
[1] Felicito-me pelo bem feito por todos os seres, graças ao qual eles se livram dos sofrimentos dos lugares de tormento; que eles sejam felizes!
[2] Regozijo-me pelos seres que acumulam méritos pois são a causa da iluminação
para eles. Que todos obtenham a libertação definitiva do doloroso ciclo das existências.
[3] Rejubilo com a iluminação dos Buddhas e com os níveis de realização dos seus
filhos, os Bodhisattvas.
[Este verso não figura na versão de Louis Finot.]
[4] Regozijo-me com os pensamentos virtuosos, vastos e profundos como
o mar, desaguando na felicidade dos seres, e com os atos que concretizam o bem dos seres.
[5] Com as mãos juntas, suplico aos Buddhas de todo o universo: acendei a lâmpada do Dharma para todos aqueles que estão perdidos e
que caem no abismo da dor.
[6] Com as mãos juntas, imploro aos Buddhas desejosos de se extinguir — ficai ainda entre nós, por ciclos sem fim, para que o mundo não fique mergulhado na cegueira.
[7] Tendo realizado tudo isto, e pela virtude do mérito que assim adquiri, possa eu ser para todos aquele que apazigua a dor.
[8] Possa eu ser para os doentes o remédio, o médico e o enfermeiro, até à extinção da doença!
[9] Possa eu, em revoadas de alimentos e bebidas, atenuar o suplício da fome e da sede e, nos períodos de grande penúria dos antaraKalpas, ser eu próprio
a comida saciante e a bebida desalterante.
[10] Possa eu ser para os pobres um tesouro inesgotável, resposta sempre pronta para tudo o que lhes falte!
[11] Todos os meus corpos e bens, todo o meu mérito do passado, do presente e do futuro, tudo abandono sem hesitar para que o benefício de todos os seres seja atingido.
[12] O Nirvana é a renúncia a tudo e a minha mente ao Nirvana. Se devo tudo abandonar, mais vale dá-lo aos outros!
[13-17] Que nunca seja estéril o meu encontro com alguém! Entrego este corpo ao capricho de todos os seres. Que o maltratem, ultrajem, castiguem e cubram de pó! Façam sempre dele um joguete, um
objeto de escárnio e de chalaça! Que me importa, se lhes dei o meu corpo? Obriguem-no a fazer tudo o que vos seja agradável! Mas que nunca vos seja ocasião de dano. E se alguém se irrita contra mim ou me quer bem, que isso mesmo sirva para a realização dos seus votos! Oxalá os que me caluniam e magoam, os que se riem de mim e todos os demais recebam a
iluminação!
[18-20] Possa eu ser o protetor dos abandonados, o guia dos que caminham e, para os que aspiram à outra margem, ser a caravela, a barca ou a ponte. A ilha dos que buscam uma ilha, a lâmpada dos que precisam de lâmpada, o leito de quem queira um leito, o escravo de quem queira um escravo. Ser a
pedra do milagre, a jarra do tesouro inesgotável, a fórmula mágica, a planta
que cura, a árvore dos desejos, a vaca da abundância!
[A pedra do milagre (chintamani) tem o poder de concretizar os nossos pensamentos; a jarra do tesouro inesgotável (bhadraghata) contém tudo o que se deseja; a fórmula mágica (siddhavidya) permite ter êxito em todos os empreendimentos; a planta quec ura (maha-ushadi) é um remédio universal; a árvore dos desejos (Kalpavriksha) e a vaca da abundância são duas das maravilhas celestes: uma tem como frutos e a outra dá como leite tudo o que se deseja.]
[21-22] Como a terra e os outros elementos servem os múltiplos propósitos dos seres em número vasto como o céu, na vastidão do espaço sem fim, possa eu também ser de todas as maneiras útil aos seres que povoam o espaço, por todo o sempre, até que todos sejam libertos!
[23-24] Assim como os Buddhas precedentes adotaram a Bodhichitta e gradualmente a foram praticando, farei nascer em mim a Bodhichitta para o bem do
mundo e, uma a uma, exercitar-me-ei em todas as práticas que o preparam.
[25] Tendo deste modo abraçado firmemente a Bodhichitta, o sábio, para favorecer o seu desenvolvimento, deve-o encorajar ainda e ainda
refletindo assim:
[26-27] "Hoje o meu nascimento chegou à maturidade e recebo pleno proveito da minha qualidade de ser humano. Hoje, nasci na família dos Buddhas, hoje sou um
filho de Buddha. Agora, resta-me agir em conformidade com um homem que respeita o costume da sua família; não receba ela de mim uma mancha que altere a sua pureza."
[28] Como um cego que encontra uma jóia num monte de esterco, em mim surgiu, não sei como, esta Bodhichitta.
[29-32] É um elixir que nasce para abolir a morte do mundo, um tesouro inesgotável que acaba com a miséria do mundo, um remédio incomparável que tira a doença do mundo, uma árvore sob a qual o mundo repousa, cansado de errar pelos caminhos da vida, uma ponte aberta a todos os que chegam, para os conduzir para além das vias dolorosas, uma lua espiritual em luar que refresca do escaldão das
emoções negativas do mundo, um imenso sol que dissipa as trevas da ignorância, uma nova e
untuosa manteiga, filha da nata bem batida do leite do bom Dharma.
[33] Eis preparado o banquete da alegria para a longa caravana humana que segue pelos caminhos da vida, faminta de felicidade. Venham todos saciar-se!
[34] Hoje, na presença de todos os Protetores, convido toda a gente ao estado de Buddha e, até lá, à felicidade! Que os
Devas, Asuras e os demais se regozijem!
[Os Asuras, também chamados de semideuses, antideuses ou titãs, batalham constantemente contra os Devas (deuses de longa vida), de quem invejam as riquezas.]
Capítulo Anterior | Home | Próximo Capítulo