I. Impermanência
(sânsc. anitya, páli aniccha)

Esta marca refere-se ao fato de que todas os fenômenos condicionados, todas as coisas compostas, passam por uma constante transformação, momento a momento. Do mesmo modo, a felicidade, a saúde, a vida, as propriedades... tudo é impermanente, instável e envelhece a cada instante. Apesar de as coisas do universo estarem sempre mudando, geralmente as chamamos pelos mesmos nomes e rótulos, criando assim uma imagem conceitual da realidade, uma ilusão de permanência. Entretanto, tudo o que surge através de causas e condições é transitório justamente porque é produzido de forma dependente, dinâmica; essas mesmas causas e condições também são responsáveis pelo desaparecimento dos fenômenos. A contemplação da impermanência e da morte não é algo mórbido; ela ajuda os praticantes a compreendera a preciosidade da vida,  a verdadeira natureza do ser e dos fenômenos, a evitar o apego e a gerar um sentimento de gratidão pelas posas que possuímos.

Tudo que está sujeito ao surgimento está sujeito à cessação.

(Dighanakha Sutta, Majjhima Nikaya 74)

O passado é como um sonho, o futuro é uma miragem, enquanto o presente é como as nuvens.

(Citado por Bhikkhu Khantipalo em Practical Advice for Meditators)

Tudo o que é meu, querido e prazeroso, mudará e desaparecerá. Isto é para ser lembrado constantemente.

(Abhinham Pacchaekkhitabba Dhamma, citado no Livro das Devoções)

A forma é inconstante. A sensação é inconstante. A percepção é inconstante. As formações são inconstantes. A consciência é inconstante. [...] Todas as formações são inconstantes.

(Channa Sutta, Samyutta Nikaya XXII.90)

Não há forma... não há sensação... não há percepção... não há fabricação... não há consciência que seja constante, duradoura, eterna, não sujeita à mudança, que irá permanecer tal como é por tanto tempo quanto a eternidade.

(Nakhasikha Sutta, Samyutta Nikaya XXII.97)

Assim como o rio da montanha fluindo para o mar, assim como o sol ou a lua aproximando-se da montanha do oeste, assim como o dia e a noite, as horas e minutos passam rapidamente; as vidas das pessoas passam deste mesmo modo.

(Vinaya Pitaka)

A essência da nossa experiência é a mudança. A mudança é incessante. Momento a momento, a vida flui e nunca é a mesma. A alteração perpétua é a essência do universo perceptivo. Um pensamento surge em sua mente e meio segundo depois já se foi. Outro vem e também vai. Um som invade seu ouvido e depois vem o silêncio. Abra seus olhos e o mundo entra por eles torrencialmente; pisque e ele já se foi. Pessoas entram na sua vida e depois se vão. Amigos se vão, parentes morrem. Sua sorte sobe e desce. Algumas vezes você vence e em outras vezes você perde. Tudo é incessante: mudança, mudança, mudança. Tudo é incessante: mudança, mudança, mudança. Dois momentos nunca são iguais. Não há nada errado nisso; esta é a natureza do universo. [...]

Do ponto de vista buddhista, nós, seres humanos, vivemos de uma maneira muito peculiar. Vemos as coisas impermanentes como permanentes, embora tudo esteja mudando ano nosso redor. O processo da mudança é constante e eterno. Enquanto você lê estas palavras, seu corpo está envelhecendo, mas você não presta atenção a isto. [...] As paredes à sua volta estão envelhecendo. As moléculas dentro dessas paredes estão vibrando com enorme intensidade. Tudo está mudando, decompondo-se e dissolvendo-se vagarosamente. Você também não presta atenção a isto. Então, um dia, você olha ao redor. Seu corpo está enrugado, rangendo e tudo dói. [...] Você se lamenta pela juventude perdida e chora quando suas posses se vão. De onde vem esta dor? Ela em de sua própria desatenção. Você falhou em não olhar intimamente para a vida; em não observar o fluxo constante da mudança no mundo enquanto ele passava.

(Henepola Gunaratana, Meditação para Todos)

Heráclito disse que jamais podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio. Confúcio, enquanto olhava um riacho, disse: "Dia e noite ele está sempre fluindo." Buddha nos implorou que não apenas falássemos sobre a impermanência, mas que a usássemos como um instrumento para nos ajudar a penetrar profundamente na realidade e obter a liberação.

(Thich Nhat Hanh, Cultivando a Mente de Amor)

A compreensão da impermanência nos proporciona confiança, paz e alegria. A impermanência não conduz obrigatoriamente ao sofrimento. Sem impermanência, a vida não existiria. Sem a impermanência, sua filha não cresceria e se tornaria uma linda mulher. Sem a impermanência, os regimes políticos opressivos nunca mudariam. Mas nós achamos que a impermanência nos faz sofrer. O Buddha deu o exemplo do cachorro que foi atingido por uma pedra e ficou zangado com a pedra. Não é a impermanência que nos faz sofrer, mas sim o desejo de que as coisas sejam permanentes, quando na verdade não são.

(Thich Nhat Hanh, The Heart of the Buddha's Teaching)

A água do tempo brilha no leito do universo, sempre correndo, fluindo. Pedras, árvores, casas e cidades também fluem vagarosamente nesta correnteza, assim como os pensamentos, as civilizações, nossas vidas e a vidas e todos os seres. Tudo isso pode parecer imutável, mas na verdade essa idéia não passa de uma ilusão. Apenas nós, seres humanos, acreditamos erroneamente que tudo é imutável. Esforçamo-nos para não sermos levados pela correnteza e lamentamos por tudo que se vai. No entanto, mesmo sofrendo e desdobrando-se para evitar, caindo sete vezes nos levantando oito, não há como para o fluir, que envolve também nossa dor e nossa luta. Ao invés disso, é melhor ver as coisas como são e nos juntarmos  a essa correnteza, com suavidade. Apenas assim poderemos encontrar prazer na fugacidade das coisas, uma vez que é justamente essa fugacidade que tece as mais diversas figuras na tapeçaria da vida. [...]

Se escutarmos o rio sem atenção, a água que corre parece ter um ritmo constante e ininterrupto. Entretanto, nenhuma gota d'água passa duas vezes sobre a mesma pedra. Não é nunca a mesma gota que forma o leito do rio ou o murmúrio da correnteza. A imutabilidade é uma ilusão dos olhos e dos ouvidos humanos. Uma vez que tenha passado, a água não corre nunca mais no mesmo ponto do rio. A vida humana não é diferente. Acreditar que ontem é igual a hoje é resultado de nossa ignorância e insensibilidade. São nossas mentes e nossos olhos deludidos que vêem o passado igual ao presente. Os olhos iluminados vêem claramente a imagem das coisas em eterno movimento e reconhecem que cada instante é diferente de qualquer outro.

(Shundo Aoyama Rôshi, Para Uma Pessoa Bonita)

Tudo que nasce é impermanente e está fadado a morrer. Tudo que é armazenado é impermanente e está fadado a acabar. Tudo que se junta é impermanente e está fadado a se separar. Tudo que é construído é impermanente e está fadado a desmoronar. Tudo que sobe é impermanente e está fadado a cair. Assim também, a amizade e a inimizade, a fortuna e a tristeza, o bom e o mau, todos os pensamentos que correm pela sua mente — tudo está sempre mudando. [...] O Buddha disse: "Meditar persistentemente sobre a impermanência é fazer oferendas a todos os buddhas. Meditar persistentemente sobre a impermanência é ser salvo do sofrimento por todos os buddhas. Meditar persistentemente sobre a impermanência é ser guiado por todos os buddhas. Meditar persistentemente sobre a impermanência é ser abençoado por todos os buddhas. De todas as pegadas, a do elefante é a maior; assim também, de todos os assuntos de meditação para um seguidor dos buddhas, a idéia da impermanência é insuperável."

(Patrül Rinpoche, Words of My Perfect Teacher)

Quem nunca percebeu que cada dia a mais é um dia a menos? O tempo passa sem nunca parar e a morte é a nossa única certeza. É uma evidência que não devia suscitar nem medo nem esperança se, como no Oriente, em vez de evitarmos pensar nela, nos preparássemos como o esportista para a competição ou o guerreiro para o combate. Embora se trate de uma inelutável realidade, no Ocidente é inconveniente falar da morte, pensar nela, encarar a sua eventualidade. O nosso terror é tal que não a mencionamos senão de forma indireta, chegando mesmo a recusar aos seres que mais amamos o direito de saberem que estão condenados. como não sabemos como lidar com ela, a morte enche-nos de consternação. Para nós, é como se não fizesse parte da vida: uma aberração que preferimos ignorar. No entanto, morrer com dignidade é pelo menos tão importante como viver com retidão.

(Tsering Paldrön, A Arte da Vida)

A impermanência é a virtude da realidade. Exatamente como as quatro estações, sempre em contínuo fluxo — o inverno transformando-se em primavera e o verão em outono. Assim como o dia torna-se noite, a luz torna-se escuridão e luz mais uma vez — da mesma forma, tudo se transforma constantemente. A impermanência é a essência de tudo. Bebês transformam-se em crianças, adolescentes, adultos, velhos e, em algum ponto do caminho, morrem. Impermanência é encontrar-se e separar-se. É apaixonar-se e desapaixonar-se. A impermanência é doce e amarga, como comprar uma camisa nova e, anos mais tarde, vê-la transformada em um pedaço de uma colcha de retalhos. [...] A impermanência é o princípio da harmonia. Quando não lutamos contra ela, estamos em harmonia com a realidade. Muitas culturas celebram esse vínculo. Existem cerimônias marcando todas as transformações da vida, do nascimento à morte, assim como encontrar-se e separar-se, ir à guerra, perder a guerra, vencer a guerra. Nós também podemos reconhecer, respeitar e celebrar a impermanência.

(Pema Chödrön, Quando Tudo Se Desfaz)

Por que é tão difícil praticar a morte e praticar a liberdade? E por que temos tanto medo da morte que evitamos por completo olhar para ela? De algum modo, no fundo, sabemos que é impossível evitar encará-la para sempre. Sabemos que, nas palavras de Milarepa, "essa coisa chamada 'cadáver', que tanto nos apavora, vive conosco aqui e agora". Quanto mais adiamos esse encontro, quanto mais o ignoramos, maior é o medo e a insegurança que surgem para nos perseguir... Quanto mais tentamos fugir do medo, mais monstruoso ele se torna. A morte é um vasto mistério, mas há duas coisas que é possível dizer a seu respeito: é absolutamente certo que morreremos um dia e é absolutamente incerto quando e onde essa hora vai chegar. Então, a única certeza que temos é essa incerteza sobre o instante da nossa morte, a que agarramos para adiar encará-la diretamente. Somos como crianças que fecham os olhos no jogo de esconde-esconde e pensam que assim ninguém pode vê-las.

(Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano do Viver e do Morrer)

Algumas pessoas acham que o buddhismo é pessimista, sempre falando de morte, morrer, impermanência, velhice — mas isso não é necessariamente verdade. A impermanência é um alívio! Eu não tenho uma BMW hoje e é graças à impermanência desse fato que eu posso vir a ter uma amanhã. Sem a impermanência eu ficaria preso à não-posse de uma BMW e nunca poderia vir a ter uma. Eu posso estar me sentindo muito deprimido hoje e, graças à impermanência, amanhã eu posso estar me sentindo ótimo. A impermanência não é necessariamente uma má notícia; tudo depende de como a interpretamos e a compreendemos. Mesmo que hoje nossa BMW seja riscada por um vândalo ou que nosso melhor amigo nos deixe na mão, não vamos ficar tão preocupados assim. Quando não reconhecemos que toda coisa composta é impermanente, isso é um engano, uma ilusão. Quando compreendemos isso — e não só intelectualmente — ficamos livres desse engano. É a isso que chamamos de liberação: ficar livre da crença unidirecionada e bitolada de que as coisas são permanentes. Mesmo o caminho, o precioso caminho buddhista, também pertence à esfera do composto, quer gostemos disso ou não. Ele tem um começo, tem um fim, tem um meio.

(Dzongsar Khyentse Rinpoche, Os Quatro Selos do Dharma)

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