IV. Epílogo: Liberação, libertação, paz, quietude, extinção do sofrimento, cessação do sofrimento
(sânsc. nirvana, páli nibbana)

Muitos autores afirmam erroneamente que o buddhismo é pessimista e que enfatiza apenas a dor e o sofrimento. Entretanto, é muito importante lembrar que o Buddha ensinou detalhadamente a nobre senda óctupla que conduz à paz do nirvana. Ao contrário do que muitos afirmam, a serenidade e quietude do nirvana não são um "nada", um "aniquilamento" nem um "niilismo", mas sim o estado de liberação (sânsc. moksha, páli mokkha), a completa cessação do sofrimento. Quando atingido durante a vida, este estado é chamado liberação com remanescentes (sânsc. niravashesha nirvana). Quando atingido na hora da morte, é chamado liberação sem renascentes (sânsc. savashesha nirvana).

A tradição Mahayana também fala da liberação da não-permanência (sânsc. apratishthita nirvana), na qual um bodhisattva — um ser de grande sabedoria e compaixão —, por causa da grande sabedoria, não permanece no sofrimento do samsara; e por causa da grande compaixão, também não permanece na paz infinita do nirvana. Apesar de sua mente estar desfrutando o estado imaulado e bem-aventurado do nirvana, o bodhisattva seria capaz de se manifestar no samsara a fim de beneficiar os seres sencientes que ainda estão sofrendo.

O nirvana é a mais sublime de todas as felicidades porque é duradouro — independe das coisas externas — e está completamente além das delusões — ignorância, apego e a aversão. O nirvana também não é uma espécie de fuga para um "paraíso" ou "existência espiritual" absoluta porque está além dos extremos do "existir", "não-existir", "existir e não-existir" ou "nem existir nem não-existir". Diferente dos fenômenos condicionados, o nirvana está além da impermanência e do sofrimento porque é um estado não-criado, incondicionado, imortal. Portanto, as duas primeiras marcas — impermanência e sofrimento — não se aplicam ao nirvana; apenas a terceira marca — o não-eu ou vacuidade — pode ser aplicada ao nirvana.

Quem está apegado não está liberto. Quem não está apegado está liberto.

(Upaya Sutta, Samyutta Nikaya XXII.53)

A saúde é o melhor dos ganhos, o contentamento é a maior riqueza, a confiança é o melhor dos parentes, o nirvana é a mais elevada felicidade.

(Dhammapada 204)

Isto é paz, isto é sublime, a saber: a tranqüilização de tudo o que é condicionado, o abandono de todo o substrato da existência, a destruição da sede do desejo, o desmanchamento da paixão, a extinção da insatisfação, a serenidade.

(Upasamanussati, citado no Livro das Devoções)

Existe aquela esfera em que não há nem terra, nem água, nem fogo, nem ar; nem a esfera do espaço infinito, nem a esfera da consciência infinita, nem a esfera do nada, nem a esfera da nem percepção, nem não percepção; nem este mundo, nem o próximo mundo, nem sol, nem lua. E lá, eu digo, não há vir, nem ir, nem permanência; nem desaparecimento nem surgimento: não estabelecido, não desenvolvendo, sem suporte [objeto mental]. Isso, justamente isso, é o fim do sofrimento.

(Nibbana Sutta, Udana VIII.1)

O Iluminado disse, "Todos os Buddhas dizem que o nirvana é a coisa suprema." Coisa suprema significa "o bem maior e derradeiro para a humanidade". Na linguagem universal da ética, isso é conhecido pelo termo latino summum bonum, o bem supremo, a coisa melhor e mais alta a ser atingida por um ser humano nesta própria vida. Os alunos de buddhismo concordam que se há um summum bonum no buddhismo, então, isso é o próprio nirvana.

(Achaan Buddhadasa, 48 Respostas sobre Buddhismo)

Nirvana tem sido traduzido como "ausência de qualquer instrumento de tormento". Usada de outro modo, ela significa "extinção sem remanescente". Assim, a palavra nirvana tem dois significados muito importantes; primeiro, a ausência de qualquer fonte de tormento e irritação, liberdade de todas as formas de escravidão e restrição; e segundo, extinção, sem combustível para novos surgimentos do sofrimento. A combinação desses significados indica a condição de completa libertação do sofrimento. Existem vários outros significados utilizados para a palavra nirvana. Ela pode ser usada para significar a extinção do sofrimento ou a completa eliminação das impurezas; ou estado, situação, reino ou condição que é a cessação de todo sofrimento, todas as impurezas e toda atividade do karma.

(Achaan Buddhadasa, A Causa do Sofrimento na Perspectiva Buddhista)

Três tipos de felicidade são encontrados no nirvana. Eles podem ser considerados como aspetos diferentes da alegria que surge devido ao fim do sofrimento, a total cessação da dor. [...] A primeira delas é a culminação da felicidade do insight, da sabedoria, da visão clara, chamada de consciência do caminho. [...] Imediatamente em seguida a esse vem o segundo tipo de felicidade do nirvana chamado de consciência do usufruto. [...] O estado de usufruto é a experiência da paz do nirvana. [...] O mais elevado tipo de experiência do nirvana é chamado parinirvana: o estado em que um ser plenamente iluminado morre. Não haverá mais renascimento.

(Joseph Goldstein, A Experiência do Insight)

Nirvana significa extinção, acima de tudo a extinção de idéias — das idéias de nascimento e morte, existência e não-existência, ir e vir, eu e outro, um e muitos. Todas estas idéias nos fazem sofrer. Temos medo da morte porque a ignorância nos dá uma idéia ilusória do que a morte é. Somos perturbados pelas idéias de existência e não-existência porque não entendemos a natureza verdadeira da impermanência e do não-eu. Estamos preocupados com o nosso futuro mas falhamos em nos preocupar com o futuro dos outros, porque pensamos que nossa felicidade não tem nada a ver com a felicidade dos outros. A fim de extinguir estas idéias, nós temos que praticar. O nirvana é um leque que nos ajuda a extinguir o fogo de todas as nossas idéias, incluindo as idéias de permanência e de um eu. Esse leque é a nossa prática de olhar profundamente a cada dia.

(Thich Nhat Hanh, The Heart of the Buddha's Teaching)

No buddhismo, a verdadeira felicidade recebe vários nomes: nirvana, paraíso, adquirir a tranqüilidade da mente, renascer na terra pura. São expressões diferentes, mas que almejam dizer a mesma coisa: que as pessoas aspiram à felicidade. A grande diferença entre as idéias buddhistas e nossas idéias comuns sobre como atingir a felicidade está no conteúdo e na direção a tomar. [...] Enquanto buscarmos fora de nós a felicidade, o nirvana, a tranqüilidade, o paraíso ou Buddha, não poderemos nunca encontrá-los. Apenas olhando para dentro de nós mesmos poderemos agrupar a sabedoria e os talentos de que já somos dotados.

(Shundo Aoyama Rôshi, Para Uma Pessoa Bonita)

[O] nirvana é alcançado através dos três treinamentos citados: ética, sabedoria e meditação. O nirvana é duplo: aquele que não possui remanescentes (sânsc. niravashesha) e aquele que possui remanescentes (sânsc. savashesha). O primeiro é chamado paz porque houve cessação de todos os agregados impuros. O segundo é chamado aquietamento porque consiste no aquietamento das faculdades. Como ambos são isentos da turvação das aflições mentais, são imaculados. A pessoa se torna eterna porque o processo de envelhecimento deixa de ocorrer, e "imortal" porque sua força vital não mais fica sujeita a alterações. O nirvana é eterno porque, por todo o sempre, é interminável.

(Rendawa Shönnu Lodrö, Sphutartha)

[O nirvana é] descobrir o conhecimento último de si mesmo. O objetivo não é sair do mundo; é deixar de estar subjugado por ele. O mundo não é mau em si, a nossa maneira de o perceber é que é errada. Um mestre buddhista disse: "Não são as aparências que te prendem, é o seu apego às aparências." [...] O objetivo do buddhismo visa a compreensão última do mundo fenomenal, tanto exterior como interior. Subtrair-se à realidade não resolve nada. O nirvana é exatamente o oposto da indiferença para com o mundo; é ter compaixão e amor infinito pela totalidade dos seres. Uma compaixão possante, porque nasce da sabedoria, da compreensão de que cada ser possui intrinsecamente a natureza de Buddha, e porque esta compaixão não se limita a alguns seres, como é o caso do amor no seu sentido habitual. A única coisa de que nos separamos é do apego pueril e egocêntrico aos infindáveis fascínios dos prazeres, da posse, reputação etc. [...] [A] finalidade é deixar de estar sujeito ao mundo dos sentidos, de não sofrer mais essa sujeição, como uma borboleta que, atraída pela chama, mergulha nela e morre. Na verdade, aquele que está livre de todo o apego pode usufruir da beleza do mundo e dos seres, e regressar ao próprio seio deste mundo, sem ser o joguete das emoções negativas, e aí desenvolver uma compaixão ilimitada.

(Citado por Matthieu Ricard em Le Moine et le Philosophe)

Nas escrituras, a liberação é caracterizada em termos de quatro características. A primeira característica descreve-a como a verdadeira cessação do continuum de aflições. De acordo com a segunda característica, a liberação é a verdadeira paz, o estado de total tranqüilidade onde o indivíduo atingiu completa liberdade de todas as máculas da mente. É descrita na terceira característica como totalmente satisfatória porque alcança-se a satisfação última. Quarta, é descrita como a emergência definitiva, no sentido de que se emergiu definitivamente do processo da existência não-iluminada.

(Dalai Lama, Book of Awakening)

As pessoas têm a impressão de que a cessação [do sofrimento] ou o nirvana é o nada e de que todos os sentimentos, a consciência e as coisas acabam no vazio, que não resta nada. Isso é errado. Na verdade, o nirvana é o estado completamente purificado da mente. Ele é a natureza da mente que removeu todas as emoções aflitivas. É nossa responsabilidade sentir que "Sim, existe um meio e algo que vale a pena alcançar." Portanto, deveríamos tentar investigar a natureza sofredora e, nos frustrando com ela, devíamos desenvolver o sentimento de renúncia para atingir o nirvana, que é a libertação permanente. Pensar apenas nas duas primeiras nobres verdades [do sofrimento e da causa] sem pensar nas últimas duas [da cessação e do caminho] não serve a nenhum propósito. Se pensarem apenas nas duas primeiras Verdades, às vezes, as pessoas podem ser intolerantes com a passividade, a inatividade e o pessimismo dos praticantes. Por isso, tente alcançar um equilíbrio e compreender tanto as duas Verdades negativas quando as duas positivas. Você então vai ter um propósito ou um objetivo claro, e vai compreender e perceber melhor a natureza delas.

(Dalai Lama, Amor, Verdade, Felicidade)

[H]á não muito tempo eu estava falando a uma platéia indiana em Rajpur. Mencionei que o propósito da vida era a felicidade, e alguém da platéia disse que Rajneesh [Osho] ensina que nossos momentos mais felizes ocorrem durante a atividade sexual e que, logo, é através do sexo que podemos nos tornar mais felizes. Ele queria saber o que eu achava da idéia. Respondi que, do meu ponto de vista, a maior felicidade é a de quando se atinge o estágio de liberação [nirvana], no qual não mais existe sofrimento. Essa é a felicidade genuína, duradoura. A verdadeira felicidade está mais relacionada à mente e ao coração. A felicidade que depende principalmente do prazer é instável. Um dia, ela está ali; no dia seguinte, pode não estar.

(Dalai Lama, citado em A Arte da Felicidade)

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