As três marcas

Através da meditação, o Buddha descobriu que todos os fenômenos condicionados (sânsc. samskrita dharma, páli sankhate dhamma), ou seja, todas as coisas da existência cíclica (sânsc. e páli samsara), são caracterizadas com três marcas ou selos (sânsc. trilakshana, páli tilakkhana): impermanência, sofrimento e não-eu. Existem diversas linhagens e escolas de pensamento no buddhismo; toda escola filosófica que adote estes axiomas é considerada buddhista. Estas marcas não são usadas de forma pessimista, mas sim como um encorajamento realista a fim de procurarmos o despertar.

Em termos de tempo, as coisas são impermanentes; a compreensão completa da impermanência leva ao estado de liberação sem sinais. Em termos de qualidade, as coisas são insatisfatórias, sofrimento; a compreensão completa do sofrimento leva ao estado de liberação sem desejo. Finalmente, em termos de espaço, as coisas são insubstanciais, não-eu; a completa compreensão do não-eu leva ao estado de liberação da vacuidade. 

Os mestres da tradição Vajrayana adicionam uma quarta marca: o estado de liberação (sânsc. nirvana, páli nibbana) está além dos extremos, está além da impermanência e do sofrimento. Nas tradições Ch'an e Zen — baseadas nos textos da Coleção Agrupada (sânsc. Samyuktagama) do buddhismo Mahayana e no Tratado sobre a Grande Perfeição da Sabedoria (sânsc. Maha-prajna-paramita Shastra) escrito pelo monge indiano Nagarjuna (séc. II-III) —, as três marcas da existência são a impermanência, o não-eu e a liberação. Nestas tradições, o sofrimento é citado apenas no contexto das quatro nobres verdades e não como uma das três marcas.

Para demonstrar as três marcas, o Buddha perguntou aos seus discípulos:

"Monges, o que vocês pensam? A forma material é permanente ou impermanente?"
"Impermanente, venerável senhor."
"Aquilo que é impermanente traz o sofrimento ou a felicidade?"
"Sofrimento, venerável senhor."
"É adequado que aquilo que é impermanente, que traz o sofrimento e que está sujeito à mudança, seja considerado desta forma: 'Isto é meu, isso sou eu, esse é o meu eu'?"
"Não venerável senhor."

(Mahapunnama Sutta, Majjhima Nikaya CIX.15)

Todas as coisas condicionadas são impermanentes. Todas as coisas, quaisquer que sejam, não são "eu". Todos nós somos presos pelo nascimento, envelhecimento e morte, pelo pesar, lamento, dor, desgosto e aflição; somos presos pela insatisfação e aflitos pela insatisfação. Possamos nós, nesta própria vida, completar a extinção de toda esta massa de sofrimento.

(Samvegaparikittanapatha, citado no Livro das Devoções)

Todas as coisas condicionadas são inerentemente transitórias; cada coisa mundana é, no final, insatisfatória; não há, de fato, entidades que são imutáveis ou permanentes, mas somente processos. A vigilância funciona como um microscópio eletrônico. Isto é, opera num nível tão sutil que pode de fato ver diretamente tais realidades que, no máximo, são construções teóricas para o processo do pensamento consciente. A vigilância, realmente, vê o caráter impermanente de cada percepção; a natureza transitória e fluida de tudo o que é percebido; a natureza inerentemente insatisfatória de todas as coisas condicionadas; e que não faz sentido agarrar-se a qualquer desses "espetáculos ambulantes". A paz e a felicidade não podem ser encontradas dessa forma. Finalmente, a vigilância vê a inerente ausência de um "eu" em todos os fenômenos, bem como a forma como arbitrariamente selecionamos um certo conjunto de percepções, cortamos do resto do fluxo contínuo da experiência e, então, conceitualizamos essas percepções como entidades separadas e permanentes. (Henepola Gunaratana, Meditação para Todos) A realização da impermanência, do sofrimento e da insubstancialidade da existência mundana ocorre por graus e envolve a quebra de um número de dez grilhões (sânsc. e páli samyojana):
crença em uma personalidade separada (sânsc. satkaya-drishti),
dúvida cética (
sânsc. vichikitsa),
apego a regras e rituais pelo próprio benefício (sânsc. shilavrata-paramarsha),
desejo sensual (sânsc. kama-raga),
vontade (sânsc. vyapada),
desejo por existência no mundo da forma (sânsc. rupa-raga),
desejo por existência no mundo sem forma (sânsc. arupa-raga),
vaidade (sânsc. mana),
irriquietude (sânsc. auddhatya)
e ignorância (sânsc. avidya).
Os estágios de desenvolvimento do insight são marcados pela erradicação ou enfraquecimento dos vários grupos destes grilhões.

(Andrew Skilton, A Concise History of Buddhism)

PRÓXIMA