O nirvana é a mais sublime de todas as felicidades porque é
duradouro — independe das coisas externas — e está completamente além das delusões
— ignorância, apego e a aversão. O nirvana também não é uma espécie de fuga para um "paraíso" ou "existência espiritual"
absoluta porque está além dos extremos do "existir",
"não-existir", "existir e não-existir" ou "nem
existir nem não-existir". Diferente dos fenômenos condicionados, o nirvana
está além da impermanência e do sofrimento porque é um estado
não-criado, incondicionado, imortal. Portanto, as duas primeiras marcas — impermanência e sofrimento — não se aplicam ao nirvana; apenas a terceira
marca — o não-eu ou vacuidade — pode ser aplicada ao nirvana.
Quem está apegado não está liberto. Quem não está apegado está liberto.
(Upaya Sutta, Samyutta Nikaya
XXII.53)
A saúde é o melhor dos
ganhos, o contentamento é a maior riqueza, a confiança é o melhor dos
parentes, o nirvana é a mais elevada felicidade.
(Dhammapada
204)
Isto é paz, isto é
sublime, a saber: a tranqüilização de tudo o que é condicionado, o
abandono de todo o substrato da existência, a destruição da sede do
desejo, o desmanchamento da paixão, a extinção da insatisfação, a
serenidade.
(Upasamanussati, citado no Livro
das Devoções)
Existe aquela esfera em que não há nem terra, nem água, nem fogo, nem ar; nem a esfera do espaço infinito, nem a esfera da consciência infinita, nem a esfera do nada, nem a esfera da nem percepção, nem não percepção; nem este mundo, nem o próximo mundo, nem sol, nem lua. E lá, eu digo, não há vir, nem ir, nem permanência; nem desaparecimento nem surgimento: não estabelecido, não desenvolvendo, sem suporte [objeto mental]. Isso, justamente isso, é o fim do sofrimento.
(Nibbana Sutta, Udana
VIII.1)
O Iluminado disse, "Todos os Buddhas dizem que o nirvana é a coisa suprema." Coisa suprema significa "o bem maior e derradeiro para a humanidade". Na linguagem universal da ética, isso é conhecido pelo termo latino
summum bonum, o bem supremo, a coisa melhor e mais alta a ser atingida por um ser humano nesta própria vida. Os alunos de buddhismo concordam que se há um
summum bonum no buddhismo, então, isso é o próprio nirvana.
(Achaan Buddhadasa,
48 Respostas sobre Buddhismo)
Nirvana tem sido traduzido
como "ausência de qualquer instrumento de tormento". Usada de
outro modo, ela significa "extinção sem remanescente". Assim, a
palavra nirvana tem dois significados muito importantes; primeiro, a
ausência de qualquer fonte de tormento e irritação, liberdade de todas
as formas de escravidão e restrição; e segundo, extinção, sem
combustível para novos surgimentos do sofrimento. A combinação desses
significados indica a condição de completa libertação do sofrimento.
Existem vários outros significados utilizados para a palavra nirvana. Ela
pode ser usada para significar a extinção do sofrimento ou a completa
eliminação das impurezas; ou estado, situação, reino ou condição que
é a cessação de todo sofrimento, todas as impurezas e toda atividade do
karma.
(Achaan
Buddhadasa, A Causa do Sofrimento na Perspectiva Buddhista)
Três tipos de felicidade são
encontrados no nirvana. Eles podem ser considerados como aspetos diferentes da
alegria que surge devido ao fim do sofrimento, a total cessação da dor. [...]
A primeira delas é a culminação da felicidade do insight, da sabedoria, da
visão clara, chamada de consciência do caminho. [...] Imediatamente em
seguida a esse vem o segundo tipo de felicidade do nirvana chamado de
consciência do usufruto. [...] O estado de usufruto é a experiência da paz
do nirvana. [...] O mais elevado tipo de experiência do nirvana é chamado parinirvana:
o estado em que um ser plenamente iluminado morre. Não haverá mais
renascimento.
(Joseph Goldstein, A Experiência do Insight)
Nirvana significa extinção,
acima de tudo a extinção de idéias — das idéias de nascimento e
morte, existência e não-existência, ir e vir, eu e outro, um e muitos.
Todas estas idéias nos fazem sofrer. Temos medo da morte porque a ignorância
nos dá uma idéia ilusória do que a morte é. Somos perturbados pelas idéias
de existência e não-existência porque não entendemos a natureza
verdadeira da impermanência e do não-eu. Estamos preocupados com o nosso
futuro mas falhamos em nos preocupar com o futuro dos outros, porque
pensamos que nossa felicidade não tem nada a ver com a felicidade dos
outros. A fim de extinguir estas idéias, nós temos que praticar. O
nirvana é um leque que nos ajuda a extinguir o fogo de todas as nossas idéias,
incluindo as idéias de permanência e de um eu. Esse leque é a nossa prática
de olhar profundamente a cada dia.
(Thich Nhat
Hanh, The Heart of the Buddha's Teaching)
No buddhismo, a verdadeira felicidade recebe vários nomes:
nirvana, paraíso, adquirir a tranqüilidade da mente, renascer na terra pura.
São expressões diferentes, mas que almejam dizer a mesma coisa: que as
pessoas aspiram à felicidade. A grande diferença entre as idéias buddhistas
e nossas idéias comuns sobre como atingir a felicidade está no conteúdo e na
direção a tomar. [...] Enquanto
buscarmos fora de nós a felicidade, o nirvana, a tranqüilidade, o paraíso ou
Buddha, não poderemos nunca encontrá-los. Apenas olhando para dentro de nós
mesmos poderemos agrupar a sabedoria e os talentos de que já somos dotados.
(Shundo Aoyama Rôshi, Para Uma Pessoa
Bonita)
[O] nirvana é alcançado através dos três treinamentos citados: ética, sabedoria e meditação. O nirvana é duplo: aquele que não possui remanescentes (sânsc.
niravashesha) e aquele que possui remanescentes (sânsc. savashesha). O primeiro é chamado paz porque houve cessação de todos
os agregados impuros. O segundo é chamado aquietamento porque consiste no
aquietamento das faculdades. Como ambos são isentos da turvação das aflições mentais, são imaculados. A pessoa se torna eterna porque o processo de envelhecimento deixa de ocorrer, e "imortal" porque sua força vital
não mais fica sujeita a alterações. O nirvana é eterno porque, por todo o
sempre, é interminável.
(Rendawa Shönnu Lodrö,
Sphutartha)
[O nirvana é] descobrir o conhecimento
último de si mesmo. O objetivo não é sair do mundo; é deixar
de estar subjugado por ele. O mundo não é mau em si, a nossa maneira de
o perceber é que é errada. Um mestre buddhista disse: "Não são as
aparências que te prendem, é o seu apego às aparências." [...] O objetivo do buddhismo
visa a compreensão última do mundo fenomenal, tanto exterior como
interior. Subtrair-se à realidade não resolve nada. O nirvana é
exatamente o oposto da indiferença para com o mundo; é ter compaixão e
amor infinito pela totalidade dos seres. Uma compaixão possante, porque
nasce da sabedoria, da compreensão de que cada ser possui intrinsecamente
a natureza de Buddha, e porque esta compaixão não se limita a alguns
seres, como é o caso do amor no seu sentido habitual. A única coisa de
que nos separamos é do apego pueril e egocêntrico aos infindáveis fascínios
dos prazeres, da posse, reputação etc. [...] [A] finalidade é deixar de
estar sujeito ao mundo dos sentidos, de não sofrer mais essa sujeição,
como uma borboleta que, atraída pela chama, mergulha nela e morre. Na
verdade, aquele que está livre de todo o apego pode usufruir da beleza do
mundo e dos seres, e regressar ao próprio seio deste mundo, sem ser o
joguete das emoções negativas, e aí desenvolver uma compaixão
ilimitada.
(Citado por
Matthieu Ricard em Le Moine et le Philosophe)
Nas escrituras, a liberação é caracterizada em termos de quatro características. A primeira característica descreve-a como a verdadeira cessação do continuum de aflições. De acordo com a segunda característica, a liberação é a verdadeira paz, o estado de total tranqüilidade onde o
indivíduo atingiu completa liberdade de todas as máculas da mente. É descrita na terceira característica como totalmente
satisfatória porque alcança-se a satisfação última. Quarta, é descrita como a
emergência definitiva, no sentido de que se emergiu definitivamente do processo da existência não-iluminada.
(Dalai Lama, Book of
Awakening)
As pessoas têm a impressão
de que a cessação [do sofrimento] ou o nirvana é o nada e de que todos
os sentimentos, a consciência e as coisas acabam no vazio, que não resta
nada. Isso é errado. Na verdade, o nirvana é o estado completamente
purificado da mente. Ele é a natureza da mente que removeu todas as emoções
aflitivas. É nossa responsabilidade sentir que "Sim, existe um meio
e algo que vale a pena alcançar." Portanto, deveríamos tentar
investigar a natureza sofredora e, nos frustrando com ela, devíamos
desenvolver o sentimento de renúncia para atingir o nirvana, que é a
libertação permanente. Pensar apenas nas duas primeiras nobres verdades
[do sofrimento e da causa] sem pensar nas últimas duas [da cessação e
do caminho] não serve a nenhum propósito. Se pensarem apenas nas duas
primeiras Verdades, às vezes, as pessoas podem ser intolerantes com a
passividade, a inatividade e o pessimismo dos praticantes. Por isso, tente
alcançar um equilíbrio e compreender tanto as duas Verdades negativas
quando as duas positivas. Você então vai ter um propósito ou um
objetivo claro, e vai compreender e perceber melhor a natureza delas.
(Dalai Lama,
Amor, Verdade, Felicidade)
[H]á não muito tempo eu
estava falando a uma platéia indiana em Rajpur. Mencionei que o
propósito da vida era a felicidade, e alguém da platéia disse que
Rajneesh [Osho] ensina que nossos momentos mais felizes ocorrem durante a
atividade sexual e que, logo, é através do sexo que podemos nos tornar
mais felizes. Ele queria saber o que eu achava da idéia. Respondi que, do
meu ponto de vista, a maior felicidade é a de quando se atinge o estágio
de liberação [nirvana], no qual não mais existe sofrimento. Essa é a
felicidade genuína, duradoura. A verdadeira felicidade está mais
relacionada à mente e ao coração. A felicidade que depende
principalmente do prazer é instável. Um dia, ela está ali; no dia
seguinte, pode não estar.
(Dalai Lama,
citado em A Arte da Felicidade)