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“Neurônios-espelhos” podem ser a chave do aprendizado e da cultura

Recentes descobertas sobre os neurônios-espelho, um dos achados mais importantes das neurociências nos últimos tempos (alguns cientistas até ousam dizer que essas células irão fazer pela psicologia o que o DNA fez pela biologia).

Espalhados por partes fundamentais do cérebro – o córtex pré-motor e os centros para linguagem, empatia e dor – esses neurônios agem quando realizamos uma determinada ação e nos momentos em que observamos alguém realizar essa ação. Na sua forma mais básica, isso significa que ensaiamos ou imitamos mentalmente toda ação observada.

Sua ação explica, por exemplo, como aprendemos a sorrir, conversar, caminhar ou dançar. Em nível mais profundo, a revelação sugere que existe uma dinâmica biológica para a complexa troca de idéias a que chamamos “cultura”.

O neurologista e escritor Oliver Sacks conta o caso da mulher que aprendeu a se comunicar sem palavras após um derrame.

Os neurônios que podem ler mentes

Células cerebrais chamadas de espelho são capazes de analisar cenas e interpretar as intenções dos outros


Há 15 anos, num verão em Parma, na Itália, um macaco esperava em um laboratório que os pesquisadores voltassem do almoço. Delicados fios haviam sido implantados na região do seu cérebro que planeja e executa movimentos.

Todas as vezes que o macaco agarrava ou movimentava um objeto, algumas células dessa região do cérebro disparavam e um monitor registrava um som.

Um aluno de pós-graduação entrou no laboratório com uma casquinha de sorvete na mão.

O macaco olhou fixamente para ele e, em seguida, algo espantoso aconteceu: quando o estudante levou a casquinha aos lábios, o monitor soou novamente – mesmo o macaco não tendo feito nenhum movimento, apenas observado o aluno.

Os pesquisadores, chefiados por Giacomo Rizzolatti, um neurocientista da Universidade de Parma, já tinham observado esse mesmo estranho fenômeno com amendoins.

As mesmas células cerebrais disparavam quando o macaco via seres humanos ou outros macacos levarem amendoins à boca ou quando ele próprio fazia isso.

Os cientistas descobriram células acionadas quando o macaco quebrava a casca de um amendoim ou ouvia alguém fazê-lo. O mesmo ocorria com bananas, uvas passa e todo tipo de objetos.

"Demoramos anos para acreditar no que estávamos vendo", diz Rizzolatti.

O cérebro do macaco tem uma classe especial de células, os neurônios-espelho, que disparam quando o animal vê ou ouve uma ação e quando a executa por conta própria.

Mas, se essas descobertas, publicadas em 1996, surpreenderam a maioria dos cientistas, uma recente pesquisa deixou-os estupefatos.

Descobriu-se que os seres humanos têm neurônios-espelho muito mais perspicazes, flexíveis e altamente evoluídos do que os encontrados nos macacos, um fato que teria resultado na evolução de habilidades sociais mais sofisticadas nos seres humanos.

O cérebro humano tem múltiplos sistemas de neurônios-espelho especializados em executar e compreender não apenas as ações dos outros, mas suas intenções, o significado social do comportamento deles e suas emoções.

"Somos criaturas requintadamente sociais", diz Rizzolatti. "Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não pensando."

A descoberta está sacudindo várias disciplinas científicas, alterando o entendimento de cultura, empatia, filosofia, linguagem, imitação, autismo e psicoterapia. E também de fatos do cotidiano.

Os neurônios-espelho revelam como as crianças aprendem, por que as pessoas gostam de determinados tipos de esporte, dança, música e arte, por que assistir a cenas de violência na mídia pode ser danoso e por que há quem goste de pornografia.

Encontradas em várias partes do cérebro, essas células disparam em resposta a cadeias de ações relacionadas a intenções.

Algumas são acionadas quando uma pessoa estende a mão para pegar um copo ou observa alguém pegar um copo; outras disparam quando a pessoa coloca o copo sobre a mesa e outras ainda quando a pessoa estende a mão para pegar uma escova de dentes e assim por diante.

Elas reagem quando alguém chuta uma bola, vê uma bola sendo chutada e diz ou ouve a palavra "chutar".

"Quando você me vê executar uma ação, você automaticamente simula a ação no seu cérebro", diz Marco Iacoboni, neurocientista da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), que estuda o tema.

"Circuitos cerebrais o inibem de se mover, mas você entende minhas ações porque tem no seu cérebro um padrão dessa ação baseado nos seus próprios movimentos."

Em resumo, ao observar a ação de outra pessoa, conseguimos interpretar suas intenções.

"E, se você me ver emocionalmente aflito por ter perdido uma cesta, os neurônios-espelho do seu cérebro simulam minha aflição. Automaticamente, você sente empatia por mim porque, literalmente, sente o que estou sentindo."

Os neurônios-espelho parecem analisar cenas e ler mentes.

Biologia e cultura

Até então, os estudiosos vinham tratando a cultura como fundamentalmente separada da biologia.

"Mas agora vemos que os neurônios-espelho absorvem a cultura diretamente, com cada geração ensinando a próxima por meio do convívio social, imitação e observação", completa Patricia Greenfield, psicóloga da UCLA.

"Outros animais – macacos, provavelmente, e, possivelmente, elefantes, golfinhos e cães – têm neurônios-espelho rudimentares."

Toda a linguagem é baseada em neurônios-espelho, segundo Michael Arbib, neurocientista da University of Southern California. Tal sistema, encontrado na parte frontal do cérebro, contém circuitos superpostos para a língua falada e a linguagem dos sinais.

Num artigo publicado na revista Trends em Neuroscience (Tendências na Neurociência), em março de 1998, Arbib descreve como gestos de mão e movimentos complexos da língua e dos lábios usados na formação de sentenças fazem uso do mesmo mecanismo.

Alguns cientistas acreditam que o autismo pode estar relacionado a neurônios-espelho malformados.

Estudo publicado na revista “Nature Neurosciente” (janeiro) de autoria de Mirella Dapretto, neurocientista da UCLA, revela que, embora muitas pessoas autistas consigam identificar expressões emocionais, como a tristeza no rosto de outra pessoa, e até mesmo imitar olhares tristes, não percebem o significado emocional da emoção imitada.

Mesmo observando outras pessoas, não sabem como é se sentir triste, com raiva, desgostoso ou surpreso.

Os neurônios-espelhos ficam em duas
áreas do cérebro

 

1 - REGIÃO FRONTAL
É nela que as ações são planejadas, decididas e executadas. Pode abrigar os neurônios-espelhos que imitam a ação de outras pessoas, possivelmente relacionados ao aprendizado. Exemplo: a criança que aprende a escovar os dentes vendo o pai escovando

 

2 - REGIÃO PARIETOFRONTAL
Área que conjuga a tomada de decisão da região frontal com os cinco sentidos humanos. Também está relacionada às emoções. Podem estar nela os neurônios-espelhos que reagem quando uma pessoa vê uma cena de violência na televisão e se sente angustiada por isso

 

As principais áreas de estudo sobre os neurônios-espelhos

 

RESPOSTA AOS OUTROS

Ao mostrar a língua para um bebê recém-nascido, ele fará o mesmo. Seus neurônios-espelhos respondem à ação do adulto, mesmo que ele nunca tenha visto esse gesto antes.

 

 

IMITAÇÃO

Muitas das coisas que as crianças aprendem estão diretamente ligadas à observação do que os adultos fazem. Imitar é uma forma de aprendizagem. O mesmo vale quando se assiste a uma partida de um ídolo do esporte para aprimorar a técnica.

 

EMPATIA OU REJEIÇÃO?

Assistir a uma novela na televisão também ativa os neurônios-espelhos. Cenas de violência despertam reações no organismo, que é capaz de sentir o que se está vendo.

 

Os neurônios-espelhos são especializados em imitar.

Novos estudos mostram como isso afeta nosso comportamento

É difícil encontrar quem não sinta vontade de bocejar quando vê outras pessoas bocejando. Ao mostrar a língua a seu bebê, um pai o vê responder da mesma forma, ainda que ele tenha acabado de nascer. Quem assiste à televisão pode ter simpatia pelo mocinho de uma novela e ódio pelo vilão. Essas três situações podem ter a mesma origem: os neurônios-espelhos. Estudos mostram que essas células cerebrais nos levam a agir de acordo com o que os outros fazem, e não apenas com o que o próprio cérebro manda. Mais: tudo o que vemos alguém fazer, fazemos também - nem que seja apenas em nossa mente. Os neurônios-espelhos lêem a mente dos outros. E influenciam nosso comportamento a partir da leitura.

Essa função foi descoberta por acaso, há cerca de dez anos. Três cientistas italianos da Universidade de Parma conduziam um experimento com um macaco. Instalaram fios numa área de seu cérebro que é responsável pelo movimento. Sempre que o macaco pegava ou movia um objeto, determinadas células cerebrais disparavam. O monitor em que os eletrodos estavam ligados registrava a área de localização desses neurônios e emitia um sinal. Como era verão, um dia um aluno entrou no laboratório tomando um sorvete. Quando o rapaz levou a casquinha à boca, o monitor começou a apitar. Foi aí que os cientistas se espantaram: o macaco permanecia imóvel. A cena voltou a se repetir com outros alimentos, como amendoins e bananas. Portanto, a resposta de seus neurônios-espelhos só podia vir da ação de outra pessoa. Os cientistas perceberam que as células cerebrais disparavam quando o macaco via ou ouvia alguém fazer algo ou, ainda, quando ele mesmo realizava uma tarefa. Assim chegaram às primeiras conclusões sobre a capacidade dos neurônios-espelhos.

Estudos recentes têm mostrado que eles são fortemente relacionados com nossa capacidade de aprender. Além de responder a ações dos outros - daí o nome espelho -, eles podem ser a chave para descobrir como o ser humano começa a sorrir, andar, falar e até dançar. Num plano mais profundo, pode explicar a relação entre as pessoas e como as diferentes culturas são entendidas. "Compreender as intenções dos outros e ter empatia pelas emoções deles são as principais funções descobertas até o momento", disse a ÉPOCA o neurocientista Marco Iacoboni, da Universidade da Califórnia, um dos principais especialistas no assunto. Um estudo do início do ano afirma que crianças autistas têm atividade menor dos neurônios-espelhos.

"A imitação é um mecanismo-chave para o aprendizado porque ajuda a evitar o desperdício de tempo com tentativas e erros", afirma Iacoboni. Assistir a um jogo de tênis de Roger Federer, por exemplo, ajuda um jogador iniciante a aprender as "manhas" do profissional e ampliar seu leque de jogadas.

Comprovar as múltiplas atividades desses neurônios dá mais sustentação à concepção atual do funcionamento cerebral. "Foi derrubada aquela imagem do cérebro como um armário cheio de gavetinhas, em que cada parte tinha uma função", diz Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. "Hoje pensamos no cérebro com uma concepção holográfica: tudo está ligado e os neurônios exercem múltiplas funções."

Por isso, a descoberta das funções dos neurônios-espelhos vem sendo considerada um dos principais feitos da neurociência. Há cientistas que comparam o nível de importância desses estudos ao das células-tronco. Mas todos recomendam prudência diante dos resultados. "A descoberta dos neurônios-espelhos foi muito importante, mas as pessoas precisam ter em mente que eles não explicam tudo", afirma Iacoboni. "Não dá ainda para saber se, sem eles, o cérebro não faria a mesma coisa", afirma Ribeiro. O cérebro tem cerca de 100 bilhões de neurônios - dos quais apenas 5% são espelhos. Não são muitos, mas, se tudo o que se estuda sobre eles for comprovado, esses 5 bilhões respondem por muito do que somos.

 

Tabela1. O diálogo possível entre os dois ramos do conhecimento.

Filosofia (Anteriormente)

Neurociência

Mimese Platônica, Aprendizado por imitação de alguém fazendo algo. O primeiro estágio de aprendizado mostrado por Platão em sua obra a República.

Neurônios espelho, novas descobertas demonstram a especialização de neurônios em reconhecer e simular a ação alheia acredita-se que seja a base para a nossa cultura.

O Ser no Existencialismo, segundo o qual o homem primeiro “existe” para “ser”. O desenvolvimento moldaria o seu “ser”e seu “agir”, sendo o “agir” o modo do “ser”.

O sentido de “self” explicado pela neurociência poderia ser a base para explicações sobre o sentimento de existência individual.

Filosofia (Atualmente)

 Neurociência

Neurofilosofia, ramo que dentre outros assuntos aborda a base neural da moralidade.

Avanços de neuroimagem (fMRI) possibilitam determinar que áreas do cérebro estão ativas, mesmo quando indivíduos tomam decisões morais.

Searle e sua teoria da Intencionalidade, mostra o cérebro como centro produtor da mente, e por conseguinte comportamentos, que poderiam ser categorizados, se for utilizada metodologia especifica.

O percurso da neurociência demonstra a partir de estudos de danos no cérebro e sua correlação com o comportamento, o quanto o cérebro é necessário para a explicação do que é a mente.

 

Considerações finais

Podemos concluir à luz dos conhecimentos adquiridos, como do surgimento da célula até o neurônio, unidade fundamental na transmissão de informação, que os aspectos teóricos de base são imprescindíveis para a chegada de respostas às indagações como: o que é mente, dualidade corpo-mente, explicação do comportamento.

Como exemplos de novas alternativas de intercâmbio entre os ramos de conhecimento podemos citar o casal Churchland (1998; 2002), onde seus estudos em filosofia da mente aproximam dados de ponta de pesquisa tanto em neurociência quanto de ciência computacional, em prol da formulações de respostas para os já mencionados problemas.

Também devemos citar John Searle (2000), filósofo oriundo da filosofia da linguagem, que abarcou os conhecimentos propiciados pela neurociência, tentando formular hipóteses coerentes com a realidade cientifica.
Mais que necessária é a contribuição dos filósofos para as perguntas suscitadas pela neurociência e filosofia da mente, porém, pede-se àqueles que aceitem este desafio que se inteirem ao menos ao nível básico (em neurociência), para um rico dialogo interdisciplinar, fomentando discussões proveitosas entre neurocientistas e filósofos.

 

 

Resumo

O presente artigo abordará para o leitor não especializado, temas básicos concernentes à neurociência. Serão apresentados tópicos com referência ao surgimento celular e sua posterior especialização e da especialização celular ao neurônio, entidade fundamental na transmissão de informação. Serão examinados conceitos de base da neurociência para municiar filósofos e entusiastas de próprio vocabulário, sendo assim, subsidiados para posteriores elaborações de hipóteses concernentes à mente e ao comportamento.

 

Palavras-chave: neurociência, sistema nervoso, evolução, filosofia.

 
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