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Jung: Cientista ou Místico ?

 


   Carl Gustav Jung tem sido considerado em determinados círculos positivistas como místico e não como cientista e a sua teoria psicológica tida como uma visão mística da alma humana.

        Místico não é uma palavra de sentido unívoco. Tem uma variedade ampla de significados de acordo com as perspectivas teóricas e vivenciais de quem a utiliza. O Vocabulário Técnico de Filosofia de André Lalande assinala quatro acepções para o termo  que é empregado em todos os sentidos da palavra misticismo. Resumidamente:

  • Sentido próprio: crença na  união íntima e direta do espírito humano com o princípio fundamental do ser.
  • Disposições afetivas, intelectuais e morais ligadas a esta crença, cujo fenômeno essencial seria o êxtase, estado em que a alma, rompendo toda comunicação com o mundo exterior, comunica-se diretamente com um objeto interno que é o ser perfeito, o ser infinito, Deus.
  • Um dos quatro grandes sistemas filosóficos que se sucederam na história do pensamento humano segundo o qual o progresso da reflexão filosófica tem por finalidade conciliar cada vez mais completamente. Resulta de uma priorização do sentimento e da imaginação em prejuízo da razão.
  • O termo misticismo é também aplicado com conotação pejorativa às crenças ou doutrinas que se baseiam mais no sentimento e na intuição do que na observação e no raciocínio e também às crenças e doutrinas que rejeitam ou desvalorizam a realidade sensível em favor de uma realidade suprasensível.

    Nota-se, quando essas considerações são feitas sobre Jung,  que a palavra místico não é usada para reconhecer-lhe algum atributo  no sentido religioso ou espiritual, assim como quando alguém se refere a São João da Cruz, Santa Teresa D' Ávila ou Tomas Merton como místicos,  mas, na maioria das vezes, o termo é usado com a conotação pejorativa, conforme referenciada por Lalande, de modo a desqualificar a sua teoria psicológica, retirando-lhe a condição de científica.

  Freud perguntando-se em 1932 sobre o significado das palavras misticismo e ocultismo, respondeu

 

"Os senhores não devem esperar que eu faça alguma tentativa de abarcar essa mal-circunscrita região com definições. Todos nós sabemos, de um modo genérico e indefinido, o que essas palavras significam para nós. Referem-se a alguma espécie de 'outro mundo',situado além deste mundo visível, governado por leis imutáveis, construído para nós pela ciência"1.

        A conotação mística atribuída à teoria psicológica de Jung geralmente é feita tendo como contraponto a teoria psicanalítica que, segundo esses críticos,  teria permanecido dentro do modelo da ciência moderna.  É por esse caminho que vamos iniciar a nossa reflexão sobre o assunto.

        A ciência moderna nasceu com Galileu, que abandona quaisquer considerações qualitativas no exame da realidade. A física passa a apoiar-se em relações quantitativas e mensuráveis, tornando-se o paradigma da ciência moderna que, influenciada pelo racionalismo cartesiano, consolida-se com Isaac Newton. A mecânica newtoniana está cèntrada na investigação da natureza através das relações de movimento. Espaço e tempo são consideradas entidades absolutas que servem de estofo para fenômenos cientificamente observáveis. Esse paradigma definiu o modelo de cientificidade que foi ao longo do tempo foi igualmente adotado pelas ciências biológicas, humanas e sociais.

        Na sua formação teórica, Sigmund Freud sofreu o impacto do naturalismo de Darwin e do positivismo de Bruck, este último, aluno de Helholtz, pioneiro na tentativa de aplicar os princípios da física no estudo da fisiologia e psicologia. Essas influências formaram a base na qual Freud assentou o seu método de estudo e pesquisa, dentro do quadro teórico da ciência moderna, fato que influiu de modo marcante na construção teórica da psicanálise que nasce causal, mecanicista e naturalista. Essas características permanceram estáveis ao logo o seu desenvolvimento até a revolução lacaniana, que introduziu profundas modificações na estrutura teórica da psicanálise, que deixamos de comentar por ser assunto que ultrapassaria as dimensões deste artigo.

        Carl Gustav Jung chega ao mundo da ciência com um estofo cultural diferente. Durante a sua juventude, dedicou-se à leitura de obras de filosofia, encontradas principalmente na biblioteca de seu pai. Johann Paul Jung, pastor protestante da igreja reformada. Essas leituras propiciaram-lhe contato com a filosofia de Kant, Schopenhauer e Nietzsche, alicerçado nas quais desenvolveu uma cosmovisão que lhe serviu de contraponto às idéias que dominavam o mundo científico com o qual se defrontou. Foi essa cosmovisão, fundada no idealismo alemão, que o impediu de assumir uma posição causal e mecanicista, naturalista e reducionista no exame da realidade psíquica.

        Contrapondo-se ao paradigma científico dominante, Jung apoiou o seu método de investigação psíquica na perspectiva finalista que, como se disse acima, tinha sido abolido das ciências desde Galileu, mas remanescia nas ciências biológicas, para as quais o enfoque causal-mecanicista nem sempre produzia resposta satisfatória.

        A questão da causalidade versus finalismo remonta ao início da filosofia grega, aos pré-socráticos. A dificuldade ou impossibilidade de diálogo entre essas perspectivas teóricas permaneceu praticamente inalterada no decorrer da história do pensamento humano. Nessa trajetória, a ciência oscilou entre os dois pólos, conforme o seu objeto de estudo e questões ideológicas pertinentes. Enquanto a filosofia e a teologia eram as ciências mais importantes, predominava a orientação finalista ou teleológica de inspiração metafísica. Na medida em que a physis ocupa esse lugar de proeminência, o método sustenta-se na causalidade cujo objetivo é procurar identificar as causas dos fenômenos observados. Este  é o modelo da ciência moderna.

        Por isso, ao preferir a abordagem finalista no estudo dos fenômenos psíquicos, Jung rompe com o paradigma científico vigente, expondo-se a críticas daqueles que, permanecendo fiéis ao determinismo mecanicista e causal, questionam a cientificidade dos seus estudos e pesquisas, pois o finalismo é tido pela ciência moderna como uma visão mística ou religiosa da realidade. De fato, o finalismo jamais conseguiu desvencilhar-se da necessidade intrínseca de um demiurgo que cria o Cosmos e estatui o caminho a ser seguido e o objetivo a ser alcançado na evolução cósmica. Dessa forma, por conta de sua abordagem finalista, a Jung é atribuída uma atitude mística diante do psiquismo humano.

        Nada obstante, Jung fez questão de, ao longo de sua fecunda produção teórica, manter-se distante de quaisquer abordagens metafísica do fenômeno psíquico.
 

"Qualquer pensador honesto é obrigado a reconhecer a insegurança de todas as posições metafísicas, em especial a insegurança de qualquer conhecimento de fé. É também obrigado a reconhecer a
natureza insustentável de quaisquer afirmações metafísicas e admitir que não existe uma possibilidade de provar que a inteligência humana é capaz de arrancar-se a si mesma do tremendal, puxando-se pelos próprios cabelos. Por isso, é muito duvidoso saber se o espírito
humano tem condições de provar a existência de algo
transcendental."2

      Em outro ponto afirmou:
 

"Embora não saibamos nem pretendamos saber o que é 'psique' em si, podemos entretanto ocupar-nos com o fenômeno 'espírito'. Não afirmamos que o espírito seja uma entidade metafísica ou que 
exista alguma ligação entre o espírito individual e um espírito universal (Universal Mind) hipotético. Por isso, nossa psicologia é uma ciência dos fenômenos puros, sem implicações metafísicas de
qualquer ordem."3

  Jung adota o empirismo e a fenomenologia na abordagem do fato psíquico, sustentando o seu trabalho no método hermenêutico, na trajetória definida por Wilhelm Dilthey que aponta a hermenêutica como o caminho metodológico a ser seguido pelas ciências humanas.

        Por isso, o fato de ter-se definido pelo finalismo não significa que Jung tenha assumido postura irracional ou mística no seu trabalho. O seu racionalismo não é cartesiano, mas sustenta-se na razão hermenêutica que se justifica na ordem da estrutura interpretativa, fundada em metodologia própria - a análise simbólica.

        Desse modo,  é válido dizer que Jung, nada obstante a sua contraposição aos postulados do cientificismo positivista, mantém-se nos limites epistemológicos da ciência ocidental.

        A idéia de que Jung foi um místico tem sido fortalecida pelo atitude de grupos espiritualistas e religiosos que geralmente procuram na teoria junguiana a fundamentação do seu corpo teórico. No entanto, atribuir à psicologia analítica de Jung conotação espiritualista, mística ou religiosa revela desconhecimento dos alicerces epistemológicos em que se funda a sua construção teórica.

        De fato, Jung nutria inequívoco interesse pelas questões espirituais e religiosa, cuja problemática foi sempre destacada em sua obra. O fazia, no entanto, como fenômenos psíquicos e não quanto à pertinência dos seus conteúdos doutrinários, no tocante a verdade ou validade de afirmações ou dogmas de quaisquer confissões rteligiosas.

  Em certo momento de sua obra ele afirmou:

 

"Na medida em que o fenômeno religioso apresenta um aspecto psicológico muito importante, trato o tema dentro de uma perspectiva exclusivamente empírica: limito-me, portanto, a
observar os fenômenos e me abstenho de qualquer abordagem metafísica ou filosófica. Não nego a validade de outras abordagens, mas não posso pretender a uma correta aplicação desses critérios."4

        Jung percebia que o homem moderno ansiava por restaurar a dimensão espiritual perdida e considerava que muito do sofrimento psíquico que as pessoas padeciam tinha origem na perda da dimensão religiosa de suas vidas.

 

"...há trinta anos minha clientela provém, um pouco, de quase todos os países civilizados do mundo.... De todos os meus pacientes que tinham ultrapassadoo meio da vida, isto é, que contavam mais de 
trinta e cinco anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse o de uma atitude religiosa. Aliás, todos estavam  doentes, em última análise, por terem perdido aquilo que as religiões vivas ofereciam em todos os tempos, a seus adeptos, e nenhum se curou sem ter realmente readquirido uma atitude religiosa própria, o que, evidentemente, nada tinha a ver com a questão de confissão
( credo religioso) ou com a pertença a uma determinada igreja."5

  Jung trata aqui da questão do significado como fator estruturante da personalidade humana.

      Ao examinar a atitude religiosa do homem, Jung identifica fatos que apontam para a existência de uma função religiosa natural no inconsciente, resultando em que a religião decorre de disposições arquetípicas. Ele chega a comparar os dogmas religiosos com os arquétipos. Com isso,  resgata a religião do âmbito da patologia em que Freud a colocara ao atribuir às manifestações religiosas caráter  neurótico obsessivo.

        Dessa forma, ao considerar a espiritualidade, o misticismo e a religião como realidades psíquicas não patológicas, Jung introduz no estudo do fenômeno religioso instrumentos de análise que permitem o exame do tema de uma perspectiva psicológica, sem assumir qualquer postura de validação de algum credo.

 

"Como médico e especialista em doenças nervosas e mentais, não tomo como ponto de partida qualquer credo religioso, mas sim a psicologia do homo religiosus, do homem que considera e observa cuidadosamente certos fatores que agem sobre ele e sobre seu estado geral."6

  Jung considerava a psique como uma totalidade e que todas as construções humanas deveriam ser vistas sob essa perspectiva. Algumas delas são continentes para acolhimento de conteúdos que não podendo ser assimilados pela consciência como pertencentes à própria psique individual são projetados em espaços, idéias, pessoas ou objetos. Em outros momentos, essas construções são mecanismos ilusórios para escapar da própria alma.

 

"O homem precisa apenas tomar consciência de que está contido em sua própria psique e que nem mesmo em estado de demência poderá ultrapassar estes limites."7


 

 
 
"Só aquilo que somos realmente
tem o poder de curar-nos"
                                              Carl Gustav Jung
 
 


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