Márcia
Cezimbra
O seu filho “viaja” quando ouve algo que não lhe interessa na aula? Ou vira-se
para um papo-cabeça com o colega? Ele parece desatento e distraído, mas fica
horas superconcentrado no que gosta, como jogos de computador, futebol ou
teclados de um piano? Ele é rebelde, respondão e detesta injustiças? Precisa
que você lhe explique com todo o carinho os motivos para que obedeça? Pois seu
filho pode ser um índigo — a cor arroxeada do jeans, quase lilás, e escolhida
por representar uma aura positiva. O rótulo foi criado por especialistas
americanos para designar uma criança hipersensível, cujo cérebro recebe muito
mais estímulos que a média dos mortais. A personagem Salete (Bruna Marquezine),
de “Mulheres apaixonadas”, é uma índigo, com uma intuição tão exacerbada que
chega a ser premonitória. Quem confirma é o autor Manoel Carlos:
— Nos Estados Unidos ouvi falar muito em crianças índigo. Salete é índigo. Ela
tem uma percepção da luz, vê anjos, prevê acontecimentos, tem premonições.
Algumas vezes, as crianças índigo não distinguem se são sonhos ou visões e nem
sabem que são índigo. Mas não se trata de um fenômeno raro.
Para a psiquiatra Ana Beatriz B. Silva, o índigo ou o lilás é a versão
superdotada dos portadores do já conhecido distúrbio do déficit de atenção
(DDA), uma característica do funcionamento cerebral superestimulado. Há poucas
décadas, o DDA era tido como doença, lesão cerebral ou disritmia, que deveriam
ser tratadas com drogas pesadas, segundo ela, uma visão hoje
“ultrapassadíssima”. Ana Beatriz acaba de lançar o livro, já best-seller, “Mentes
inquietas” (Ed. Nepades), no qual explica como lidar com essas crianças de
cérebro hiperestimulado para que elas desenvolvam suas potencialidades —
geralmente geniais — e não terminem rotuladas, em casa e na escola, como
intempestivas, desatentas e até agressivas, o que as leva ao desastre.
Os autores do livro “The indigo children”, Lee Carrol e Jan Tober, acreditam
que haja uma geração sem precedentes de índigos nos EUA. Ana Beatriz concorda:
essa geração índigo é fruto da revolução tecnológica, que hiperestimulou as
crianças, trazendo à tona seus expoentes DDA:
— São os casos daqueles jovens que fizeram o seu primeiro milhão antes de
terminar o ensino médio. Eles já eram DDA, mas, com a revolução tecnológica,
foram ainda mais estimulados, hiperfocaram a atenção na eletrônica e produziram
coisas geniais.
No Brasil, como a revolução tecnológica chegou alguns anos mais tarde, a
explosão de potencialidades dessa nova geração índigo ainda está por despontar,
mas Ana Beatriz já vê alguns deles, como o músico Marcelo Yuka, seu paciente há
quatro anos, cujo “faro para a estranheza”, como ela brinca, vem desde a
infância:
— Tudo o que Marcelo Yuka descobre em termos de sons e parece estranho, depois
de algum tempo vira popular.
Os índigos têm ainda uma intuição exacerbada, como a Salete, que, segundo Ana
Beatriz, é interpretada como uma espiritualidade elevada:
— Mas o que a ciência comprova é que os índigo têm um funcionamento cerebral
diferente. Se não forem bem compreendidos, podem ser confundidos com pessoas
impulsivas e agitadas.
Vida
contemporânea aflige crianças sensíveis
Além da revolução tecnológica, que estimula ainda mais as potencialidades das
crianças índigo e DDAs, a psicóloga Débora Gil alerta que a sociedade
competitiva e individualista também afeta extremamente essas crianças
hipersensíveis. Por serem muito curiosas, intuitivas, solidárias e justas, a
cultura do sucesso e do dinheiro pode deixá-las aflitas, ansiosas ou
angustiadas. Débora Gil, que trabalha com a psiquiatra Ana Beatriz B. Silva no
Núcleo de Medicina do Comportamento (Napades), no Leblon, diz que este é mais
um motivo para que estas crianças sejam tratadas com maior compreensão:
— Essas crianças são hipersensíveis e essa tensão social as afeta mais que as
outras.
Escolas já adotam visão diferente de índigos
Mas como funciona o cérebro índigo? O que a neurociência comprovou, segundo
Débora Gil, é que o lobo pré-frontal do cérebro, que filtra os estímulos
externos, trabalha mais devagar nessas crianças. Isso significa que as demais
partes do cérebro recebem mais estímulos e trabalham mais rapidamente. A
psiquiatra Ana Beatriz B. Silva explica que essas crianças são hiperestimuladas
e, por isso, são mais inteligentes, sensíveis, intuitivas, criativas e ativas.
— Na visão ultrapassadíssima da neurologia, o exame era o encefalograma e o
diagnóstico era de lesão cerebral e disritmia, com prescrição de drogas como
Gardenal. Hoje sabemos que os DDAs e os índigos são apenas diferentes na
velocidade do funcionamento cerebral e precisam apenas de ajuda para
desenvolver suas potencialidades que são geniais — diz ela.
As drogas, como as à base de ritalina, são indicadas, segundo ela, só em casos raríssimos
de extrema dificuldade de concentração e devem ser usadas em períodos de um a
dois anos no máximo:
— Hoje sabemos que o cérebro tem uma enorme plasticidade. Assim como uma
terapia altera o seu funcionamento, a droga também o ensina a regular a sua
produção de dopamina, o que equilibra a impulsividade dos DDAs.
Os índigos sempre existiram, mas nem sempre foram compreendidos como gênios,
segundo Ana Beatriz. Ela cita em seu livro índigos históricos: Einstein, que
chegou a ser considerado uma criança burra por seus professores, Mozart,
Beethoven, Leonardo da Vinci, James Dean e Marlon Brando estão na lista de
gente lilás tida como louca.
Mas isso já passou. No Rio, os índigos e os DDAs já conquistam novos
tratamentos para sua hipersensibilidade. Escolas como a Creche Acalanto, o
Jardim-Escola Vilhena de Morais, o Espaço Educação e o Franco-brasileiro já não
vêem seus alunos hipersensíveis como crianças-problema.
Foi o caso de João Gustavo, de 10 anos, aluno da Creche Acalanto. O menino é um
ótimo pesquisador, um ótimo papo, mas sofre na hora de escrever. Não tem
paciência nem para ler um enunciado de uma questão. A mãe, Claudia, foi chamada
pela escola para resolverem juntos a situação:
— Não é nada grave, mas ele só se concentra no que gosta. Ele é obediente,
desde que eu explique muito bem por que ele deve obedecer. Ele acha que dá
trabalho ler, mas adora ficar no computador, conversa com todo mundo pelo ICQ.
A mãe de Letícia, de 5 anos, Wanda Barros, também foi alertada pelo
Jardim-Escola Vilhena de Moraes que a menina parecia distraída, mas não era:
apenas prestava atenção na professora e em milhões de outras coisas à sua
volta.
Tiago, de 7 anos, é um artista do Colégio Franco-brasileiro. Faz comerciais,
decora longos textos, conversa com todo mundo na rua, pergunta sempre por que
tem que fazer o que lhe mandam. Mas, na hora de escrever, o pensamento vai mais
rápido que a sua história. Sua mãe tenta pacientemente lhe ensinar a escrever
com “começo, meio e fim”. Teresa, mãe de Carolina, de 5 anos, teve que se
“adaptar” à filha:
— No início, eu me afligia e tentava mudá-la. Nada dava certo, ela não aceita
ordens. Quando eu me irritava, eu dizia “é assim porque eu quero, sou sua mãe e
pronto”. Era um desastre. Eu é que tive que mudar. Carol é assim inquieta e
pronto — brinca Teresa.
COLABOROU Lílian Fernandes
Comolidar com o índigo
SEM IMPOSIÇÕES: A psicóloga Débora Gil diz que os pais do índigo não devem
fazer imposições só por necessidade de obediência. Essas crianças sensíveis,
talentosas e inteligentes não aceitam explicações do tipo porque sim ou porque
não, respostas, segundo ela, tidas como de criança mas muito usadas por pais
autoritários. Essas crianças não funcionam assim e exigem que os pais, com
calma, expliquem o porquê de suas ordens.
CASTIGOS ABSURDOS: As ameaças de castigos absurdos, como o homem do saco vai
pegar, vão passar pimenta na boca ou o papai do céu vai castigar, podem fazer o
feitiço virar contra o feiticeiro. O índigo vai ver que esses castigos não
acontecem e perderá o respeito por esses pais.
DISCUSSÕES FECHADAS: Nunca se deve discutir a respeito do índigo na frente
dele. Ele vai querer participar da discussão. Até mesmo uma questão
marido-mulher, do tipo você demorou a chegar, dá ao índigo o direito de se
intrometer.
PAIS DIVERGENTES: Se o índigo percebe que os pais discordam em muitas questões
— e ele percebe tudo — vai acabar manipulando a família inteira. Os pais devem
divergir longe do índigo.
PAIS ATUALIZADOS: Os pais do índigo devem se atualizar em questões de alta
tecnologia para poder acompanhar a criança e conversar com ela. Os índigos
preferem revistas de ação, desenhos mais elaborados como os do X-Man, de tecnologias
mutantes, jogos eletrônicos hiperativos como The Sims, que é uma simulação da
vida real; o Civilization, que cria estratégias para a civilização desde o
começo do mundo e leva meses para terminar. Se os pais não se atualizam,
segundo Débora Gil, rapidamente os índigos deixarão de falar com eles, com a
convicção de que eles não entendem nada mesmo.
REDAÇÃO NA ESCOLA: A psiquiatra Ana Beatriz B. Silva diz que nos Estados Unidos
as escolas assimilaram há algumas décadas a lidar com os índigos, estimulando
suas potencialidades. Uma sugestão de Débora Gil é a de redações de temas
livres e variados. O índigo escreve com pressa, come palavras e teria mais
facilidade em escrever sobre o que mais lhe agrada.
PROFESSOR ALIADO: As turmas do índigo devem ser pequenas e o professor não deve
ser um superior, mas um aliado. Uma maneira de trazer a atenção do índigo é lhe
passar tarefas significativas, papéis de responsabilidade. Ele deve ser
convidado para ser o monitor, um auxiliar do professor e jamais deve ser
repreendido em público, muito menos de maneira estúpida ou severa.
Por
que é impossível não amar Harry Potter
Daniela Name
Hermione é a típica sabe-tudo: estudiosa, inteligente e rápida, humilha os
colegas com seu dedo sempre levantado, pronta para responder num segundo à mais
difícil das perguntas. Mente prodigiosa, decora poções de magia e a história
dos bruxos como nenhum outro aluno da Escola de Hogwarts. Ron Weasley tem um
coração tão bom e tão generoso que é difícil imaginar como ele cabe no corpo
magrelo e desengonçado do melhor amigo de Harry Potter. Opa, até que enfim
chegamos no nome do protagonista do maior fenômeno editorial dos últimos
tempos. Harry Potter, o carismático bruxinho que fez com que toda uma geração
de crianças descobrisse o prazer da leitura e alçou sua autora, a escocesa
J.K.Rowling, ao posto da mulher mais rica do Reino Unido — a Rainha Elisabeth
teve que se contentar com o vice-campeonato.
E por que é impossível não amar Harry Potter? Ele não é o mais CDF dos
alunos, nem o mais generoso, nem o mais bonzinho, nem o mais obediente. Também
está longe de ser aquele gato de parar a torre do castelo. Então o que ele tem
que os outros não têm? Como este box está aqui, no meio desta reportagem, você
já deve ter concluído a resposta: Harry Potter é o rei dos índigos. E é por ser
assim, meio gauche , com um raciocínio um tanto quanto enviesado, que
acaba livrando professores e alunos das maldades de Voldemort, o bruxo das
trevas que assassinou seus pais e vem ameaçando Hogwarts desde o início da
saga. No dia do assassinato de Thiago e Liliam Potter, Harry estava dormindo no
berço. Voldemort tentou matá-lo, mas havia algum tipo de poder no bebê que atingiu
o bruxo quase mortalmente.
O confronto deixou uma cicatriz na testa de Harry, que começa a doer sempre que
o perigo se aproxima. A intuição é uma forte aliada do bruxinho na hora de
resolver problemas. Ele “sente” e “intui” muito mais do que raciocina.
Atormentado pela orfandade e pela fama — é amado, invejado e odiado no mundo
bruxo por causa do feito contra Voldemort — Harry precisa sempre usar este feeling
para sair das enrascadas. Para derrotar o mal e encontrar as respostas para os
mistérios que cercam sua origem, vive desobedecendo às rígidas regras que
orientam Hogwarts. E enfrentando a autoridade de professores linha-dura, como o
sempre mal-humorado Severo Snape. A Grifinória — equipe de Harry, Hermione e
Ron — vive perdendo pontos por indisciplina. Mas os pontos voltam em dobro. E
não por força da magia, mas pelos feitos do adorável bruxinho-índigo.
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