BÍBLIA CABALÍSTICA - DEUTERONÔMIO

ENSINAMENTO DE VAETCHANAN

Pelo Rav Yehuda Berg

O Segredo de Shabat Nachamú

          A porção de Vaetchanan, que também é chamada Shabat Nachamú, é sempre lida na semana após o 9º. dia de Av. O Shabat que se segue ao 9º de Av é conhecido como o Shabat da Consolação - como se fosse possível esquecer a dor, só porque o Shabat chega! A energia de Shabat é muito poderosa, mas será que um Shabat pode nos dar o poder de esquecer todos os problemas que temos enfrentado?

Para responder a esta pergunta, devemos compreender que o poder do Lado Negativo encontra-se não somente em nos fazer duvidar, mas também em manter-nos nesta dúvida e no medo durante um dia, uma semana, um mês ou mesmo durante anos. Geralmente, quando fazemos algo de que nos arrependemos depois, nos perguntamos, "Por que fiz aquilo? Como pude fazê-lo?" Este sentimento pode permanecer conosco por toda a vida - e este é o Lado Negativo em ação!

O Shabat da Consolação não nos ensina a ignorar os eventos negativos. Sim, o Templo foi incendiado, e houve muito sofrimento. Mas devemos chorar porque não temos um Templo, ou devemos trabalhar para construir um Templo novo? Está escrito que o ódio gratuito causou a destruição do Templo. Somente o amor gratuito pode restaurá-lo; logo, precisamos e temos que nos assegurar de que o amor gratuito seja parte do trabalho espiritual.

Cada vez que um desastre nos atinge, perguntamos "Por quê?" Cada vez que fazemos algo errado, perguntamos "Como pude fazer uma coisa dessas?" Mas a chave para a nossa plenitude é fazer a pergunta: "Quando começarei a agir para tornar as coisas melhores?" Lembre-se, o poder do Lado Negativo não é somente nos fazer cair, mas também manter-nos sem esperanças de uma mudança positiva. Este Shabat, o Shabat da Consolação, nos dá o poder de levantar após a queda.



Qualquer um pode se conectar com a Árvore da Vida

          No final da Primeira Guerra Mundial, vivia na Rússia um grande sábio conhecido como Chafetz Chaim. Era o tempo da Revolução Russa, e os revolucionários haviam entrado na cidade onde o Chafetz Chaim morava. Eles logo criaram um tumulto, soltando todos os criminosos da prisão, inclusive um famoso ladrão e assassino chamado Moshe. Usando ameaças e intimidação, logo Moshe tornou-se uma pessoa poderosa na cidade. Um dia, quando o Chafetz Chaim estava caminhando com dois de seus alunos, Moshe estava vindo em sua direção. O Chafetz Chaim olhou bem para ele e disse, "Shabat Shalom, Moshe, " ao que Moshe respondeu, "Shabat Shalom, meu Mestre." O Chafetz Chaim então disse, "Talvez você queira se juntar a nós para a terceira refeição do Shabat?" Moshe respondeu, "Eu já fiz a terceira refeição," mas o Chafetz Chaim insistiu novamente dizendo, "Bem, talvez você venha conosco assim mesmo."

Então Moshe compreendeu que o Chafetz Chaim tinha algo importante a lhe revelar, e concordou em ir com eles.

Quando chegaram na casa, o Chafetz Chaim fez com que seus alunos se retirassem, para que pudesse ficar a sós com Moshe. Mas os alunos deixaram a porta entreaberta, a fim de escutar a conversa.

O Chafetz dirigiu-se ao criminoso e disse, "Moshe, quero lhe ensinar uma palavra da Torá". Moshe respondeu, "O que me importa a Torá?" Mas o Chafetz Chaim continuou, "Moshe, por favor escute. Está escrito no começo da Torá: 'E Deus plantou um jardim no Éden.' Por que Deus tinha que colocar a Árvore da Vida propositalmente no meio do Jardim? Porque se a Árvore da Vida estivesse em um canto do Jardim, a distância até a Árvore a partir de um dos lados seria maior do que de outro. Assim, Deus a colocou no meio, para que a distância até a Árvore fosse igual a partir de todos os lados."

E prosseguiu, "Depois do Shabat, estarei partindo. Você e os revolucionários prometeram dar comida e abrigo a todos nesta cidade. Mas até agora, vocês não fizeram nada a não ser causar problemas. Eu mesmo forneço alimento para 42 famílias. Quando eu me for, quem os alimentará? Foi por isso que lhe contei sobre a Árvore da Vida no Jardim, que é acessível por todos os lados no Mundo Vindouro. Se você me prometer que dará comida a todas as famílias, eu lhe prometo que você alcançará a Árvore da Vida."

Moshe respondeu, "Eu concordo, meu Mestre. Eu prometo. Negócio fechado!" Então Moshe se foi, e viu que os alunos haviam escutado o que ele dissera. Ele disse aos alunos, "Se houvesse mais mestres como ele no mundo, não precisaríamos de uma revolução!"

Isto nos ensina que literalmente qualquer um pode alcançar a Árvore da Vida, que se encontra no meio do Jardim do Éden; é um mérito que temos. O Rav, assim como o Chafetz Chaim, não se importa nem um pouco com o que uma pessoa possa ter feito no passado. O importante é como cada um de nós pode alcançar a Árvore da Vida.

Um outro tema importante

          O grande sábio Yosef Bluch uma vez escreveu uma bela alegoria: Um homem estava se aprontando para ir do Oriente Médio até a América. Naqueles dias, a viagem durava vários meses por mar, e estava previsto que o navio pararia na França por duas semanas, para se reabastecer antes de seguir viagem.

Já que o homem sabia que pararia na França, decidiu estudar francês antes de iniciar a viagem. Quando chegou o momento do navio partir, ele realmente havia conseguido aprender francês, mas não teve tempo de aprender inglês, o idioma do seu destino final. Quando o navio aportou na França, o homem desembarcou, e gozou cada minuto de sua estadia; e saber francês ajudou-o tremendamente. Depois de duas semanas, ele voltou ao navio para continuar a viagem até a América.

Quando chegou à América, tentou novamente falar francês, mas ninguém conseguia entendê-lo. Os americanos lhe disseram, "Você é um tolo! Esteve na França apenas durante duas semanas, mas o resto da sua vida você vai ficar na América. Você aprendeu francês em vez de aprender inglês, que é o idioma que vai precisar pelo resto da vida."

Esta é uma alegoria que podemos aplicar às nossas vidas como um todo. Nossa existência aqui neste mundo físico é análoga à visita do homem à França. Ficamos aqui apenas por um instante, e ainda assim trabalhamos duro para aprender o idioma. Mas o "idioma" que realmente temos que conhecer é o desejo de receber para compartilhar. Ao aprender este idioma, mereceremos ver a face do Messias - e ver também a construção do Templo ainda nos nossos dias.


SINOPSE DE VAETCHANAN

          Esta porção começa com Moisés rogando a Deus. Precisamos compreender que não estamos sós neste mundo e que precisamos pedir a ajuda a Deus. Se tivermos uma grande dádiva a caminho para nós, podemos não recebê-la se não a solicitarmos. Pedir a Deus não é algo a ser feito somente em tempos de necessidade; é uma ferramenta que devemos usar todo o tempo para nos conectar com a Luz.

Primeira Leitura - Abraão - Chessed

Vaetchanan

          Moisés roga a Deus que lhe permita entrar na terra de Israel. Há muitos ensinamentos aqui, mas um dos maiores é nunca desistir. Deus já havia dito a Moisés que ele não poderia entrar, mas Moisés continuava tentando. Nunca sabemos quantas cortinas existem a nos separar da Luz. Cada esforço que fazemos remove uma cortina, e se continuarmos tentando, aquela tentativa final pode nos levar à Luz

Hadvekim

          Os Dez Pronunciamentos são revelados nesta seção. Se vivermos em Israel, podemos segui-los todos. Quando não estamos em Israel, nosso primeiro passo deve ser nos conectarmos com estar lá. Fazemos isso através de orações e meditações. Quando nos conectamos ao Criador durante as orações e meditações, nos transportamos para Israel. Se não tivermos a consciência de estar em Israel quando rezamos, é como se não tivéssemos rezado.

Segunda Leitura - Isaac- Guevurá

Vaassítem

          Essa parte discute a diferença entre as pessoas que escutam a Torá e aquelas que não a escutam. Isto não quer dizer Israelitas versus não Israelitas. A diferença real é entre pessoas que querem se conectar com a Luz através do trabalho espiritual e da transformação, e pessoas que não querem fazê-lo. Qualquer um que se conecte com a Torá através do Zohar pode se transformar. Deus está perto de nós, mas somente podemos alcançá-Lo se chegarmos a conhecer o real significado de Deus através do Zohar.

Pen-tishcách

          A Torá nos diz que temos que nos lembrar do que aconteceu no Monte Sinai. As coisas mais importantes a serem lembradas não são os Dez Pronunciamentos em si, mas o fato de que atingimos a imortalidade, e 40 anos depois a perdemos. Temos o poder de criar e destruir nossa própria transformação. Tudo depende de nós.

Pessel

          Nesta passagem, há uma longa discussão sobre ídolos. Os ídolos na verdade simbolizam a tentação de confiar em qualquer coisa diferente da Luz. Se adoramos ídolos, podemos receber apenas a energia do ídolo que adoramos, que não é muita! De onde acreditamos que vem nossa Luz? Nossa resposta determina quanta Luz receberemos.

Met

          Conectando-nos ao nosso próprio Moisés: Moisés diz ao povo que não entrará com eles em Israel. Isto porque o povo não estava pronto para ele. Ele era muito elevado para suas consciências. Moisés estava adiante do seu tempo. As pessoas não se conectavam com ele da forma correta, e isto também é verdadeiro para o Moisés presente em cada geração. Nós nunca escutamos o que é melhor para nós. Pensamos que nosso mestre não compreende nossa pergunta quando não obtemos a resposta certa. Temos que nos conectar com nossos mestres e com a Luz, a fim de podermos ser guiados na direção correta. Temos que nos conectar com nosso próprio Moisés pessoal

Ki

          Lemos esta porção em Tishá BeAv (9º de Av) e ela se refere a exílio e retorno. Se as pessoas tivessem se corrigido instantaneamente, o Templo teria retornado, mas elas não o fizeram. Sempre que caímos, é como um novo exílio e destruição do Templo. O Templo é destruído uma vez mais a cada geração que falha em reconstruí-lo. Temos que assumir a responsabilidade pessoal de reconstruir o Templo, retornando para a Luz.

Ló Iarpecha

          Deus nunca nos abandona, mesmo quando nos sentimos totalmente sós. Ele apenas nos coloca naquela situação para que possamos aprender com ela. Devemos saber que Deus está sempre conosco. Quando acharmos que Ele não está ali, é quando Ele mais está presente.

Hashamá

          Deus sempre envia Sua voz para que a escutemos, mas geralmente não o fazemos, porque a voz do Satan é mais alta. Quanto mais perto escutamos a voz calma e suave, tanto mais chance temos de nos conectar ao Criador.

Terceira Leitura - Jacob - Tiferet

Az

          Moisés sabe que não vai entrar na terra de Israel, mas continua a auxiliar os Israelitas que irão entrar. Moisés nunca desistiu, e sempre fez o melhor que pôde. Ele se conectava com qualquer Luz que estivesse presente. Ele poderia ter desistido e deixado de ser um líder, mas ainda se importava com todos e fazia o trabalho, mesmo que não fosse beneficiar-se a si próprio através dele. Mesmo quando sabemos que não vamos nos beneficiar pessoalmente com nossas ações, ainda assim devemos colocar nelas o melhor de nós.

Quarta Leitura - Moisés - Netzach

Beozneichem

          Esta parte nos ensina a entender a Torá como se tivesse sido dada a nós pessoalmente. Cada parte fala sobre nós; fomos nós que tomamos as decisões incorretas e as corretas. Não se trata do que ocorreu há 3300 anos atrás, mas do que está ocorrendo conosco hoje. Quando lemos sobre o Bezerro de Ouro na Torá, compreendemos que se trata do nosso Bezerro de Ouro. Se surge uma história sobre alguém com ego, trata-se do nosso ego. Tudo é sobre nós, e devemos entender as mensagens que a Torá dá como se estivessem ali especialmente para nós

Os Dez Pronunciamentos são a nossa conexão com a imortalidade:

Primeiro Pronunciamento: Keter

Anochi Adonai

          Acredite na existência do Criador. Se falharmos em estabelecer uma conexão com o Criador, então caímos ao nível das multidões misturadas do mundo. O único jeito de evitar os altos e baixos da vida é trazer sempre o Criador na nossa consciência. Se vivenciamos mudanças de humor e flutuações na nossa sorte, precisamos compreender que ainda não estamos nos conectando à Luz do Criador em um nível ótimo. Verdadeira fé na existência do Criador significa trazer a Luz em todos os momentos de cada dia.

Segundo Pronunciamento: Chochmá

Ló Ihié

          Não acredite em nenhum deus sem ser o Criador. Em nossos dias, precisamos compreender que nossos ídolos são geralmente dinheiro, poder, fama, segurança, ego e mil outras falsas fontes de energia. Procurar pela Luz nessas áreas é um erro óbvio e tolo. Por que continuamos a cometer este erro?

Quarto Pronunciamento: Chessed

HaShabat

          Honre o dia de Shabat. Shabat inclui não somente nossas ações no sétimo dia, mas também a consciência que temos naquele dia. No mínimo, devemos separar cinco minutos para pensar em nossas vidas, onde nos encontramos espiritualmente, e em que precisamos trabalhar. Ou podemos optar por honrar cada preceito do Shabat naquelas 25 horas. Todos nós precisamos nos conectar com a energia de Shabat de alguma forma dentro desse espectro.

Quinto Pronunciamento: Guevurá

Kabed

          Honre seu pai e mãe. Há certas pessoas cujas dádivas jamais poderemos retribuir. O ato de trazer-nos ao mundo - não há nada que possamos vislumbrar capaz de retribuí-lo. Embora isto seja verdadeiro, não devemos simplesmente desistir de tentar retribuir. A solução é ter apreciação verdadeira. Mais importante do que tudo que possamos fazer por nossos pais, é ter apreciação pela dádiva que eles nos deram - nossa vida.

Sexto Pronunciamento - Tiferet

Ló Tirtzách

          Não cometa assassinato. Assassinato não está limitado a matar fisicamente: pode incluir destruir os outros através das nossas palavras, nossos negócios comerciais, ou qualquer forma de ato negativo.

Sétimo Pronunciamento: Netzach

Veló Tin'áf

          Não cometa adultério. Esse pronunciamento é muito importante porque refere-se a confiança, não somente entre um casal, mas também entre amigos, sócios de negócios e entre nós e Deus.

Oitavo Pronunciamento: Hod

Velo Tignóv

          Não roube. Cometemos roubo sempre que nos comportamos como se merecêssemos algo que de fato não merecemos. O roubo possui duas ramificações: primeiro, podemos subtrair um objeto físico de alguém, mas a Luz daquele objeto mantém-se com o proprietário original. Tudo o que obtemos é o aspecto físico - não a energia - do objeto. Segundo, a pessoa que rouba paga um preço tremendo. Todo ano, o sustento destinado a nós é determinado pelo Alto. Quando roubamos, estamos obtendo de forma negativa algo que teria vindo para nós de qualquer forma. Também estaremos transgredindo qualquer sustento adicional que estivesse destinado a nós, bem como Luz espiritual que teria sido nossa.

Nono Pronunciamento: Yessod

Velo-Ta'ané

          Não preste falso testemunho. Isto inclui lashon hará (fofoca, calúnia). O Zohar diz que é quase impossível arrepender-se pela má língua. Uma vez que se diz algo, aquilo nunca pode ser retirado.

Décimo Pronunciamento: Malchut

Veló Tachmód

          Não cobice. Quando queremos algo que outra pessoa possui, estamos em essência dizendo que Deus está errado, que Ele não está nos dando o que necessitamos. Quando temos essa consciência, estamos ignorando o fato de que cada pessoa tem um caminho espiritual particular com suas curvas e voltas específicas. Alguém com uma casa perfeita pode ter problemas de saúde ou problemas de relacionamento. Cada um de nós tem seu caminho espiritual particular, designado para cumprirmos nosso tikun, ou processo de correção. Quando tentamos escolher e tomar de acordo nossas próprias inclinações, não estamos permitindo que a Luz do Criador entre em nossas vidas.

                                                                                 Continuação do Artigo.
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