
do Senhor. Ao moldar sua vida de acordo com as instruções
do mestre espiritual, a pessoa passa a levar uma vida austera e disciplinada.
A raiz da existência material é a ignorância, a qual
se manifesta como indiferença ao serviço devotado ao Senhor.
Esta indisposição à execução do serviço
devocional se deve ao ego falso, o qual é movido pela inveja do
Senhor e está sempre querendo colocar sua vítima na posição
de controlador ou desfrutador independente. O mestre espiritual, portanto,
ilumina o verdadeiro discípulo sobre sua posição
como servo do Senhor e o instrui a ocupar-se corretamente, eliminando,
assim, a ignorância e o ego falso de seu discípulo. Por explicar
as complexidades do serviço devocional ao discípulo e desvendar
os mistérios sobre a ciência de Deus, o mestre espiritual
presta o mais valioso de todos serviços e, por isso, é considerado
como o servo mais querido do Senhor.
Na verdade, ocupa a posição mais gloriosa neste mundo alguém
que se dedica a criar oportunidades para ajudar as pessoas a se livrarem
da existência material e a se tornarem conscientes de Krishna. Isso
é completamente aprovado pelo Senhor Chaitanya, que ordenou a todos
que primeiramente se purificassem, aceitando este movimento para a consciência
de Krishna, e, depois disso, o divulgassem por todo o mundo. Tal ocupação
constitui a verdadeira atividade beneficente e torna tal pessoa reconhecida
pela Suprema Personalidade de Deus.
Pérola
107. A ILUSÃO DE ARJUNA É DISSIPADA (versos 70
a 73)
70.
E declaro que aquele que estuda esta nossa sagrada conversa adora-Me com
sua inteligência. 71E aquele que ouve com fé e sem inveja
livra-se das reações pecaminosas e alcança os planetas
auspiciosos onde residem os seres piedosos. 72. Ó filho de Pritha,
ó conquistador de riquezas, será que ouviste isto com a
mente atenta? E acaso tua ignorância e ilusões já
se dissiparam? 73. Arjuna disse: Meu querido Krishna, ó pessoa
infalível, agora minha ilusão se foi. Por Tua misericórdia,
recuperei minha memória. Agora me sinto firme e não tenho
dúvidas e estou preparado para agir segundo Tuas instruções.
A melhor
maneira de purificar a inteligência é ocupá-la no
estudo do Bhagavad-gita. A função da inteligência
é discriminar entre o certo e o errado, o que deve ser feito e
o que não deve ser feito, o que libera e o que enreda. No entanto,
a alma condicionada está sujeita a tantas ilusões e erros
que tem grande dificuldade em fazer uso correto de sua inteligência.
Na verdade, como foi explicado pelo Senhor no Capítulo Três,
a inteligência do ser vivo neste mundo está sempre contaminada
pela influência do modo da paixão. Agindo em parceria com
a mente luxuriosa, a inteligência da alma condicionada está
sempre ocupada em fazer planos para o gozo dos sentidos. O Bhagavad-gita,
portanto, foi falado pelo Senhor para livrar a pessoa desta propensão
material. Recebendo este conhecimento absoluto, a pessoa se ilumina à
ponto de reduzir gradualmente todas as suas reações pecaminosas
passadas, assim como o fogo reduz a lenha em cinzas.
Desse modo, como parte do dever de mestre espiritual de Arjuna, o Senhor
Krishna pergunta se ele realmente havia se purificado através do
conhecimento transcendental e tinha se livrado das dúvidas e da
ignorância. Caso contrário, Ele estaria pronto a repetir
novamente este conhecimento. Em resposta à pergunta do Senhor,
Arjuna mostrou-se pronto para, finalmente, executar seu dever com conhecimento
transcendental. As palavras finais de Arjuna são maravilhosas e
servem-nos como grande exemplo. Como vimos durante todo o Bhagavad-gita,
Arjuna mostrou ser um perfeito estudante. Seu primeiro exemplo foi ainda
no começo do Segundo Capítulo (verso sete) quando Arjuna
admitiu sua fraqueza e incapacidade de resolver seu grande dilema. Neste
momento, ele se aproximou do Senhor Krishna com atitude humilde e pediu
ajuda. Ele se colocou na posição de uma alma rendida, um
discípulo confuso e desejoso de ser iluminado. Como sabemos, o
Senhor tentou corrigir a mentalidade materialista de Seu discípulo,
derramando-lhe muitas classes de conhecimentos transcendentais. Ainda
assim, Arjuna mostrou que não era uma pessoa desequilibrada e fanática,
pronta a aceitar toda e qualquer instrução sentimentalmente.
Completamente livre de atitude desafiadora, mas, ao mesmo tempo, revelando
um interesse genuíno em compreender a verdade, Arjuna foi revelando
ao seu mestre espiritual qualquer dúvida que surgisse no transcurso
da conversa transcendental. Por outro lado, o Senhor revelou o exemplo
perfeito de um mestre espiritual imaculado, dando respostas perfeitas
com muita inteligência e paciência para eliminar as dúvidas
de Seu discípulo sincero. Agora, finalmente, Arjuna deixa claro
que toda a sua ilusão material foi dissipada e ele atribui isto
à misericórdia do Senhor. Na verdade, Arjuna recobrou sua
consciência de Krishna e pôde entender que além, de
amigo e mestre espiritual, o Senhor Krishna era a infalível Suprema
Personalidade de Deus que todos devem adorar e obedecer completamente.
Desse modo, Arjuna situou-se firmemente em sua posição constitucional
de servo do Senhor e manteve-se firme para executar seu dever prescrito
de participar da batalha no sagrado campo de Kurukshetra e, assim, ajudar
o Senhor na Sua missão de proteger os devotos e aniquilar os indivíduos
indesejáveis.
Pérola
108. O ÊXTASE DE SAÑJAYA (versos 74 a 78)
74.
Sañjaya disse: Assim foi que ouvi a conversa entre duas grandes
almas, Krishna e Arjuna. E tão maravilhosa é esta mensagem
que os pêlos de meu corpo estão arrepiados. 75. Pela misericórdia
de Vyasa, ouvi diretamente do senhor de todo o misticismo, Krishna, estas
palavras muito confidenciais que Ele mesmo estava dirigindo a Arjuna.
76 Ó rei, à medida que vou recordando este magnífico
e santo diálogo transcorrido entre Krishna e Arjuna, sinto prazer
e a cada momento fico emocionado. 77. Ó rei, ao lembrar a maravilhosa
forma do Senhor Krishna, sinto uma admiração cada vez maior
e me regozijo repetidas vezes. 78. Onde quer que esteja Krishna, o Senhor
de todos os místicos, e onde quer que esteja Arjuna, o arqueiro
supremo, com certeza também haverá opulência, vitória,
poder extraordinário e moralidade. Esta é a minha opinião.
A conclusão
do Bhagavad-gita não poderia ser outra: onde quer que o Senhor
Krishna, a fonte de todo o conhecimento e misericórdia, estiver
presente, e onde quer que se encontrar um seguidor perfeito do Senhor,
como Arjuna, certamente tudo será vitorioso e auspicioso.
Arjuna é aqui chamado de arqueiro supremo não apenas por
sua habilidade em manejar seu arco Gandiva, mas também devido à
sua capacidade de estabelecer-se firmemente fixo na meta mais elevada,
a consciência de Krishna. Como um estudante perfeito, Arjuna pode
entender que, além da Batalha de Kurukshetra na qual ele teria
que participar, existia uma outra batalha, a batalha interior, cujos inimigos
haviam se posicionado estrategicamente dentro dos sentidos, da mente e
da inteligência materiais.
Como foi explicado no Terceiro Capítulo (versos 37-40), o verdadeiro
inimigo da alma condicionada é a luxúria, a qual não
passa de um reflexo pervertido do amor puro por Deus. Impulsionado pela
luxúria, um ser vivo rejeita as instruções dadas
pelo Senhor, quer sejam através do mestre espiritual, das escrituras
védicas ou da Superalma onipresente. A luxúria ilude o ser
vivo, fazendo-o julgar-se independente do Senhor. Esta luxúria
é também responsável pelas atividades pecaminosas
do ser vivo que, incapaz de refrear o impulso de seus sentidos materiais,
ocupa-se em toda classe de atividades mundanas. Os Upanishads fazem uma
excelente comparação entre a condição de um
passageiro dentro de uma carruagem e a situação da alma
condicionada dentro de um corpo. Lá se explica que, assim como
uma carruagem é arrastada por cinco cavalos, o corpo é arrastado
pelos cinco sentidos. As rédeas desta carruagem do corpo é
a mente, a qual mantém-se conectada com os cavalos dos sentidos.
A posição da inteligência é a de condutora
da carruagem, enquanto a alma espiritual é simplesmente o seu passageiro.
Como sabemos, o Senhor Krishna estava atuando simplesmente como o condutor
da carruagem do guerreiro Arjuna. Isto por que Ele sabia que Arjuna teria
dificuldades de controlar os “cavalos” dos sentidos. Neste
mesmo capítulo, o Senhor afirmou que os seres vivos estão
sentados numa máquina feita de energia material, ou seja, o corpo
material, enquanto Ele Se senta no coração e põe-Se
à dirigir. Deste modo, alcança a perfeição
no estudo do Bhagavad-gita aquele que passa a aceitar o Senhor como o
condutor de sua vida. Isto significa que sua vida passa a ser dirigida
pelos ensinamentos dados pelo Senhor no Bhagavad-gita.
Na verdade, o Bhagavad-gita foi falado pelo Senhor não apenas para
eliminar a ilusão de Arjuna. O Bhagavad-gita visa o benefício
de todas as pessoas, em todas as épocas e condições.
Sendo a essência do conhecimento védico, Ele foi apresentado
pelo Senhor especialmente para as pessoas desta era de Kali, as quais
têm pouquíssimo tempo para dedicar-se às vastas pesquisas
dos textos védicos, tais como os Puranas, Upanishads e Vedanta-sutra.
É importante entendermos também que a verdadeira posição
de Arjuna era transcendental, ou seja, ele era um devoto puro do Senhor
que simplesmente representou o papel de uma alma condicionada materialmente.
Portanto, os problemas que surgiram no coração de Arjuna
existem nos corações de todos os seres corporificados. Desse
modo, o mesmo apego ao conceito corpóreo que fez com que Arjuna
se esquecesse do controle supremo do Senhor e caísse em profunda
lamentação acontece com as almas que estão neste
mundo. Além disso, a mesma fraqueza no cumprimento do dever, o
temor à morte, e outras diferentes agonias mentais que não
passam de manifestações da ilusão se apresentam freqüentemente
nos seres corporificados. O propósito do Bhagavad-gita é
fornecer instruções claras e objetivas para todos e é
um livro prático que deve ser consultado em todos os momentos críticos
da vida. Assim como o próprio Senhor, o Bhagavad-gita é
nosso melhor amigo e pode nos consolar em todos nossos momentos de fraqueza,
nos elevando ao nível de bem-aventurança espiritual. Certamente,
estudando profundamente o Bhagavad-gita, iremos encontrar sempre as melhores
soluções para qualquer tipo de problema.
As palavras finais do Bhagavad-gita são faladas por Sañjaya.
Como podemos lembrar, o Bhagavad-gita começa com a pergunta do
rei Dhritarastra para Sañjaya. Ele queria especificamente saber
qual seria o resultado da grande batalha entre seus filhos e os filhos
de seu falecido irmão Pandu. Portanto, aqui Sañjaya definitivamente
responde ao rei: os Pandavas, sob o comando de Arjuna sairão completamente
vitoriosos, devido especialmente à proteção do infalível
Senhor Krishna. Na verdade, neste momento final do Gita, Sañjaya
mal pode se controlar. Completamente maravilhado com o que acabar de escutar,
os pêlos de seu corpo ficam eriçados e ele fica profundamente
emocionado. Tudo indica aqui que Sañjaya também alcançou
o estado mais elevado de consciência, ficando em êxtase por
ter tido a oportunidade de ouvir o maravilhoso e transcendental diálogo
entre Krishna e Arjuna. Esta é a característica do Bhagavad-gita.
O Senhor é tão misericordioso que está Se oferecendo
a todos através desta grande literatura. Isto significa que, mesmo
estando fora de nossa visão atual, a associação com
Ele pode ser possível através da leitura do Gita. Portanto,
devemos concluir com muita segurança que, se estudarmos minuciosamente
o Bhagavad-gita coma ajuda do mestre espiritual genuíno, poderemos
alcançar a perfeição no conhecimento e obteremos
o mesmo benefício que Arjuna obteve na presença pessoal
do Senhor. O Bhagavad-gita é, portanto, considerado como uma poderosa
encarnação sonora do Senhor, pois não há diferença
entre o Bhagavad-gita e o próprio Senhor em pessoa, assim como
não há diferença entre o Senhor e Seus santos nomes,
Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama
Rama Rama Hare Hare. Om Tat Sat.