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Jung:
Cientista ou Místico ?
Místico não é uma palavra de sentido unívoco. Tem uma variedade ampla de
significados de acordo com as perspectivas teóricas e vivenciais de quem a
utiliza. O
Vocabulário
Técnico de Filosofia
de
André Lalande assinala quatro acepções para o termo que é empregado
em todos os sentidos da palavra misticismo.
Resumidamente:
Nota-se, quando essas considerações são feitas sobre Jung, que a
palavra místico não é usada para reconhecer-lhe algum atributo no
sentido religioso ou espiritual, assim como quando alguém se refere a São
João da Cruz, Santa Teresa D' Ávila ou Tomas Merton como místicos,
mas, na maioria das vezes, o termo é usado com a conotação pejorativa,
conforme referenciada por Lalande, de modo a desqualificar a sua teoria
psicológica, retirando-lhe a condição de científica.
Freud perguntando-se em 1932 sobre o significado das palavras misticismo e
ocultismo, respondeu
A
conotação mística atribuída à teoria psicológica de Jung geralmente é
feita tendo como contraponto a teoria psicanalítica que, segundo esses
críticos, teria permanecido dentro do modelo da ciência
moderna. É por esse caminho que vamos iniciar a nossa reflexão sobre
o assunto.
A ciência moderna nasceu com Galileu, que abandona quaisquer considerações
qualitativas no exame da realidade. A física passa a apoiar-se em relações
quantitativas e mensuráveis, tornando-se o paradigma da ciência moderna
que, influenciada pelo racionalismo cartesiano, consolida-se com Isaac
Newton. A mecânica newtoniana está cèntrada na investigação da natureza
através das relações de movimento. Espaço e tempo são consideradas
entidades absolutas que servem de estofo para fenômenos cientificamente
observáveis. Esse paradigma definiu o modelo de cientificidade que foi ao
longo do tempo foi igualmente adotado pelas ciências biológicas, humanas e
sociais.
Na sua formação teórica, Sigmund Freud sofreu o impacto do naturalismo de
Darwin e do positivismo de Bruck, este último, aluno de Helholtz, pioneiro
na tentativa de aplicar os princípios da física no estudo da fisiologia e
psicologia. Essas influências formaram a base na qual Freud assentou o seu
método de estudo e pesquisa, dentro do quadro teórico da ciência moderna,
fato que influiu de modo marcante na construção teórica da psicanálise que
nasce causal, mecanicista e naturalista. Essas características permanceram
estáveis ao logo o seu desenvolvimento até a revolução lacaniana, que
introduziu profundas modificações na estrutura teórica da psicanálise, que
deixamos de comentar por ser assunto que ultrapassaria as dimensões deste
artigo.
Carl Gustav Jung chega ao mundo da ciência com um estofo cultural
diferente. Durante a sua juventude, dedicou-se à leitura de obras de
filosofia, encontradas principalmente na biblioteca de seu pai. Johann
Paul Jung, pastor protestante da igreja reformada. Essas leituras
propiciaram-lhe contato com a filosofia de Kant, Schopenhauer e Nietzsche,
alicerçado nas quais desenvolveu uma cosmovisão que lhe serviu de
contraponto às idéias que dominavam o mundo científico com o qual se
defrontou. Foi essa cosmovisão, fundada no idealismo alemão, que o impediu
de assumir uma posição causal e mecanicista, naturalista e reducionista no
exame da realidade psíquica.
Contrapondo-se ao paradigma científico dominante, Jung apoiou o seu método
de investigação psíquica na perspectiva finalista que, como se disse
acima, tinha sido abolido das ciências desde Galileu, mas remanescia nas
ciências biológicas, para as quais o enfoque causal-mecanicista nem sempre
produzia resposta satisfatória.
A questão da causalidade versus finalismo remonta ao início da filosofia
grega, aos pré-socráticos. A dificuldade ou impossibilidade de diálogo
entre essas perspectivas teóricas permaneceu praticamente inalterada no
decorrer da história do pensamento humano. Nessa trajetória, a ciência
oscilou entre os dois pólos, conforme o seu objeto de estudo e questões
ideológicas pertinentes. Enquanto a filosofia e a teologia eram as
ciências mais importantes, predominava a orientação finalista ou
teleológica de inspiração metafísica. Na medida em que a physis ocupa esse
lugar de proeminência, o método sustenta-se na causalidade cujo objetivo é
procurar identificar as causas dos fenômenos observados. Este é o
modelo da ciência moderna.
Por isso, ao preferir a abordagem finalista no estudo dos fenômenos
psíquicos, Jung rompe com o paradigma científico vigente, expondo-se a
críticas daqueles que, permanecendo fiéis ao determinismo mecanicista e
causal, questionam a cientificidade dos seus estudos e pesquisas, pois o
finalismo é tido pela ciência moderna como uma visão mística ou religiosa
da realidade. De fato, o finalismo jamais conseguiu desvencilhar-se da
necessidade intrínseca de um demiurgo que cria o Cosmos e estatui o
caminho a ser seguido e o objetivo a ser alcançado na evolução cósmica.
Dessa forma, por conta de sua abordagem finalista, a Jung é atribuída uma
atitude mística diante do psiquismo humano.
Nada obstante, Jung fez
questão de, ao longo de sua fecunda produção teórica, manter-se distante
de quaisquer abordagens metafísica do fenômeno
psíquico.
Em outro ponto
afirmou:
Jung
adota o empirismo e a fenomenologia na abordagem do fato psíquico,
sustentando o seu trabalho no método hermenêutico, na trajetória definida
por Wilhelm Dilthey que aponta a hermenêutica como o caminho metodológico
a ser seguido pelas ciências humanas.
Por isso, o fato de ter-se definido pelo finalismo não significa que Jung
tenha assumido postura irracional ou mística no seu trabalho. O seu
racionalismo não é cartesiano, mas sustenta-se na razão hermenêutica que
se justifica na ordem da estrutura interpretativa, fundada em metodologia
própria - a análise simbólica.
Desse modo, é válido dizer que Jung, nada obstante a sua
contraposição aos postulados do cientificismo positivista, mantém-se nos
limites epistemológicos da ciência ocidental.
A idéia de que Jung foi um místico tem sido fortalecida pelo atitude de
grupos espiritualistas e religiosos que geralmente procuram na teoria
junguiana a fundamentação do seu corpo teórico. No entanto, atribuir à
psicologia analítica de Jung conotação espiritualista, mística ou
religiosa revela desconhecimento dos alicerces epistemológicos em que se
funda a sua construção teórica.
De fato, Jung nutria inequívoco interesse pelas questões espirituais e
religiosa, cuja problemática foi sempre destacada em sua obra. O fazia, no
entanto, como fenômenos psíquicos e não quanto à pertinência dos seus
conteúdos doutrinários, no tocante a verdade ou validade de afirmações ou
dogmas de quaisquer confissões rteligiosas.
Em
certo momento de sua obra ele afirmou:
Jung
percebia que o homem moderno ansiava por restaurar a dimensão espiritual
perdida e considerava que muito do sofrimento psíquico que as pessoas
padeciam tinha origem na perda da dimensão religiosa de suas
vidas.
Jung
trata aqui da questão do significado como fator estruturante da
personalidade humana.
Ao examinar a atitude religiosa do homem, Jung identifica fatos que
apontam para a existência de uma função religiosa natural no inconsciente,
resultando em que a religião decorre de disposições arquetípicas. Ele
chega a comparar os dogmas religiosos com os arquétipos. Com isso,
resgata a religião do âmbito da patologia em que Freud a colocara ao
atribuir às manifestações religiosas caráter neurótico
obsessivo.
Dessa forma, ao considerar a espiritualidade, o misticismo e a religião
como realidades psíquicas não patológicas, Jung introduz no estudo do
fenômeno religioso instrumentos de análise que permitem o exame do tema de
uma perspectiva psicológica, sem assumir qualquer postura de validação de
algum credo.
Jung
considerava a psique como uma totalidade e que todas as construções
humanas deveriam ser vistas sob essa perspectiva. Algumas delas são
continentes para acolhimento de conteúdos que não podendo ser assimilados
pela consciência como pertencentes à própria psique individual são
projetados em espaços, idéias, pessoas ou objetos. Em outros momentos,
essas construções são mecanismos ilusórios para escapar da própria
alma.
"Só aquilo que somos realmente
tem o poder de curar-nos" Carl Gustav Jung
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