III. Não-eu, não-ego, vazio, vacuidade ou insubstancialidade
(sânsc. anatman, páli anatta)

Esta marca procura superar a instintiva ilusão de que possuímos uma auto-natureza, um eu ou ego (sânsc. atman, páli atta). De acordo com a filosofia hindu, esse "eu verdadeiro" seria uma entidade pessoal intrínseca, imutável, independente, atemporal e indestrutível. Porém, o Buddha descobriu que essa individualidade não existe de forma inerente ou duradoura; não há algo separado que experimente os fenômenos. A partir da ignorância — isto é, da crença no "eu" — surge os venenos mentais da cobiça — o "eu quero" — e da aversão — "eu não quero".

Apesar de dizermos "meu corpo, minha mente", não há um "eu" que seja o dono do corpo e da mente. Aquilo que convencionalmente chamamos de "eu" ou "ego" não existe por si mesmo como uma essência concreta, substancial. Ele surge apenas de forma relativa e dependente de cinco agregados — forma, sensação, percepção, vontade e consciência. Esta ausência de uma identidade imutável e independente foi chamada pelo Buddha de não-eu ou não-ego (sânsc. anatman, páli anatta). Ao contrário da crença errônea em uma individualidade inerentemente existente (sânsc. pudgala-atmagraha), o Buddha apresenta a ausência de existência inerente da individualidade (sânsc. pudgala-nairatmya).

Tendo eliminado todas as idéias com respeito ao "eu", sempre plenamente atento, veja o mundo como vazio. Dessa forma, uma pessoa está acima e além da morte.

(Pingiya Manava Puccha, Sutta Nipata V.16)

Porque você pressupõe um "ser"? Mara, você está aferrado a uma idéia? Este é um amontoado de puras fabricações; aqui, nenhum "ser" será encontrado. Assim como, com a montagem de partes, a palavra "carruagem" é empregada, do mesmo modo, quando os agregados estão presentes, existe a convenção de um "ser".

(Vajira Sutta, Samyutta Nikaya V.10)

Uma inspeção cuidadosa revela que temos feito com o "eu" a mesma coisa que fazemos com todas as outras percepções. Temos um turbilhão de pensamentos, sentimentos e sensações e o solidificamos com uma construção mental. Então, grudamos um rótulo nele: "eu". E para sempre, depois disto, nós o tratamos como se fosse uma entidade estática e duradoura; nós o vemos como uma coisa separada de todas as outras coisas. Nós nos retiramos do resto desse processo de mudança eterna que é o universo. E, então, lamentamos quão solitários somos. Ignoramos nossa conectividade herdada com todos os outros seres, e decidimos que "eu" tenho que fazer mais por "mim". Então, nos surpreendemos de ver quão cobiçosos e insensíveis os seres humanos são. E o processo continua... Todo feito maléfico, todo exemplo de impiedade no mundo origina-se diretamente desse falso sentido do "eu" como distinto de tudo o mais que existe. Rompa a ilusão desse conceito de "eu" e todo o universo mudará. [...] Você começa a se ver como uma fotografia no jornal. Quando vista a olho nu, a fotografia parece uma imagem definida; quando olhada através de uma lente de aumento, ela se quebra numa configuração intrincada, cheia de pontos. Similarmente, sob a inspeção penetrante da vigilância, o sentido de um "eu", um "meu", um "ser" perde sua solidez e se dissolve.

(Henepola Gunaratana, Meditação para Todos)

A única passagem para o nirvana, o destruidor de todas as visões errôneas, a apreensão de todos os buddhas chama-se não-eu.

(Aryadeva, Chatuhshataka)

Quando contemplamos o não-eu, vemos que existência de cada coisa só é possível devido à existência de tudo o mais. Assim sendo, "tudo do mais" é a causa e a condição da existência de cada coisa. Tudo existe dentro de cada coisa. Do ponto de vista do tempo, dizemos "impermanência", mas do ponto de vista do espaço dizemos "não-eu". As coisas não continuam iguais durante dois momentos consecutivos, portanto não existe nada que possa ser considerado como um "eu" permanente. Antes de entrar na sala onde está agora, você era diferente tanto física quanto mentalmente. Ao contemplar a impermanência, você descobre a si mesmo. Ao contemplar a si mesmo, você vê a impermanência. Não conseguimos dizer, "Eu aceito a impermanência, mas o não-eu é muito difícil". Os dois são a mesma coisa. 

(Thich Nhat Hanh, The Heart of the Buddha's Teaching)

Freqüentemente achamos que a ausência de ego representa uma grande perda mas, na verdade, ela é um ganho. O reconhecimento da ausência de ego, nosso estado natural, assemelha-se a recuperar a visão após ter sido cego, ou a recuperar a audição após ter sido surdo. A ausência de ego tem sido comparada aos raios do sol. Sem que haja um sol sólido, seus raios apenas brilham. Da mesma forma, quando não estamos tão preocupados conosco mesmos, o estado desperto naturalmente se irradia. Ausência de ego é o mesmo que bondade fundamental ou natureza búddhica, é nosso ser incondicional. É aquilo que sempre possuímos e nunca perdemos realmente.

(Pema Chödrön, Quando Tudo Se Desfaz)

[O buddhismo] usa um exemplo de uma carruagem como sendo o assim chamado atman individual, que é apenas uma aglomeração de elementos com fatores interdependentes, e que tem pouco ou nada a ver com o que chamas de eu do indivíduo. A carruagem não é a roda, nem os eixos. Não podemos nem mesmo encontrar uma entidade colocando estas coisas juntas. É puramente um rótulo colocado sobre algo e não existe por si mesmo: como chamar um grupo de estrelas de Ursa Maior, onde não há ursa em qualquer lugar a ser encontrada. Tendo entendido a não-existência do eu individual, viremos a realizar a não-existência do significado da inseparabilidade das duas verdades: a natureza vazia e aberta, e a incessante aparência mágica de todos os fenômenos.

(Nyoshül Khen Rinpoche, Natural Great Perfection)

Todos temos um claro senso de individualidade, um senso do "eu". Sabemos a quem estamos nos referindo quando pensamos: "Vou trabalhar", "Estou indo para casa" ou "Estou com fome". Até os animais têm uma noção de identidade, embora não possam expressá-la em palavras do modo como podemos. Quando tentamos identificar e entender o que é esse "eu", fica muito difícil apontar com precisão. Na antiga Índia, muitos filósofos hindus especularam que esse "eu" seria independente da mente e do corpo da pessoa. Eles sentiram que deveria existir uma entidade que pudesse proporcionar continuidade entre os diferentes estágios do "eu", tais o "eu" de "quando eu era jovem" ou de "quando eu ficar velho" e mesmo o "eu" numa ida passada e o "eu" numa vida futura. Como todos esses diferentes "eus" são transitórios e impermanentes, sentia-se que deveria existir algum "eu" unitário e permanente que possuísse aqueles diferentes estágios da vida. Essa foi a base para postular um "eu" distinto da mente e do corpo. Eles o chamaram de atman. De fato, todos aceitamos tal noção de "eu". Examinando como percebemos esse senso de "eu", nós veremos que o consideramos o cerne de nosso ser. Não o experienciamos como um conjunto de braços, pernas, cabeça e tronco, mas em vez disso pensamos nele como o senhor dessas partes. Por exemplo, não penso em meu braço como "eu", penso nele como "meu braço"; e penso em "minha mente" do mesmo modo, como pertencendo a mim. Somos levados a reconhecer que acreditamos em um "eu" auto-suficiente e independente no cerne de nosso ser, possuindo as partes que nos formam.

O que há de errado nessa crença? Como esse "eu" imutável, eterno e unitário, que é independente da mente e do corpo, pode ser contestado? Os filósofos buddhistas afirmam que o "eu" só pode ser entendido em relação direta com o complexo mente-corpo. Eles explicam que, se existisse um atman ou "eu", ele teria que ser separado das partes impermanentes que o constituem — a mente e o corpo — ou teria que ser uno com essas partes. No entanto, se fosse separado da mente e do corpo, não seria pertinente, visto que não teria nenhuma relação com eles. E sugerir que um "eu" permanente e indivisível pudesse ser uno com as partes impermanentes que constituem a mente e o corpo é absurdo. Por quê? Porque o "eu" é único e individual, enquanto as partes são numerosas. Como pode uma entidade sem partes ter partes?

Desse modo, qual é a natureza desse "eu" com o qual estamos tão familiarizados? Alguns filósofos buddhistas inclinam-se para o conjunto de partes da mente e do corpo e consideram o "eu" a soma delas. Outros afirmam que o continuum de nossa consciência mental deve ser o eu. Existe também a crença de uma alguma faculdade mental separada, uma "mente base de tudo", é o "eu". Todas essas noções são tentativas de ajustar nossa crença inata em um "eu" substancial, ao mesmo tempo que se reconhece a insubstancialidade da solidez e permanência que naturalmente atribuímos a ele.

(Dalai Lama, Um Coração Aberto)

O mesmo se aplica aos fenômenos condicionados (sânsc. samskrita dharma, páli sankhate dhamma) — apesar de acreditarmos, consciente ou inconscientemente, que as coisas possuem uma existência inerente (sânsc. svabhava), elas só surgem em dependência de partes, causas e condições, sendo vazias (sânsc. shunya, páli sunna) de qualquer essência intrínseca ou substância inerente. Os fenômenos também dependem da mente que as percebe, e por sua vez a mente depende dos fenômenos para que possa perceber algo. Esta ausência de uma existência inerente é chamada vacuidade (sânsc. shunyata, páli sunnata) às vezes é considerada mais sutil do que o não-eu. Ao contrário da crença errônea na existência inerente dos fenômenos (sânsc. dharma-atmagraha), o Buddha apresenta a ausência de existência inerente dos fenômenos (sânsc. dharma-nairatmya). A contemplação do não-eu ajuda a compreender a verdadeira natureza da personalidade e dos fenômenos, além de ajudar a superar dificuldades.

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