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CONTRIBUIÇÕES DA NEUROCIÊNCIA PARA A FILOFOSIA DA MENTE: CONCEITOS BÁSICOS PARA NÃO-CIENTISTAS

Introdução

            O presente artigo irá tratar das contribuições da neurociência para os estudos da Filosofia da Mente, mas deixamos claro que não apenas esse ramo que poderia ser beneficiado desta contribuição. Ramo recente da Filosofia, que compreende uma interrelação entre saberes das várias ciências onde interagem o cérebro e a mente (Tripicchio & Tripicchio, 2002).

            Utilizando uma concepção de história da filosofia (Padovani, 1964) podemos notar que as reflexões filosóficas estavam intimamente ligadas aos avanços científicos da época. Os filósofos antigos não deixavam de lado a ciência a seu alcance em prol de fazer as suas conjecturas. Da mesma forma que os modernos filósofos podem tirar proveito das modernas descobertas para fazer as suas conjecturas com bases sólidas.

            Não só filósofos da mente poderiam se interessar por neurociência, mas existencialistas poderiam obter subsídios para as suas categorias existenciais baseados nos estudos do “self “ ( Damásio, 2000). Até mesmo setores filosóficos que pouco se modificaram ao passar dos anos podem ser beneficiar deste intercâmbio como é o caso dos estudiosos de Platão. Platão em sua obra República vislumbra uma etapa do aprendizado vinculado a mimese, o qual seria o primeiro estágio de aprendizado, onde o sujeito repetiria uma ação ou conhecimento de outrem.  Não estaria Platão fascinado se descobrisse que a nova “onda” das pesquisas em neurociência trata dos “neurônios espelho” os quais se ativariam ao contacto com a ação alheia, sendo considerado o alicerce de nossa cultura como a vemos hoje (Ramachandran, 2000).

            Utilizaremos um expediente desenvolvido por Patricia Churchland (2002) onde ela apresenta fatos relevantes da neurociência para não neurocientistas, pontificando conceitos básicos que poderiam auxiliar filósofos em suas futuras incursões por textos neurocientíficos. No final do artigo será apresentada uma tabela conjugando os saberes da Filosofia  cotejados com os da Neurociência.

 

A evolução como pano de fundo da Mente.

No alvorecer do desenvolvimento da vida a paisagem terrestre não era tão aprazível, como podem supor teorias criacionistas (Dawkins, 2001) onde os animais apareciam tais como são hoje em dia. Mas sim era uma ambiente onde haviam extremos de temperatura e substâncias químicas consideradas hoje tóxicas. Posteriormente com o resfriamento, algumas substâncias químicas conseguiram o prodígio de se auto-replicarem e auto-organizarem, utilizando-se tão somente de fragmentos moleculares presentes em seu círculo imediato de interação (Maturana & Varela, 1994).

 Porém em tais condições o crescimento populacional destes seres seria compelido pela disponibilidade da matéria prima para a sua replicação, sendo os seres nesse período considerados os mais bem sucedidos, os quais desenvolverem formas de se protegerem de predadores externos, como também estratégias químicas para que substâncias necessárias sejam fabricadas posteriormente no interior do ser, sem que seja preciso uma exposição demasiadamente desnecessária (El- Hani & Videira, 2000).

A resposta dada pela evolução a estes problemas foi o surgimento da célula, este novo ser é dotado de membranas protetoras os quais guarnecem suas miríades de organelas especializadas atuando em complexas reações metabólicas no seu interior, transformando estruturas moleculares externas em substâncias mais simples no seu  interior .

Num lugar privilegiado no interior desta célula encontra-se o ácido nucléico DNA, em algumas células de bactérias ele encontrava-se, e ainda se encontra, disperso, são chamadas tais células, os procariontes, já as células com uma segunda membrana protetora do DNA no interior do núcleo chamam-se eucariontes. Nós somos uma construção sofisticada destas células eucariontes é a vida como conhecemos, com a célula dominando todos os redutos do planeta, muitas vezes até em vulcões, uma exceção a sua supremacia é o vírus, que pode ser de DNA ou RNA, sendo ele apenas um parasita, desvinculado  da  discussão presente. Assim podemos dizer que a célula é um organismo, autônomo e auto-replicante, sendo só necessário para a sua manutenção energia do mundo exterior, que a célula ira usar para desenvolver o seu metabolismo interno, desconstruindo ou construindo substâncias no seu âmago (Loewestein,1999).

Seres pluricelulares, e a inteligência gerada da especialização.

Poderemos avançar alguns bilhões de anos, nesse estágio inicial estamos em uma escala de 4 a 3 bilhões de anos, vamos agora para 1 bilhão de anos atrás, na ocasião do surgimento dos primeiros seres multicelulares, e isto é decisivo para entendermos o surgimento posterior da consciência como a conhecemos, pois a inteligência consciente deve ser tratada como um fenômeno evolutivo baseando-se na teoria biológica geral (Searle, 2000).

A inteligência como tratamos hoje, por indução, deve um mínimo de complexidade, e este mínimo de complexidade estamos intuindo que sejam o das células multicelulares. O principal motivo das células multicelulares serem melhor sucedidas, no que concerne a inteligência, é que elas tem a propriedade de se especializarem. Algumas delas podem forrar o interior dos seres propiciando uma cavidade para a digestão, outras podem desenvolver uma parede externa para a proteção das demais células. Tais células assim protegidas da adversidade poderiam se especializar no papel de sensoras, ou motoras, como digestivas, e de defesa. O resultado de tão proveitosa associação pode ser uma melhor possibilidade de replicarem-se e quando isto sucede seus sucessores serão hegemônicos, transferindo para a posteridade, dinâmicas bem evoluidas do ponto de vista da história natural.(Kauffman, 1995).

Primórdios da comunicação.

Porém estas várias células especializadas necessitam de um terceiro tipo, que proporcionasse a comunicação entre elas,  pois, de nada adiantaria termos músculos contraindo e expandindo a esmo, sem uma razão associada a outras células do organismo. Os organismos por si só conseguem se comunicar quimicamente, no seu interior aquoso, porém mensagem químicas desse estilo são muito demoradas, sendo arriscado apoiarem-se em mensagens químicas do estilo utilizada no crescimento para ativar a fuga de predadores, por exemplo.

Nas próprias células podemos verificar um indício primitivo de como essa comunicação poderia surgir. Toda célula possui uma pequena variação de voltagem de caráter iônico, chamada polarização, concernente as suas membranas internas e externas. Algum evento qualquer pode desencadear na célula uma resposta de despolarização, que converterá esse estímulo, transformado em impulso elétrico, por toda a superfície da membrana, voltando imediatamente, para o ponto anterior polarizado.

Levando-se em conta esse fato, e outra particularidade anatômica das células, que pela especialização podem diferir-se das demais num formato alongado, temos então o desenvolvimento de células especializadas em comunicar-se com outras células, e que podem as vezes serem alongadas, como um cabo, tendo algumas um metro de comprimento, tais células agora podem ser chamadas de células nervos (Galambos,1965).

Não podemos acreditar que tais sistema de comunicação são simplesmente “miraculosos”, mas sim que a possibilidade de tê-los e que uma eventual mutação pode tratar de expandir as suas características eventuais, mas bem sucedidas , para a posteridade, para explicar tal fato usaremos uma analogia de Paul Churchland (1998), no seu livro “Matéria e Consciência”. Ele desenvolve uma analogia sobre um molusco, particularmente “sortudo”, que por uma fortuita obra do destino dispunha de uma célula a mais no seu aparato sensório-motor. Pois bem, aparentemente aquela célula não tinha muita serventia, pois este molusco tinha células suficientes para alertarem-no da presença de alimento e de predadores, as células em questão é um conjunto de células fotossensíveis na parte posterior da cabeça.

Porém, por acaso, este grupo de células especializadas fazia com que o molusco se contraísse para o interior de sua concha, quando na mudança de luminosidade, isto acontecia precisamente todas às vezes que um predador chegava para atacá-lo. Esta característica tornou-o menos sujeito a ser uma presa, tendo mais possibilidade de produzir descendentes, e estes descendentes outros, com esta característica, inicialmente mutante, sensível à luz.

Levando-se em conta esta mutação, outras poderiam suceder-se da mesma forma, este mesmo grupo de células foto-sensoras poderia desenvolver uma cavidade hemisférica, podendo oferecer uma informação direcionada com respeito ao estímulo luminoso, propiciando assim a possibilidade de uma resposta condizente motora em tal direção. Tal propriedade seria sumamente importante nos seres multicelulares, tanto nas presas quanto para predadores.

Conforme uma boa disseminação desta tal cavidade hemisférica, poderíamos supor, também, por uma casualidade genética o surgimento de uma cavidade curvada, tornando-se esférica com apenas um pequeno orifício exterior. Esse orifício traria de forma tênue uma imagem do mundo exterior, num primeiro momento outras células transparentes poderão vir a ser um suporte para a proteção desta cavidade, terminando por oferecerem uma lente, na tentativa de propiciar imagens de melhor qualidade.

Ao longo do tempo um aumento da quantidade dos circuitos neurais nessa região seria responsável por uma melhor aquisição de informações desta retina primitiva. Olhando esses estágios, Churchland (1998) adverte que aparentemente eles possam parecer mera especulação, podendo ser desmentido levando-se em conta que temos seres em abundância no reino animal demonstrando cada um desses estágios.

Seguindo adiante, levando em conta as particularidades destas células sensório-motoras podemos começar a descrever os vertebrados primitivos. Eles possuíam um conjunto de estruturas chamado gânglio (coleção de neurônios) , que mantinha uma posição central, passando pelo interior da coluna vertebral, alongando-se , conectando a sua passagem ao resto do corpo por meio de dois conjuntos de fibras distintos. São as chamadas fibras somato-sensoriais, fibras motoras , as fibras somato-sensoras mandavam os sinais para a medula central, enquanto as fibras motoras disparam comandos da medula central para os tecidos musculares presentes no animal.

A medula espinhal tinha o papel de coordenação dos estímulos destas duas fibras distintas, modular o comportamento do animal na ocasião de fome (dorsais), para que ele dispusesse de respostas motoras (ventrais) para a concretização da ação, no intuito de aproximar o animal para alguma reserva alimentícia especifica, ou para fazer com que o organismo fuja (ventral) de um possível predador localizado nas redondezas (dorsal). Estas regiões referidas são as áreas onde as fibras estão mais concentradas na medula espinhal, no caso as fibras somato-sensórias são localizadas na região dorsal, enquanto as motoras na região ventral. Posteriormente podemos descrever seres mais complexos , que tenderam a desenvolver 3 partes adicionais neste gânglio nervoso, este novo complexo foi chamado de cérebro primitivo ou tronco cerebral. Ele é divido em cérebro anterior, mesencéfalo, e cérebro posterior, é verificado, sobretudo nos peixes. (Kolb & Wishaw, 2002)

Estas áreas teriam em razão de sua maior complexidade e especialização, as responsáveis pela olfação, audição e coordenação das atividades motoras, pela ordem o cérebro anterior seria o responsável pela olfação, o mesencéfalo pela audição, e o cérebro posterior pela coordenação motora, os peixes teriam dado preferência como estrutura dominante o mesencéfalo.

Continuando a nossa passagem pelo hall da evolução cerebral, nos deparamos com os répteis e anfíbios. Estes deram supremacia, pela interação com o ambiente, para o cérebro anterior, dotando-o não apenas de capacidade olfativa, mas também com a possibilidade de processamento de todas as modalidades sensoriais.(Bullock et al., 1977)

Os mamíferos também continuaram nessa trajetória de desenvolvimento específico do cérebro anterior, dispondo além de sua maior complexidade de duas estruturas novas, uma é o cérebro anterior dividido agora em 2 hemisférios, e o cerebelo, desenvolvendo-se no antes chamado cérebro posterior. Os hemisférios cerebrais eram dotados de várias áreas especializadas com a chamada tomada inicial do comportamento, ou seja um inicio de resposta mais sucinto e complexo devido as ocorrências externas captadas pelo animal. O cerebelo era responsável pela coordenação dos movimentos em consonância com outros objetos ou seres, dotando a possibilidade do animal gerar uma resposta devida a um movimento externo a ele. A quantidades das células proporcionadas por esse “boom” de complexidade chegava a ser 6 vezes maior se comparado com os répteis, células estas naturalmente as  nervosas( Shepherd, 1983).

Porém, nos mamíferos estas novas estruturas não se distinguiam sobremaneira com respeito a suas contrapartes menores como o tronco cerebral, por exemplo. Nos primatas, a um olhar casual, poderemos notar que o cérebro anterior teria realmente a primazia de volume, com respeito ao total das células nervosas especializadas. Mas, somente nos seres humanos é possível afirmar que o cérebro anterior possui um tamanho desproporcional com respeito ao tronco cerebral, sendo ele mal visível. Não podemos deixar de suspeitar que a especialização do cérebro anterior poderia ser fatídico na questão de uma maior possibilidade adaptativa conforme a especialização das células, da chamada inteligência na evolução da história natural.

 

O Neurônio, a unidade básica da mente.

A unidade básica, pertinente para nossos estudos, será considerada como o neurônio. Ele é formado por dendrito, soma, axônio, e prolongamentos terminais. O axônio seria a parte mais alongada do neurônio, coberto por bainha de gordura, chamada mielina, seu comprimento às vezes pode chegar a um metro de comprimento. As fibras terminais, juntamento com seus botões pré-sinápticos, são as responsáveis pela ligação de um neurônio com outro, eles podem se conectar pelos dendritos e os axônios, ou com o soma, de outro neurônio. Muitas vezes essas conexões podem representar um número elevado, tais conexões entre axônios e dendritos, ou somas, é chamado de sinapse. Entre o elemento pré-sináptico e o pós-sináptico está a fenda sináptica.( Levitam & Kaczmarek,1997; Lent, 2001).

Tais conexões são mediadas por neurotransmissores, um certo potencial passa pelo axônio excitando-se os botões pré-sinápticos, que a partir de então liberam tais substâncias químicas.  Dependendo da resposta química oferecida pela sua contraparte conectada pode ser classificado como sendo uma sinapse inibitória ou uma sinapse excitatória. Tais tipos de sinapses são importantes para representar como a dinâmica do cérebro pode relacionar tais eventos na formação de um padrão continuo que forma-se na conjunção de milhares de neurônios juntos, uns excitando-se entre si, e outros se inibindo. Esse padrão pode ser descrito como uma corrente elétrica iônica, de até 100 pulsos, ou hertz, de freqüência, pois a cada polarização ou despolarização o neurônio volta a seu estágio inicial, ligeiramente negativo no seu interior, o potencial de membrana ou repouso. (Kandel et al., 2000).


A circulação da informação codificada

Agora já sabemos que as áreas do cérebro são formadas por neurônios que transferem informações entre si, tais áreas, no seu conjunto, também se destacavam por serem especializadas, algumas áreas especializaram-se no tratamento das imagens, outras da audição, outras da ação das vísceras. Tais explicações sobre cada área já é amplamente investigada e há várias informações técnicas sobre o assunto. Porém, o que deve ficar claro é que a pesquisa da neurociência especializa-se na tentativa de detecção de minúcias funcionais correspondentes as atividades cerebrais, a consciência ou, problema/mente corpo seria apenas algo a ser resolvido no âmbito da correlação dos estados fisiológicos dos neurônios, ou conjunto deles, com o comportamento manifesto do indivíduo. Em muitas áreas este tipo de correlação mostra-se promissora, como é o caso dos indivíduos com algum trauma cerebral (Luria,1973). Tais pacientes viram as suas capacidades mentais se deteriorarem, se não fosse a pesquisa da neurociência nunca poderíamos oferecer tratamentos para tais pessoas, ou ao menos entendê-las. Como é o caso dos mentalmente enfermos numa época pré-científica, que muito provavelmente sofriam de danos físicos no cérebro, sendo considerados culpados de certa forma até moralmente por algo livre do controle próprio do indivíduo. Se tivéssemos adentrado no progresso visto hoje, muitos deles teriam um tratamento eficiente de diagnóstico e possivelmente uma terapia adequada (Guimarães,1998)

 
Será apresentada (tabela 1.) as correlações entre os tópicos filosóficos e os da neurociência. Muito dos conceitos apresentados, como os das fibras sensoriais e origem da vida, servem de base para posteriores hipóteses, sendo assim, serão mostradas apenas as hipóteses já prontas e sua correlação com a  neurociência.

 

 

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