II. Sofrimento ou insatisfação
(sânsc. duhkha, páli dukkha)

Esta característica se refere a todos os fenômenos contaminados pelas ações e emoções negativas. De modo geral, o corpo está sujeito ao sofrimento do nascimento, da velhice, da doença e da morte. Já a mente está sujeita ao sofrimento de não conseguir aquilo que deseja, de perder o que já possui, de não poder evitar aquilo que não deseja, e de experimentar a desarmonia dos agregados (forma, sensações, percepções, vontade e consciência).

Explorando profundamente a questão do sofrimento, sem medo, o Buddha encontrou a cessação da dor. Ao refletir sobre estas coisas, os praticantes também desenvolvem um sentimento de renúncia e decidem buscar o estado que é livre do sofrimento, que está além da ignorância, do apego (cobiça) e da aversão (raiva). 

Minha natureza é envelhecer, não superei o envelhecimento; isto é para ser lembrado constantemente. Minha natureza é adoecer, não superarei a doença; isto é para ser lembrado constantemente. Minha natureza é morrer, não superarei a morte; isto é para ser lembrado constantemente.

(Abhinham Pacchaekkhitabba Dhamma, citado no Livro das Devoções)

O nascimento é insatisfatório, o envelhecimento é insatisfatório, a morte é insatisfatória. Pesar, lamento, dor, desgosto e aflição são insatisfatórios. Experienciar o que não se gosta é insatisfação. Separar-se do que se gosta é insatisfação. Qualquer desejo não obtido é insatisfação. Em síntese, os cinco agregados do apego são insatisfatórios, a saber: identificação com as formas corporais, identificação com as sensações, identificação com as percepções, identificação com as fabricações mentais, identificação com as consciências. Para seu completo entendimento, o bem-aventurado, no período de sua vida, freqüentemente instruía seus discípulos dessa forma.

(Samvegaparikittanapatha, citado no Livro das Devoções)

[R]econhecer claramente o sofrimento é o primeiro passo para se encontrar uma saída; é também um remédio para todas as nossas falsas esperanças e nossa tendência de buscar apoio em prazeres efêmeros que resultam em decepção. O noticiário da televisão é suficiente para que nos deparemos com o imenso sofrimento; basta refletir sobre os acontecimentos dolorosos na vida daqueles que nos cercam, ou explorar as constantes correntes por debaixo de nossos próprios problemas, para podermos confirmar que a tristeza e o sofrimento permeiam toda a existência. Tal reconhecimento pode nos devastar e nos esgotar. Perguntamo-nos então como foi que isso veio a acontecer, sem de fato esperar uma resposta. Os ensinamentos buddhistas, porém, são claros quanto a esta questão. O sofrimento, em suas inúmeras manifestações, tem uma única fonte: a delusão da mente dualista.

(Chagdud Khadro, Comentários sobre Tara Vermelha)

Há três tipos de sofrimento. O primeiro é o sofrimento que se sobrepõe ao sofrimento [sânsc. duhkha duhkhata, páli dukkha dukkhata] Uma coisa ruim acontece em cima da outra, e parece não haver justiça alguma no processo. Quando você pensa que a situação em que está não pode ficar pior, ela fica. Você perde dinheiro, depois um parente, depois a juventude — há inúmeras maneiras pelas quais sofremos. O segundo tipo é o sofrimento da mudança [sânsc. viparinama duhkhata, páli viparinama dukkhata]. Nada é confiável ou consistente. Por maior que seja a nossa esperança de ter uma base sólida sobre a qual podemos nos apoiar, tudo aquilo com que contamos sempre se corrói, criando grande dor. O terceiro é o sofrimento que tudo permeia [sânsc. samskara duhkhata, páli samskara dukkhata]. Da mesma forma que, quando você espreme uma semente de gergelim, constata que ela está permeada de óleo, pode parecer que a nossa vida seja feliz, mas, quando somos espremidos, sofremos. Tão certo quanto o fato de que nascemos é o fato de que iremos ficar doentes, envelhecer e morrer.

(Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista)

Ao ensinar as quatro nobres verdades, o Buddha não falou apenas do sofrimento, mas também explicou sua origem, sua cessação e o caminho para extingui-lo completamente. Compreendendo o sofrimento e suas causas, é possível alcançar o estado de liberação (sânsc. nirvana, páli nibbana), a felicidade suprema.

Não se satisfaça simplesmente dizendo, "No mundo há somente sofrimento, nada há que não seja uma fonte de sofrimento". Certamente esta é uma afirmativa correta, mas ela é ambígua e passível de ser mal interpretada; pois estas coisas, se não nos apegarmos e não se agarrarmos, não são uma fonte de sofrimento, de modo algum. Que isto fique bem entendido. Nem o mundo, nem qualquer das coisas das quais o mundo se compõe, são ou jamais foram, em si mesmas, uma fonte de sofrimento. No momento em que se agarra ou segura, surge o sofrimento; se não se agarra ou segura, não há sofrimento. Dizer que a vida é sofrimento é algo superficial, muito simplificado e prematuro. A vida em que se agarra e segura é sofrimento; a vida em que não se agarra ou segura não é sofrimento. [...]

Geralmente é dito muito eloqüentemente, mas ambiguamente, que nascimento, envelhecimento e morte são sofrimentos. Mas o nascimento não é sofrimento, o envelhecimento não é sofrimento, a morte não é sofrimento quando não há apego a "meu nascimento", "meu envelhecimento", "minha morte".

(Achaan Buddhadasa, 48 Respostas sobre Buddhismo)

É importante ter em mente que o Buddha nunca negou que a vida — mesmo "não-iluminada" — mantém a possibilidade de muitos tipos de beleza e felicidade. Mas ele também reconheceu que os tipos de felicidade aos quais a maioria de nós está acostumada não pode, por sua própria natureza, trazer uma satisfação realmente duradoura. Se alguém está genuinamente interessado no bem-estar próprio e dos outros, então ele deve estar querendo trocar um tipo de felicidade por outro muito melhor. Este entendimento está no próprio coração do método de Buddha. [...] A mais elevada felicidade de todas, e aquela à qual os ensinamentos de Buddha definitivamente apontam, é a felicidade e paz duradouras do nirvana transcendente e imortal. Assim, os ensinamentos do Buddha estão preocupados unicamente em guiar as pessoas à mais elevada e extensa felicidade possível.

(John Bullit, What is Theravada Buddhism?)

Um dos ensinamentos básicos do Buddha é que é possível viver feliz no momento presente. Drishta dharma sukha vihari é a expressão em sânscrito. O Dharma lida com o momento presente. O Dharma não é uma questão de tempo. Se você pratica o Dharma, se vive de acordo com o Dharma, a felicidade e a paz estão com você agora. A cura se dá tão logo o Dharma seja abraçado.

(Thich Nhat Hanh, Living Buddha, Living Chri抸Ŵ

A vida é cheia de sofrimento, mas também é cheia de maravilhas, como o céu azul, a luz do sol, os olhos de uma criança. Sofrer não basta!  Nós tempos, também, de estar em contato com as maravilhas da vida. Elas estão dentro de nós, em torno de nós, em todos os lugares e a qualquer hora. Se não estamos felizes, não ficaremos em paz e não podemos partilhar paz e felicidade com os demais, mesmo com aqueles que amamos, com aqueles que vivem sob o mesmo teto. Se estamos em paz e felizes, podemos sorrir e nos abrir como uma flor, e em todos em nossa família, a sociedade inteira, se beneficiarão de nossa paz.

(Thich Nhat Hanh, Caminhos para a Paz Interior)

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