![]() |

|
SABEDORIA
"Em 1986, tinha conquistado
tudo o que imaginei ser possível para me tornar feliz. Mas eu vivia
frustrado, perguntava-me se a vida era só uma coletânea de momentos. Como
sempre fui muito religioso, não acreditava que o Criador fosse capaz de me
mandar para essa viagem por tão pouco... ... ...
Assim, decidi ir para o Oriente conversar com os mestres e saber o que
eles pensavam a respeito da felicidade.
Fui para o Nepal,
mais exatamente para o mosteiro budista nos arredores de Katmandu. Chegar
àquele lugar já foi uma epopéia...
Um amigo havia me
indicado um mestre que vivia ali. Instalei-me em um hotel e saí à procura
do mosteiro. Na portaria, a pessoa que me atendeu disse que ele iria me
receber às 9 horas da manhã seguinte.
Naquela noite
praticamente não dormi. Fiquei excitado com a possibilidade de me ser
revelado o segredo da felicidade. Saí ainda de madrugada do hotel, na
esperança de o mestre estar disponível e poder conversar mais cedo comigo.
Fiquei esperando até que, por volta de 9 horas, uma mulher que falava
inglês com sotaque francês entrou na sala.
Imaginei que me
levaria ao mestre. Acompanhou-me até uma sala, estendeu uma almofada e
pediu para que me sentasse a sua frente. Era uma moça
morena, jovem, muito bonita, a quem
pedi: - Quero falar com
o mestre. Ela então me
respondeu: - Eu sou o
mestre. Não consegui
esconder meu desapontamento e raciocinei: 'Viagei tanto para chegar até
aqui e conversar com um mestre de verdade, e me aparece uma mestra
francesa! Todo mundo procura um mestre velhinho, oriental, com longas
barbas. Não uma mulher jovem e bonita, que nem nasceu no
Oriente!' Resolvi
insistir: - Você não
entendeu direito, quero falar com o mestre.
E novamente ela
me erspondeu: - Eu sou o
mestre. Então pensei:
'Vou fazer uma pergunta bem difícil para que ela se sinta embaraçada e me
leve ao mestre de verdade'. - O que é
budismo? - perguntei. Tranqüilamente,
ela me respondeu: - A base do
budismo é o fato de que todo ser humano sofre.
Pensei comigo
mesmo: 'Não é possível. Saio da cultura ocidental, que prega o sofrimento
como base da purificação e da sabedoria, e aqui ouço que a base do budismo
é o sofrimento?' Não satisfeito, resolvi fazer uma pergunta
ainda mais difícil para que ela não soubesse a resposta e me levasse
ao verdadeiro mestre: - E por que os
seres humanos sofrem? - Porque são ignorantes - ela respondeu.
Pensei: 'Bem, se
são ignorantes, deve haver alguma coisa que não saibam e que talvez seja a
resposta para o que estou procurando'.
- E qual é o
conhecimento que nos falta? - arrisquei.
- O que
precisamos ter é a compreensão de que as coisas na nossa vida são
dinâmicas e fluidas. Quando o ser humano está feliz bloqueia a felicidade,
pois deseja a eternidade para esse momento. Torna-se rígido, com medo de
que o prazer acabe. Quando está infeliz, julga que o sofrimento não terá
fim, mergulha na sombra, e assim amplia sua dor.
A mestra
continuou: - Como as ondas
do mar, a vida é dinâmica. É tão certa a subida quanto a descida. Cada
momento tem sua beleza. No prazer nós nos expandimos e na dor nos
contraímos. Um movimento é complementar ao outro. Saber apreciar a alegria
e a dor constitui a base da felicidade. Você não pode ser feliz somente
quando tem prazer, pois perderá o maior aprendizado da existência. Você
deve descobrir um jeito de ser feliz na experiência dolorida porque ela
carrega a oportunidade de desenvolvimento.
À medida que a
mestra falava, meu queixo caía. Como ela tinha atingido tanta sabedoria?
Por que eu não havia chegado antes àquelas conclusões? Será que,
finalmente, iria conhecer o segredo da felicidade?
E ela continuava
a me ensinar: - Não desfrute
somente o sol, aprecie também a lua. Não desfrute somente a calmaria,
aproveite a tempestade. Tudo isso enriquece a existência. A vida não
acontece somente dentro de uma casa, de uma cidade, de um país: ela tem de
ser experimentada dentro do universo. A felicidade é um jeito de viver, é
uma conduta, é uma maneira de estar agradecido ao sol, à lua, a quem lhe
estende a mão e também a quem o abandona, pois certamente nesse abandono
está a possibilidade de você descobrir a força que existe em seu interior.
A felicidade não é o que as pessoas têm, mas o que elas fazem com isso.
Por esse motivo há pessoas que, apesar de ter bens materiais, de ser bem
relacionadas, com filhos saudáveis, ainda assim se sentem angustiadas e
deprimidas. Encantado com
suas palavras, consegui apenas balbuciar antes de
sair: - Obrigado,
mestra! No caminho de
volta, fiquei pensando: 'A felicidade não é o que acontece na vida, mas
como nós elaboramos esses acontecimentos. A diferença entre o sábio e o
ignorante é que o primeiro sabe aproveitar suas dificuldades para evoluir,
enquanto o segundo se sente vítima de seus problemas.
A felicidade é uma experiência ligada à
sabedoria. Qualquer estúpido
pode ser infeliz. Não é necessário alguém especial para ver problemas em
qualquer coisa, a qualquer hora. Aliás, há pessoas que não desperdiçam uma
oportunidade de sofrer. Mas saber transformar pequenos acontecimentos em
fonte de alegria é habilidade de poucos.
Quando o discípulo está preparado, o
mestre sempre aparece - seja como uma mulher francesa, seja na
forma do pai, de um colega de trabalho, de um animal de
estimação, de uma criança caminhando na relva.
Isso acontece
quando se está aberto a todas as lições da vida, e é a forma de se graduar
na escola da existência. |